segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Malandrinha

(Texto originalmente publicado em 29 de maio de 2009, re-publicado com correções e alterações)

Atenção: contém spoilers

John Hughes é um excelente diretor e roteirista dos anos 80. Dos anos 80... Quando a década mudou, também mudou o rumo dos trabalhos dele. O trabalho como diretor foi deixado de lado e muitos roteiros ruins se intercalavam com escassos roteiros bons. Seu último trabalho é também o início desta fase. Um filme superficial, sem a magia dos clássicos Hughes.

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Bill Dancer (James Belushi) e a pequena Curly Sue (Alisan Porter) sobrevivem fazendo trapaças. Um dia, Bill finge que foi atropelado pela advogada Grey Ellison (Kelly Lynch), que paga uma janta para os dois. Grey é uma mulher fria e sem coração, que não é casada, não tem filhos e que, nas palavras dela, “não é uma pessoa emotiva”. Hmm... Será que Grey e Bill vão se apaixonar um pelo outro? Será? Sim.

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Grey não consegue tirar Bill e Sue de sua cabeça, o que é engraçado já que ela tinha deixado bem claro que não tinha nenhum tipo de emoção. Bill também não consegue esquecer a advogada e resolve ir atrás dela. E então Grey atropela Bill de verdade. Ela leva os dois para o seu apartamento e chama um médico, que acha muito perigoso ela deixar um “tipo como este” passar a noite na casa dela. Mas como todo mundo sabe que ele não vai tentar estuprar ela e que os dois vão acabar juntos, ela os deixa ficar lá. E o médico mostra sua indignação:

Essa vai ficar para o Top Cenas Inesquecíveis de John Hughes: Pura poesia

Antes de dormir, Sue conta que seu apelido, “Curly” (crespo), não é por causa do seu cabelo encaracolado, mas sim por causa de Curly, um dos Três Patetas. Isso faz sentido, já que a atuação dela é extremamente caricata e ao mesmo tempo adulta.

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Fica difícil dizer se ela é assim devido ao roteiro ou por causa da atuação de Alisan Porter. Assim como também fica difícil de dizer se Alisan é boa ou péssima atriz. Se você considerar que depois dessa película ela sumiu, e voltou a aparecer em filmes medíocres como The Ten Commandments: The Musical – com Val Kilmer interpretando Moisés -, fica claro qual das duas opções escolher.

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Walker (John Getz), o namorado chato e metido de Grey, chega no apartamento de madrugada e, encontrando a porta de Grey trancada, vai até o quarto onde está Sue. Por sinal, porque uma mulher que mora sozinha tem três quartos enormes? Bem, Walter assusta Sue, que lhe dá um soco e começa a gritar. Walter corre para o corredor, encontra Bill e dá um soco nele. Grey acorda com a gritaria, e dá um soco em Walter. Infelizmente ninguém dá um soco em Grey. Talvez eu faça isso!

Na manhã seguinte a empregada chega, entra no quarto onde está Bill, troca de roupa e se senta na cama... Sem notar que ele está lá. Qual o problema com essa gente? Os lençóis de Grey são feitos com o mesmo material da capa de invisibilidade do Harry Potter? A empregada se assusta quando vê Bill e bate nele com um telefone.

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Nunca confie na mulher da limpeza!

Agora imagine a situação: você está dormindo na casa de uma amiga. A mãe dela, que estava viajando, chega mais cedo e encontra você deitada no sofá. Ela começa a gritar e te espanca, sem perguntar nada. Isso jamais aconteceria se você tivesse os incríveis Lençóis Invisíveis de Grey! Para todas aquelas ocasiões onde você está dormindo na casa de pessoas imbecis! Compre já o seu!

lencol_2Acompanha um par de imbecilidade e uma pitada de sem sal!

Grey descobre que Sue nunca frequentou a escola e resolve confrontar Bill sobre isso. Os dois discutem, Bill admite que tentou passar a perna nela, ela não se importa e resolve ajudar os dois. Isso me irrita um pouco porque, como eu disse antes, na apresentação do filme ela se diz toda cheia de frieza e com um coração de pedra e então do nada ela vira essa mulherzinha sentimental e burra, que deixa dois estranhos entrarem em sua casa e agora ela quer adotar uma criança que nem gosta dela. É uma personagem chata e sem sentido, que muda de personalidade que nem muda de calcinha.

clip_image009 Grey: Oh! A metamorfose está começando... Não...

Acho que o problema aqui é que não dá tempo de se acostumar com ela e a mudança é muito brusca. Talvez se ela fosse mais “malvada” no início e aos poucos fosse amolecendo, a coisa ficaria mais verossímil.

