sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

The Rocky Horror Picture Show

Atenção: contém spoilers

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(Este texto foi “roubado” da minha monografia, porque me nego a escrever o mesmo texto vinte vezes)

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“Eu gostaria, se possível, de levá-lo em uma estranha jornada”. Uma jornada que teve início em 1972, na Inglaterra, quando um jovem ator chamado Richard O’Brien conheceu Jim Sharman, um diretor australiano de teatro que estava produzindo uma versão para os palcos de Jesus Cristo Superstar. Eles se tornaram amigos e um dia O’Brien contou a Sharman sobre uma peça que ele havia escrito. Os dois se uniram para realizar They Came from Denton High, mas Sharman não estava satisfeito com o título que o musical havia recebido (uma homenagem ao filme They Came from Outer Space). E, assim, em junho de 1973, estreou nos palcos britânicos a primeira versão de The Rocky Horror Show, aquela que viria a ser uma das histórias mais famosas e importantes do mundo do entretenimento.

A peça era uma homenagem aos filmes de horror e ficção científica do início do século XX, como Drácula, Frankenstein e King Kong, e misturava elementos de glam rock ou glitter-rock (estilo musical dos anos 60 e 70, caracterizado por músicos andrógenos, muita maquiagem, purpurina, roupas coladas, plumas, etc.) com comédia e muita sexualidade. O sucesso da peça chamou a atenção de Lou Adler, famoso produtor musical da época. O produtor, baseado no fenômeno glam, decidiu produzir uma versão cinematográfica da peça de O’Brien e Sharman, mantendo os dois como roteirista e diretor, respectivamente.

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The Rocky Horror Picture Show, o filme, conta a história de Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon), um casal comum e sem muitos atrativos. Eles noivaram e estão indo contar a novidade para o homem que os apresentou, Dr. Everett Von Scott (Jonathan Adams). No percurso, o pneu de seu carro fura e eles precisam ir até um castelo na beira da estrada para pedir ajuda. Lá são recepcionados pelo faz-tudo Riff Raff (Richard O'Brien) e pela empregada doméstica Magenta (Patricia Quinn). Porém, o castelo pertence a um cientista chamado Frank-N-Furter (Tim Curry) que está dando uma festa para apresentar sua mais nova criação, Rocky (Peter Hinwood), uma criatura que é mais músculos do que cérebro. A história é narrada pelo Criminologista (Charles Gray), um especialista no caso.

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O filme teve sua estreia em 1975 e foi um completo fracasso de bilheteria, porém se tornou um símbolo cult entre cinéfilos e pesquisadores de cinema. The Rocky Horror Picture Show é mais do que um filme, é um fenômeno. O longa continua em cartaz em vários cinemas do mundo todo, sendo exibido há trinta e cinco anos. Os espectadores se reúnem não apenas para assisti-lo, mas também para participar ativamente das sessões, vestindo-se como os personagens, jogando objetos, cantando e gritando. Foi o primeiro filme a criar tal fenômeno.

RHPS é um filme bastante peculiar, confuso e, por falta de uma palavra melhor, maluco. Quando assisti pela primeira vez fiquei bastante constrangida porque meus pais estavam na sala e acabei tendo que assisti-lo em partes, o que só piorou minha situação. Não entendi nada. Tive que assistir mais algumas vezes para então começar a compreender o que estava acontecendo. Hoje me considero uma especialista sobre o assunto.

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O filme começou como um grande fracasso, tendo arrecadado cerca de $21,245 na sua semana de estreia (praticamente nada em comparação com Tubarão, que estreou no mesmo ano e arrecadou $7,790,627 no lançamento), virando motivo de piadas e deboche. O erro dos produtores foi tentar lançar o filme para o grande público (em sua maioria, homens brancos, americanos, héteros). Foi então que Lou Adler teve a ideia que mudou o rumo da história do longa-metragem, de seus realizadores e do cinema em geral. O produtor decidiu passar o filme nas sessões da meia-noite, conhecidas por exibir apenas filmes de baixo orçamento e/ou alternativos. Essas sessões estavam cada vez mais populares, e seu o público acabou por adotar RHPS.

O filme se tornou algo que instiga as pessoas a viverem suas vidas, a falarem em público, a saírem do armário, enfim, a se aceitarem da maneira como são. Pode-se dizer, até mesmo, que o filme é um retrato de seus fãs: algo extremamente criticado, mas que com a motivação certa, se tornou algo único e precioso. A popularização do filme pode parecer um tanto quanto estranha ao analisarmos superficialmente as suas qualidades. Existem diversos erros técnicos, os atores relativamente desconhecidos (apesar de Susan Sarandon ter vindo a se tornar uma das principais atrizes de Hollywood, na época ninguém sabia quem ela era), o aspecto cafona e os inúmeros elementos queer que permeiam a história, que são o suficiente para afastar o grande público.

