terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

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Ano passado coloquei na minha cabeça que não iria ler ou ver nada a respeito do livro Os Homens que Não Amavam as Mulheres, porque queria lê-lo sem nenhuma (ou quase nenhuma) influência externa. Quando finalmente consegui por minhas mãos em uma edição, a devorei em menos de um mês. Confesso que acho o início do livro bastante enfadonho, toda aquela confusa discussão sobre jornalismo econômico e uma avalanche de nomes em sueco. Mas a partir do momento em que nosso personagem principal, Mikael Blomkvist, vai para a ilha da família Vanger, a história ganha um novo fôlego e é impossível desgrudar os olhos das páginas.

O livro ganhou sua primeira versão cinematográfica em 2009, com Niels Arden Oplev na direção, e Michael Nyqvist e Noomi Rapace no elenco. Todo mundo parece venerar o filme sueco, mas não consigo nem ao menos simpatizar com ele. O acho mal adaptado e confuso, o que só piora nas suas continuações A Menina Que Brincava Com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar. Quando anunciaram uma versão americana fiquei num misto de esperança e medo. Esperança de que David Fincher fizesse um bom trabalho (como sempre o faz) e medo de que fosse mais um daqueles remakes sem sentido que Hollywood ama fazer.

Depois de tanta espera, eis que estreia nos cinemas brasileiros Millennium -Os Homens que Não Amavam as Mulheres, com Daniel Craig e Rooney Mara nos papéis principais e com roteiro de Steven Zaillian. Para começar, gostaria de elogiar a destreza dos tradutores brasileiros que conseguiram manter o nome do livro e ainda assim diferenciá-lo da versão anterior. Achei que o filme viria para cá como A Garota da Tatuagem de Dragão (tradução do título americano). Mas agora, o filme.

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Millennium pega do livro tudo que é essencial para a história, modifica alguns detalhes para se fazer compreensivo e adapta com maestria o trabalho de Stieg Larsson. Pena o autor não estar vivo para ver essa obra de arte, que ganha vida própria nas mãos competentes de Fincher. Apesar de algumas modificações moralistas (no filme, o marido de Erika quase não é mencionado, a cena de estupro é bem menos violenta, assim como a cena final, etc.), o filme consegue fazer jus ao livro e acabará por atrair uma nova leva de fãs. Até mesmo a parte cansativa sobre economia é diminuída aqui, o suficiente para explicar a história, mas não para entediar o espectador.

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Todos os atores, sem exceção, estão perfeitos em seus papéis e parecem ter saído direto do papel para as telas. Daniel Craig pode não ter muitas expressões faciais (ele parece estar sempre com dor), mas mesmo assim é um excelente ator e está ótimo como o jornalista investigativo Mikael Blomkvist, que é contratado para investigar o desaparecimento da sobrinha do milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer). Agora, quem mais se destaca é Rooney Mara como a excêntrica Lisbeth Salander, uma jovem inteligente que sofre de Asperger e precisa lidar com o preconceito diariamente. Rooney parece ter nascido para este papel. Já achei a atuação da atriz em A Hora do Pesadelo muito boa, mas aqui ela se supera e é uma pena que provavelmente não irá ganhar o Oscar deste ano. A Lisbeth do sueco, interpretada por Noomi Rapace não chega aos pés de sua nova versão. Sei que os fãs dos filmes originais amam o desempenho de Noomi, mas não a vejo como o problema. O seu papel ali foi mal construído e mais parece uma mulher grosseira do que uma jovem doente.

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Millennium é um filme que te prende desde a abertura surreal, que me lembrou do trabalho de Saul Bass e me remeteu automaticamente aos filmes de Hitchcock. Costumo dizer que Os Homens que Não Amavam as Mulheres é um dos livros mais hitchcockianos que já li e David Fincher parece concordar comigo. Até mesmo a famosa cena de Frenesi (1972), onde a câmera se afasta do quarto até mostrar o prédio dando a entender que a personagem agora está morta, é reverenciada. Além disso, podemos citar a trilha sonora maravilhosa composta por Trent Reznor e Atticus Ross (que também fizeram a trilha de A Rede Social). As músicas te levam para dentro do filme, agoniando e deixando a atmosfera quase insuportável, mas sem nunca te dizer o que você deve sentir.

Ao ver esta nova versão, me senti exatamente como ao ler o livro: próxima dos personagens, como se eles fossem pessoas queridas, e extremamente angustiada por não poder ajudá-los. Agora é só esperar que Fincher consiga fazer as continuações e que faça um trabalho tão primoroso quanto este.

