sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eu, Você e Todos Nós

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Atenção: spoilers.

"If you really love me, let's make a vow - right here, together... Right now." É com essa frase que conhecemos Christine (Miranda July), uma artista que ganha a vida como motorista para idosos. Ela vive sozinha e tem suas obras como únicas companhias. Um dia, ao levar um de seus clientes a uma loja de departamentos, ela conhece Richard (John Hawkes). Uma afeição surge imediatamente entre os dois. Ele, por sua vez, acaba de se separar de sua esposa e está aprendendo a lidar com os filhos, Peter (Miles Thompson) e Robby (Brandon Ratcliff), com quem nunca teve muito contato.

Eu, Você e Todos Nós interliga histórias simples, mas extremamente interessantes, mostrando a vida de pessoas solitárias que vivem em uma mesma comunidade. Robby (Brandon Ratcliff) e seu irmão mais velho Peter (Miles Thompson) lidam com o divórcio dos pais de maneiras diferentes, mas sempre apoiando um ao outro. Enquanto Robby, que tem apenas 7 anos, dá início a um romance virtual, Peter se aproxima de sua vizinha Sylvie (Carlie Westerman), que sonha em um dia ter uma família e dar a seus filhos toda atenção que não recebe de seus próprios pais.

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Já Heather (Natasha Slayton) e Rebecca (Najarra Townsend), se sentem fortes quando estão juntas e decidem que irão perder a virgindade com um vizinho muito mais velho, Andrew (Brad William Henke). É como se sentissem que juntas não serão derrotadas e nada pode dar errado. A dona de uma galeria de arte (Tracy Wright), que se nega a atender Christine, vê sua própria solidão impressa nos trabalhos da artista.

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O filme, que venceu diversos festivais, é repleto de metáforas que o espectador vai descobrindo cada vez que o assiste. No início do filme conhecemos Richard e Pam (JoNell Kennedy). Os dois estão se separando e arrumam as coisas que ele irá levar para a nova casa. Desiludido com a situação, Richard decide fazer um ritual de passagem com os filhos, para que aquele momento fosse lembrado com alegria e não tristeza. Ele se lembra de seu tio, que costumava fazer um truque com fogo e decide repeti-lo. Pega um isqueiro junto com um frasco de fluido e dirige-se ao quintal. Na janela, em uma tentativa de chamar a atenção dos garotos, coloca fogo na própria mão. O truque dá errado e Richard passa o resto do filme com uma atadura. Mais tarde, Richard diz a Andrew que está pronto para que coisas incríveis aconteçam com ele.

Quando conhece Christine, Richard se sente imediatamente atraído por ela, mas quando ela retribui este sentimento, ele a repele. Christine questiona a respeito da mão de Richard, ao que ele responde que estava tentando mudar a sua vida, mas não deu certo e que só irá tirar a atadura quando a dor passar. Ele só faz isso no final do filme e quando acontece sente o vento bater em sua mão e nota que ela está mais sensível do que nunca, como se o vento batesse ali pela primeira vez. Depois disso ele liga para Christine e a convida para conhecer seus filhos. Quando ela chega, o surpreende tentando jogar fora um quadro que seu filho havia riscado. Ela vai ajudá-lo e acaba tocando na mão machucada. E ele, ao sentir o toque da mão dela, finalmente deixa que ela se aproxime.

Richard afirma que está bem com a separação e que está pronto para que coisas extraordinárias aconteçam com ele, mas as suas ações mostram exatamente o contrário. Desde a primeira cena em que Christine aparece, sabemos que ela é de fato extraordinária, que é diferente das outras mulheres e que tem uma maneira muito especial e bonita de ver o mundo. É natural que automaticamente liguemos os dois personagens. Christine é solitária e precisa de alguém que lhe de carinho e Richard precisa de alguém que mude sua vida.

O filme lida com a ideia de mudanças, sejam elas dramáticas, naturais ou necessárias. Richard teve uma mudança dramática em sua vida e agora precisa seguir em frente, não importa quanta dor ele sinta. A mão de Richard é a personificação desta dor. Podemos dizer assim: A mão seria o próprio Richard, seus sentimentos e a vida que leva. O fogo seria o seu divórcio ou a mudança. A queimadura é a tristeza que ele esconde. A atadura é a barreira que ele criou para não deixar seus sentimentos à mostra e não deixar nada novo entrar. Por fim, o vento é Christine.

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Richard viu seu relacionamento acabar sem que ele ao menos soubesse o porquê. Isso fez com que uma tristeza profunda se apoderasse dele. Esta dor fez com que ele criasse uma barreira mental para impedir mais sofrimento. Ele só poderá ficar com Christine quando esta dor passar e ele conseguir baixar as barreiras. No fim do filme, quando ela toca a mão machucada, ele sente seu toque de maneira diferente, por causa da sensibilidade. Ele a sente como jamais sentiu alguém antes. E pode assim mudar sua vida.

Eu, Você e Todos Nós é um filme sobre realização pessoal, as mudanças e o ato de aprender a conviver uns com os outros em harmonia, aceitando diferenças. Os personagens buscam por felicidade e realização pessoal, e as amizades existem como uma forma de se manter firme e o amor como um meio de se elevar e sobreviver a tudo.

Me and You

Me and You and Everyone We Know (2005)
Direção: Miranda July
Roteiro: Miranda July
Elenco: Miranda July, John Hawkes, Miles Thompson, Brandon Ratcliff, Carlie Westerman, Hector Elias, Brad William Henke, Natasha Slayton, Najarra Townsend, Tracy Wright, JoNell Kennedy, Ellen Geer, Colette Kilroy

4 comentários:

Pri Zorzi disse...

Achei bacana a explicação pra metáfora, mas gosto de ter visto o filme antes de lê-la. O legal de "Eu, Você e Todos Nós" é justamente que o filme é recheado de pequenos simbolismos e cada um recebe isso de uma forma. Gosto bastante de como o filme joga com histórias quase banais de tão cotidianas e mesmo assim tem uma riqueza enorme, como no lance da mão que tu bem explicou.

Paloma Rodrigues disse...

Com certeza tem que ter visto o filme para poder compreender a metáfora. Esse é um filme que eu sempre recomendo e cada vez que vejo ele cresce ainda mais.

Por sinal, o Thiago não viu ainda! Temos que obriga-lo a ver he

Pinu disse...

Esse é um filme que quero rever faz tempo sempre esqueço de baixar (aliás, queria comprar, mas né, sumiu...)

Achei legal a explicação, não lembro se percebi alguma relação quando vi.

Queria ver outros filmes dela também...

Paloma Rodrigues disse...

Pinusca! Baixa The Future, o novo filme dela. É muito lindo. Eu quero tomar coragem pra ver de novo e tentar escrever algo sobre ele.

E eu planejo comprar ambos na Amazon. Porque um nem vem pra cá e o outro tá fora de catálogo.

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