Lou Adler acreditava que estava produzindo um filme para as grandes massas, porém, o produto que tinha nas mãos criou vida própria. Além dos fatores citados acima, o ambiente no qual foi lançado não favoreceu The Rocky Horror Picture Show. Com o fim do glam rock, os musicais em baixa (os musicais Os Embalos de Sábado à Noite e Grease, só viriam estrear em 1977 e 1978, respectivamente, atraindo a atenção do público de volta ao gênero) e a homofobia, o filme não teria chance alguma. Mas ao ser redirecionado para um novo público, através das sessões de filmes underground, The Rocky Horror Picture Show encontrou sua verdadeira plateia e acabou por se tornar exatamente o que pretendia: um filme B reverenciado, assim como aqueles que ele mesmo homenageia.

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Outro fator importante são as referências e personagens criadas por Richard O’Brien. The Rocky Horror Picture Show é muito mais do que um simples filme de paródia. Ao invés de satirizar outros filmes, ele os venera e traz para a tela interpretações sobre estas obras. Enquanto Doctor X apenas dá a entender que pode existir alguma forma de incesto, RHPS joga na cara de seu espectador o relacionamento de Magenta e Riff Raff. Quando Frankenstein cria o monstro, podemos apenas imaginar que há alguma referência à homossexualidade ou qualquer tipo de relacionamento queer. Mas quando Frank-N-Furter cria Rocky, sabemos com certeza de que há. Ao lotar o filme com referências a clássicos, Richard O’Brien criou um vínculo com seu público. Soma-se isso a um vasto catálogo de personagens, que permitem a qualquer um se identificar, e temos um filme ideal para aqueles que se sentem excluídos da sociedade. Não consigo pensar agora em outro filme que faça isso tão bem quanto este.

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Esta necessidade que as pessoas possuem de serem aceitas também foi um fator importante para o sucesso do filme. Ele despertou no público a vontade de se expressar, dando coragem àqueles que não conseguem levantar a voz em público. Através de textos acadêmicos e de entrevistas com os espectadores (que realizei para minha monografia) é possível perceber que existe uma conexão entre a baixa autoestima do público e a necessidade de fazer parte de algo e de se sentir incluído, com o filme.

Entre os espectadores, o personagem mais popular é Frank-N-Furter. Na primeira vez em que aparece, cantando Sweet Transvestite, Frank choca a audiência, Brad e Janet com sua aparência. De salto alto, lingerie e cinta liga, Frank canta sobre quem é (“Sou apenas um doce travesti, de Transexual, Transilvânia”) e sobre o que está criando (“Estou criando um homem, com cabelos loiros e bronzeado, e ele é ótimo para aliviar minha... tensão”). Ousado, sedutor e comprometido com seus ideais, Frank-N-Furter é a personificação da mensagem que The Rocky Horror Picture Show passa: Não sonhe, seja.

Brad e Janet não sabem lidar com seus sentimentos e com sua sexualidade. Ambos são reprimidos pela sociedade (representada no filme por Dr. Everett Von Scott) e sentem medo de se libertar, fazer aquilo que lhes dá felicidade. Brad esconde de si mesmo sua homossexualidade. Ele irá casar com Janet, ter filhos e viver uma vida pacata, sem nunca entender o porquê de sua frustração. Com a ajuda de Frank-N-Furter, um novo mundo se abre para ele. Já Janet é ativa desde o início da trama e a única coisa que a prende ao papel de esposa ideal é o próprio marido, Brad. Assim como ele, Janet é reprimida. Ela descobre sua própria sexualidade, mas não a dele, e por isso se sente culpada por tê-lo traído. Porém, quando fica claro que ele também se libertou, ela seduz Rocky.

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O público estabelece o último fator para a redenção do filme. Sejam pessoas que precisam encontrar o lugar ao qual pertencem, sejam pessoas que lidam diariamente com o preconceito, sejam admiradores do cinema de horror e ficção científica, etc. Ao dar início a esta pesquisa, tive a oportunidade de me comunicar com cinéfilos de todo o mundo. A maioria se sentiu honrado em participar de algo que envolve o filme e todos ajudaram de bom grado. O que The Rocky Horror Picture Show cria, na realidade, é uma espécie de sociedade, onde o principal fator é o sentimento de afeto que se origina do anseio de querer estar junto de outras pessoas que nos entendam e nos aceitem como somos. Esses espectadores acabam formando uma grande família que se ama e se respeita, mesmo que nunca tenham se encontrado antes. Através do filme, essas pessoas encontram um lar, um meio de se expressar e um veículo para escapar das opressões do dia-a-dia.