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The Girl with the Dragon Tattoo (2011)
Direção: David Fincher
Roteiro: Steven Zaillian
Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Steven Berkoff, Robin Wright, Yorick van Wageningen, Joely Richardson, Goran Visnjic, Julian Sands

sábado, 28 de janeiro de 2012

Hunger

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Em 1981, uma greve de fome feita pelos prisioneiros da Maze Prison levou a morte dez integrantes do Exército Republicano Irlandês, o IRA. A greve se deu como uma forma de protesto para que suas reivindicações fossem atendidas por Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica. Sua principal exigência era que lhes fossem concedido o Special Category Status, que lhes permitiria não usar uniformes ou fazer trabalhos forçados, receber visitas extras e ganhar porções maiores de comida. Robert "Bobby" Sands liderou seus companheiros e sua morte (em maio de 81) deu força aos protestos e ao próprio IRA.

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Hunger narra a jornada de Sands durante sua luta. Encontrei este filme por acaso, enquanto percorria a filmografia do ator Michael Fassbender. O ator concorreu ao Globo de Ouro por Shame, filme que tem atraído a atenção da imprensa por conter diversas cenas de nudez e sua temática controversa, e resolvi olhar o que mais o diretor havia feito. Steve McQueen é um diretor inglês novato e Hunger foi seu primeiro longa-metragem. O filme é bastante impactante e tem fortes cenas de tortura, que não chegam a ser de mau gosto. McQueen não tenta defender um ponto de vista ou criar vilões, mas sim mostrar o tratamento desumano que prisioneiros recebem. Para isso, acompanha a rotina de um dos policiais (Stuart Graham), tanto a sua persona violenta e cruel quanto seu lado sensível; o relacionamento de dois prisioneiros (Brian Milligan e Liam McMahon), que se recusam a tomar banho ou usar roupas, e que marcam com fezes as paredes de sua cela; e do próprio Bobby Sands (Michael Fassbender), que decide se sacrificar por um bem maior.

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Existem poucos diálogos no filme e sua história é narrada apenas com imagens e metáforas visuais. Destes diálogos, apenas dois possuem real importância para a situação. O primeiro (gravado em uma tomada de 16 minutos) se passa entre Sands e um padre (Liam Cunningham), onde este tenta dissuadir Sands de seus planos. Seria a greve uma forma de suicídio? A morte de um poderia ser justificada pela salvação de outros? O segundo mostra o médico explicando em detalhes as consequências do ato de Sands para seus pais.

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Além de visualmente bonito e muito bem orquestrado, Hunger também traz uma das maiores atuações de Michael Fassbender que, como já disse anteriormente aqui Judas, é um dos melhores atores da atualidade. O ator se transformou fisicamente (chegando a adoecer por conta disso) e entrou de cabeça no personagem. É uma pena que um ator tão magnífico tenha ficado famoso graças a um dos piores filmes de super-herói que já vi. Talvez o sucesso de Shame faça com que o grande público descubra obras de arte como Hunger e passem a respeitar o trabalho tanto de Fassbender quanto de McQueen.

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Hunger (2008)
Direção: Steve McQueen
Roteiro: Enda Walsh, Steve McQueen
Elenco: Michael Fassbender, Liam Cunningham, Stuart Graham, Laine Megaw, Brian Milligan, Liam McMaho

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

The Rocky Horror Picture Show

Atenção: contém spoilers

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(Este texto foi “roubado” da minha monografia, porque me nego a escrever o mesmo texto vinte vezes)

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“Eu gostaria, se possível, de levá-lo em uma estranha jornada”. Uma jornada que teve início em 1972, na Inglaterra, quando um jovem ator chamado Richard O’Brien conheceu Jim Sharman, um diretor australiano de teatro que estava produzindo uma versão para os palcos de Jesus Cristo Superstar. Eles se tornaram amigos e um dia O’Brien contou a Sharman sobre uma peça que ele havia escrito. Os dois se uniram para realizar They Came from Denton High, mas Sharman não estava satisfeito com o título que o musical havia recebido (uma homenagem ao filme They Came from Outer Space). E, assim, em junho de 1973, estreou nos palcos britânicos a primeira versão de The Rocky Horror Show, aquela que viria a ser uma das histórias mais famosas e importantes do mundo do entretenimento.