Bill arranja um emprego e Grey resolve dar de presente para eles uma transformação total, o que não adianta muito já que Sue odeia as roupas novas e James Belushi não é sexy o suficiente para funcionar nessa cena:

A cena teria muito mais efeito se fosse assim:

Eles vão jantar em um restaurante fino, Walter aparece e trata Bill mal, ele e Sue vão embora, Grey vai atrás, eles invadem um casamento para comer de graça, entram no cinema sem pagar e... Ai meu Deus... De novo não... Deixe-me adivinhar. A advogada solitária vai aprender que existem mais coisas na vida do que trabalhar e ganhar dinheiro, porque o realmente importa é ser você mesmo e se divertir? Ah! Catar piolho em vaca!

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Eu aceito isso de um bando de adolescentes riquinhos, aceito de um cara chato que nunca sorri, aceito de uns nerds sem noção... Mas esperar que uma mulher rica, com uma vida maravilhosa e que até cinco segundos atrás não se importava com o fato dela não ser casada, largue tudo e vá virar pobre e trapaceira? Isso é demais! Demais! Acho que o John Hughes passou muito tempo durante a infância lendo Um Conto de Natal.

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Ok, enchi o saco e esse texto já está grande de mais. O namorado chato resolve tirar Sue de Bill e chama os assistentes sociais. Grey fica braba e termina com ele. Sue é levada para um orfanato e chora um monte. Grey adota ela. Bill e Grey ficam juntos e eles viram uma família linda e feliz. Sue vai para a escola, Bill deixa de ser um trapaceiro e Grey para de ser uma vaca insuportável. E todos vivem felizes para sempre!

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Será???? Sim, é.

Curly Sue não é um filme ruim, mas também não é uma maravilha. Como eu disse antes, aceito esse tipo de lição Hughenesca para adolescentes ou pessoas infelizes, mas neste caso não me convence. Nos filmes anteriores dele, tanto os personagens que trazem a redenção quanto os que recebem são convincentes.

Cameron precisa de Ferris para aprender a se virar sozinho. Neal é mal humorado e precisa aprender a sorrir, e é pra isso que Del aparece em sua vida. Wyatt e Gary só precisam de autoestima e por isso precisam que Lisa intervenha.


Bill e Sue passam fome e precisam lutar para sobreviver. Eles não têm onde morar (dormem em um abrigo), não se lavam e enganam pessoas para poder ter dinheiro. Já Grey é uma esnobe metida que, como a própria Sue diz, usa os dois como brinquedos para poder suprir uma necessidade que nem ela mesma sabia que tinha. Eles não precisam de uma mudança. Eles precisam de dinheiro! E Grey precisa se internar!

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O filme não é péssimo, tem momentos divertidos, mas não convence. Não foi o final da carreira de John Hughes, mas foi uma grande amostra disso.

Curly Sue (1991)
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: James Belushi, Kelly Lynch, Alisan Porter, John Getz

3 comentários:

Pinu disse...

FIRST!

Bah, confesso que foi difícil ler esse texto tão duro com A Malndrinha! Eu adorava esse filme quando criança. Faz muito tempo que não vejo, então não sei o que acharia dele hoje em dia, mas acho que a nostalgia falaria mais alto, heheheh

Pri Zorzi disse...

Dessa vez eu li! Ahahaha!

Eu nunca vi esse filme quando criança, então é sempre meio difícil avaliar... Eu não me importo com lições de moral sessão-da-tardescas, espero isso desse tipo de filme assim como espero de um desenho da Disney. Tampouco me incomodo com os clichês e situações absurdas se eles forem bem executados e conseguirem fazer efeito em mim. Só que nunca vi esse filme justamente porque a idéia de uma criança "espertinha" é a que menos funciona comigo. Odeio crianças em filmes! Pelo que tu fala, a Sue é irritante, mas não tem o destaque que eu achei que teria no filme, que parece ser mais sobre o casal do que sobre ela.

(legal que eu quase ia comentar logada no e-mail da bolsa, ahahaha)

Paloma Rodrigues disse...

Eu odiava esse filme quando criança! hhahahahaha E sim, o filme acaba perdendo o foco. Seria muito mais interessante um filme sobre o cara e a menina.

Acho que o que fez eu odiar tanto ele é que vi depois de ver filmes maravilhosos do John Hughes. O que me incomoda na lição de moral não é ela em si, porque todos os filmes dele são assim, mas o fato de que aqueles dois estão passando fome, frio e são extremamente pobres. E aí a solução para os problemas me parece mágica de mais.

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