Quando eu tinha dezesseis anos não sabia muito bem que rumo dar para a minha vida. O vestibular estava chegando e eu nem ao menos sabia se jornalismo era a escolha certa. Sempre fui uma garota tímida, com poucos amigos e dificuldade de falar em público. Na época da escola, era invisível e as pessoas só me notavam para rir de mim. Nunca fui normal, por assim dizer, sempre me senti excluída do mundo, como se não pertencesse a lugar nenhum. Quando assisti ao filme e comecei a mergulhar de cabeça na sua história, encontrei várias pessoas que sofriam o mesmo que eu.

A mensagem do filme não é direcionada apenas para pessoas com sexualidade queer, ou seja, qualquer pessoa que não se enquadre no termo heterossexual “tradicional”, como gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, assexuados, homossexuais afeminados, travestis, drag queens, lésbicas masculinizadas, lésbicas afeminadas, sadomasoquistas, fetichistas, pansexuais, voyeurs, exibicionistas, etc. O filme também serve de apoio para pessoas que sofrem outros tipos de preconceito, seja por causa da cor da pele, da maneira como se vestem, das músicas que escutam, porque usam óculos ou aparelho nos dentes, porque não gostam de certos filmes… Enfim…O mundo está cheio de Janets, Brads, Columbias, Rockys, Scotts, Magentas e Riff Raffs, apenas esperando que seu Frank-N-Furter apareça para salvá-los. Esperando para que alguém lhes diga: Não sonhe... Seja!

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The Rocky Horror Picture Show (1975)
Direção: Jim Sharman
Roteiro: Richard O'Brien, Jim Sharman
Elenco: Tim Curry, Susan Sarandon, Barry Bostwick, Richard O'Brien, Patricia Quinn, Nell Campbell, Jonathan Adams, Peter Hinwood, Meat Loaf, Charles Gray

5 comentários:

Marcos Vinícius Ambrosini Mendonça disse...

Ótimo filme! Comprei o DVD em Londres por uma bagatela ainda por cima!

Te deixar de bônus (já que tu não estava comigo quando eu vi) algumas reações engraçadas de alguns momentos do filme (que eu me lembro). Bjo!

PS: contém spoilers (HAHAHA)

1) Que cara de filme barato, nossa.
2) Ah não, um musical? Ok, vamos lá. (eu juro que não sabia).
3) Clima setentista total esse filme.
4) Começou o rocknroll! Bom, hein? Esse corcunda com cara de nosferatu matando a pau.
5) Dancinha mó pegada essa!
6) PQP O CARA DO HOTEL DO ESQUECERAM DE MIM 2, minha infância não será mais a mesma.
7) Mas essa Susan Sarandon quando era nova dava um caldo, hein? (acho que é a primeira vez que vejo ela novinha assim em um filme, haha)
8) MORRE MEATLOAF! Achei que ele fosse estragar o filme - e ele tentou roubar a cena - mas acho que o pessoal se deu conta e deixou a participação dele bem curtinha.
9) Que filme louco. E foda.
10) Imagina se alguém de casa olha isso comigo; se tivesse nudez então, pqp.
9) Cara, eu nunca tinha visto na vida uma faca elétrica.
10) Que atuação fantástica a desse alemão, nossa; é o cigano Igor da Inglaterra.
11) Que foda! (repete algumas vezes)
12) Acho que é o final de filme mais legal que eu já vi.

Paloma Rodrigues disse...

Hahaha Não só cara como orçamento. No início, quando aparecem os caixões... Eles tiveram que comprar um de criança pq não tinham dinheiro pra um de adulto...

E o corcunda com cara de Nosferatu é o Richard O'Brien, que fez o filme :) E ele não é alemão! É inglês mesmo. Ele não só atua bem como é um puta compositor (sim, as músicas são dele também).

E o Meatloaf não era ninguém nessa época!! Não pode odiar ele ali... Pobre Eddie.

Hahahaha O comentário da faca elétrica foi o melhor xD

E quando a gente ver junto eu te falo minhas teorias sobre a última música.

:D

Marcos Vinícius Ambrosini Mendonça disse...

O cigano Igor que eu me refiro era o Rocky Horror. E como é um filme bem louco, é difícil criticar atuação porque o desenvolvimento e a construção das personagens é bem mais livre, né :) Mas total! Eu dou nota 10.

Paloma Rodrigues disse...

Tu falou em Igor e eu pensei no ajudando do Frankenstein hahaha

Mas ele é americano, se não me engano. E é uma bosta de ator hhaa Ele era modelo na época, hoje tem uma loja de antiguidades. É um idiota.

Tiago Augusto Gonçalves disse...

*o* fãs brasileiros de Rocky Horror! Seus lindos!!!!

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