domingo, 13 de maio de 2012

O Corvo

(uma crítica-poema de Paloma Rodrigues e Edgar Allan Poe)

o-corvo-dublado-download-filme-online-hd

Numa noite agreste, quando eu assistia, lenta e triste,

Vago, ridículo filme com falas bestiais

E já quase enlouquecia, ouvi o que parecia

O som de alguém que gritava suas falas por demais.

"Um mau ator", eu me disse, "está gritando falas banais

É só isto, e nada mais."

 

Ah, que quase me caio! Era no frio de maio,

E o cinema, morrendo negro, urdia sombras desiguais.

Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada

P'ra esquecer (em vão!) a mancada, hoje destes roteiristas boçais-

Este filme com roteiristas boçais,

E com talento, aqui jamais!

 

Como, a tremer de frio e revolta, com o ar condicionado gelando a toda volta

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!

Mas, a mim mesma infundia força, eu ia repetindo,

"É um filme ruim, falando de um bom escritor e um bando de policiais;

Um filme ruim com problemas orçamentais.

É só isto, e nada mais".

 

E, mais forte num instante, com resguardo e hesitante,

"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;

Mas eu ia me contorcendo, enquanto este filme foi acontecendo,

Tão terrivelmente horrendo, destruindo minhas memórias colegiais,

Que mal sobrevivi..." E mais um ator gritou suas falas artificiais.

Filme ruim e nada mais.

 

A treva enorme fitando, fiquei perdida receando,

Triste com tais pensamentos pensando que ninguém saberá quem foi Poe, jamais.

Mas a película era infinita, a direção profunda e maldita,

E as falas eram ditas em gritos ou surros artificiais.

Eu o disse, o nome dele, e o eco disse aos meus ais.

Cadê o Nicolas Cage e ninguém mais?

 

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,

Não tardou que culpasse o diretor mais e mais.

"Por certo", disse eu, "aquele bulha devia ter mais cautela.

Vamos ver o que mais ele transforma em movimentos intestinais.”

Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

"É um filme, e nada mais."

 

Abri a mente, e tentei entender a graça

De fazer de O Corvo um filme ofensivo aos bons livros ancestrais.

Não fiz nenhum julgamento, não pensei por nenhum momento,

Mas por favor, não me condene, pois mesmo assim odiei este filme por de mais.

Tive súbito ataque de raiva por ver tantos erros bestiais,

Neste filme horrível, horrível e nada mais.

 

E este autor estranho e talentoso, me fez sorrir com amargura

Pensando em quem vê este filme sem buscar as referências culturais.

“Ele passou a vida agoniado,” disse eu, “mas era nobre e ousado,

Ó querido Poe embriagado lá nas trevas infernais!

Dize-me como morreste lá nas trevas infernais!

E disse Poe, “esse filme nunca mais”.

 

Pasmei de ouvir o autor morto falar tão claro,

Inda que concordasse com palavras tais.

Mas sua opinião deve ser ouvida

Que o autor não teria concedido tantas besteiras teatrais

Autor ou homem teria odiado este filme e atuações infernais,

Este filme “Nunca mais”.

 

Mas o autor, em seu túmulo, nada mais dissera, indignado,

Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.

Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento

Perdida, num murmuro lento, "Sinto muito por estes erros descomunais

Todos - todos são culpados. A mim também culpais".

E disse ele, "Nunca mais".

 

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,

"Por certo", disse eu, "são estes blockbusters usuais,

Aprendeu- a fórmula de algum dono, que os clichês e o abandono

Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,

E Poe em desesp'rança de seu canto cheio de ais

Disse "Esse filme nunca mais".

 

Mas, fazendo inda a esta equipe burra rindo de minha amargura,

Sentei-me defronte da tela, olhando este plot chato e suas situações irreais

E, enterrada na cadeira, pensei de muita maneira

Que qu'ria esta história agoureira dos maus tempos ancestrais,

Esta história idiota e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Que não estreasse nunca mais.

 

Nisso o filme ia discorrendo, com aquele roteiro horrendo

A crítica que na minha alma cravava os olhos fatais,

Ia cismando, a cabeça reclinando

No cinema onde a luz punha vagas sobras desiguais,

Naquele cinema onde ela, entre as sobras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!

 

Ligaram-se as luzes densas, como numa privada imensa

Onde os filmes ruins aparecem, com suas piadas acidentais.

“Maldito!”, a mim disse, “pegou um ótimo autor, que ótimos livros concedeu-te

E mandou ao esquecimento; valeu-te. Toma-o, transforma-o, com teus ais,

O nome dele ficou manchado com todos estes teus ais!”

E Poe disse “Nunca mais”.

 

“Querido”, disse eu, “querido Poe, este filme do demônio com nome de ave preta!

Foi o diabo ou tempestade quem comprou os direitos autorais,

A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,

A este cinema de ânsia e medo, dize a esta crítica a quem atrais

Não há uma crítica neste país a quem tanto atrais!”

E disse Poe,“Este filme nunca mais”.

 

“Querido”, disse eu, “querido Poe, este filme do demônio com nome de ave preta!

Por Deus, bens sabe que somos fracos e meros mortais.

Dize que a bebida destruiu sua vida

Verá esta noite que este filme a mim também trará consequências colossais

Este filme cujo diretor não sabe dirigir seus atores e tudo mais”

E disse Poe, “Nunca mais”.

 

“Com estes gritos sem arte e o talento de um quiabo”, eu disse. “Parte!

Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes ninguém ouvir a bobagem que disseste!

James McTeigue, não me moleste! E deixe Poe em paz”

E Poe disse “Nunca mais”.

 

E Poe, na cova infinda, está ainda, está ainda

A pensar nessas bobageiras infernais

Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

Libertar-se-á... nunca mais!

baocnst8nd5alolph9u97cdmv

The Raven (2012)
Direção: James McTeigue
Roteiro: Ben Livingston, Hannah Shakespeare
Elenco: John Cusack, Alice Eve, Luke Evans, Brendan Gleeson, Kevin McNally

5 comentários:

Celo Silva disse...

Sensacional!
Esse filme é um grande besteira
hahaha

Celo Silva disse...

Já estou divulgando.

J. BRUNO disse...

Passei pela recomendação do Celo, acredita que ainda ontem um amigo me perguntou se eu achava que valia o ingresso e eu disse que ainda não tinha visto o filme, pra ele ir e me dizer o que achou... se ele foi à estas horas deve estar me odiando...

Parabéns pela excelente construção da crítica/poema!

http://sublimeirrealidade.blogspot.com/

carmattos.com disse...

Magnífico!
Argumentos celestiais
Se ainda não vi esse filme horrendo
Agora mesmo é que vou correndo
Para longe dele o quanto mais

carmattos.com disse...

Magnífico!
Argumentos celestiais
Se ainda não vi esse filme horrendo
Agora mesmo é que vou correndo
Para longe dele o quanto mais

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...