A peça era uma homenagem aos filmes de horror e ficção científica do início do século XX, como Drácula, Frankenstein e King Kong, e misturava elementos de glam rock ou glitter-rock (estilo musical dos anos 60 e 70, caracterizado por músicos andrógenos, muita maquiagem, purpurina, roupas coladas, plumas, etc.) com comédia e muita sexualidade. O sucesso da peça chamou a atenção de Lou Adler, famoso produtor musical da época. O produtor, baseado no fenômeno glam, decidiu produzir uma versão cinematográfica da peça de O’Brien e Sharman, mantendo os dois como roteirista e diretor, respectivamente.

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The Rocky Horror Picture Show, o filme, conta a história de Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon), um casal comum e sem muitos atrativos. Eles noivaram e estão indo contar a novidade para o homem que os apresentou, Dr. Everett Von Scott (Jonathan Adams). No percurso, o pneu de seu carro fura e eles precisam ir até um castelo na beira da estrada para pedir ajuda. Lá são recepcionados pelo faz-tudo Riff Raff (Richard O'Brien) e pela empregada doméstica Magenta (Patricia Quinn). Porém, o castelo pertence a um cientista chamado Frank-N-Furter (Tim Curry) que está dando uma festa para apresentar sua mais nova criação, Rocky (Peter Hinwood), uma criatura que é mais músculos do que cérebro. A história é narrada pelo Criminologista (Charles Gray), um especialista no caso.

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O filme teve sua estreia em 1975 e foi um completo fracasso de bilheteria, porém se tornou um símbolo cult entre cinéfilos e pesquisadores de cinema. The Rocky Horror Picture Show é mais do que um filme, é um fenômeno. O longa continua em cartaz em vários cinemas do mundo todo, sendo exibido há trinta e cinco anos. Os espectadores se reúnem não apenas para assisti-lo, mas também para participar ativamente das sessões, vestindo-se como os personagens, jogando objetos, cantando e gritando. Foi o primeiro filme a criar tal fenômeno.

RHPS é um filme bastante peculiar, confuso e, por falta de uma palavra melhor, maluco. Quando assisti pela primeira vez fiquei bastante constrangida porque meus pais estavam na sala e acabei tendo que assisti-lo em partes, o que só piorou minha situação. Não entendi nada. Tive que assistir mais algumas vezes para então começar a compreender o que estava acontecendo. Hoje me considero uma especialista sobre o assunto.

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O filme começou como um grande fracasso, tendo arrecadado cerca de $21,245 na sua semana de estreia (praticamente nada em comparação com Tubarão, que estreou no mesmo ano e arrecadou $7,790,627 no lançamento), virando motivo de piadas e deboche. O erro dos produtores foi tentar lançar o filme para o grande público (em sua maioria, homens brancos, americanos, héteros). Foi então que Lou Adler teve a ideia que mudou o rumo da história do longa-metragem, de seus realizadores e do cinema em geral. O produtor decidiu passar o filme nas sessões da meia-noite, conhecidas por exibir apenas filmes de baixo orçamento e/ou alternativos. Essas sessões estavam cada vez mais populares, e seu o público acabou por adotar RHPS.

O filme se tornou algo que instiga as pessoas a viverem suas vidas, a falarem em público, a saírem do armário, enfim, a se aceitarem da maneira como são. Pode-se dizer, até mesmo, que o filme é um retrato de seus fãs: algo extremamente criticado, mas que com a motivação certa, se tornou algo único e precioso. A popularização do filme pode parecer um tanto quanto estranha ao analisarmos superficialmente as suas qualidades. Existem diversos erros técnicos, os atores relativamente desconhecidos (apesar de Susan Sarandon ter vindo a se tornar uma das principais atrizes de Hollywood, na época ninguém sabia quem ela era), o aspecto cafona e os inúmeros elementos queer que permeiam a história, que são o suficiente para afastar o grande público.

Lou Adler acreditava que estava produzindo um filme para as grandes massas, porém, o produto que tinha nas mãos criou vida própria. Além dos fatores citados acima, o ambiente no qual foi lançado não favoreceu The Rocky Horror Picture Show. Com o fim do glam rock, os musicais em baixa (os musicais Os Embalos de Sábado à Noite e Grease, só viriam estrear em 1977 e 1978, respectivamente, atraindo a atenção do público de volta ao gênero) e a homofobia, o filme não teria chance alguma. Mas ao ser redirecionado para um novo público, através das sessões de filmes underground, The Rocky Horror Picture Show encontrou sua verdadeira plateia e acabou por se tornar exatamente o que pretendia: um filme B reverenciado, assim como aqueles que ele mesmo homenageia.

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Outro fator importante são as referências e personagens criadas por Richard O’Brien. The Rocky Horror Picture Show é muito mais do que um simples filme de paródia. Ao invés de satirizar outros filmes, ele os venera e traz para a tela interpretações sobre estas obras. Enquanto Doctor X apenas dá a entender que pode existir alguma forma de incesto, RHPS joga na cara de seu espectador o relacionamento de Magenta e Riff Raff. Quando Frankenstein cria o monstro, podemos apenas imaginar que há alguma referência à homossexualidade ou qualquer tipo de relacionamento queer. Mas quando Frank-N-Furter cria Rocky, sabemos com certeza de que há. Ao lotar o filme com referências a clássicos, Richard O’Brien criou um vínculo com seu público. Soma-se isso a um vasto catálogo de personagens, que permitem a qualquer um se identificar, e temos um filme ideal para aqueles que se sentem excluídos da sociedade. Não consigo pensar agora em outro filme que faça isso tão bem quanto este.

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Esta necessidade que as pessoas possuem de serem aceitas também foi um fator importante para o sucesso do filme. Ele despertou no público a vontade de se expressar, dando coragem àqueles que não conseguem levantar a voz em público. Através de textos acadêmicos e de entrevistas com os espectadores (que realizei para minha monografia) é possível perceber que existe uma conexão entre a baixa autoestima do público e a necessidade de fazer parte de algo e de se sentir incluído, com o filme.

Entre os espectadores, o personagem mais popular é Frank-N-Furter. Na primeira vez em que aparece, cantando Sweet Transvestite, Frank choca a audiência, Brad e Janet com sua aparência. De salto alto, lingerie e cinta liga, Frank canta sobre quem é (“Sou apenas um doce travesti, de Transexual, Transilvânia”) e sobre o que está criando (“Estou criando um homem, com cabelos loiros e bronzeado, e ele é ótimo para aliviar minha... tensão”). Ousado, sedutor e comprometido com seus ideais, Frank-N-Furter é a personificação da mensagem que The Rocky Horror Picture Show passa: Não sonhe, seja.

Brad e Janet não sabem lidar com seus sentimentos e com sua sexualidade. Ambos são reprimidos pela sociedade (representada no filme por Dr. Everett Von Scott) e sentem medo de se libertar, fazer aquilo que lhes dá felicidade. Brad esconde de si mesmo sua homossexualidade. Ele irá casar com Janet, ter filhos e viver uma vida pacata, sem nunca entender o porquê de sua frustração. Com a ajuda de Frank-N-Furter, um novo mundo se abre para ele. Já Janet é ativa desde o início da trama e a única coisa que a prende ao papel de esposa ideal é o próprio marido, Brad. Assim como ele, Janet é reprimida. Ela descobre sua própria sexualidade, mas não a dele, e por isso se sente culpada por tê-lo traído. Porém, quando fica claro que ele também se libertou, ela seduz Rocky.

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O público estabelece o último fator para a redenção do filme. Sejam pessoas que precisam encontrar o lugar ao qual pertencem, sejam pessoas que lidam diariamente com o preconceito, sejam admiradores do cinema de horror e ficção científica, etc. Ao dar início a esta pesquisa, tive a oportunidade de me comunicar com cinéfilos de todo o mundo. A maioria se sentiu honrado em participar de algo que envolve o filme e todos ajudaram de bom grado. O que The Rocky Horror Picture Show cria, na realidade, é uma espécie de sociedade, onde o principal fator é o sentimento de afeto que se origina do anseio de querer estar junto de outras pessoas que nos entendam e nos aceitem como somos. Esses espectadores acabam formando uma grande família que se ama e se respeita, mesmo que nunca tenham se encontrado antes. Através do filme, essas pessoas encontram um lar, um meio de se expressar e um veículo para escapar das opressões do dia-a-dia.

Quando eu tinha dezesseis anos não sabia muito bem que rumo dar para a minha vida. O vestibular estava chegando e eu nem ao menos sabia se jornalismo era a escolha certa. Sempre fui uma garota tímida, com poucos amigos e dificuldade de falar em público. Na época da escola, era invisível e as pessoas só me notavam para rir de mim. Nunca fui normal, por assim dizer, sempre me senti excluída do mundo, como se não pertencesse a lugar nenhum. Quando assisti ao filme e comecei a mergulhar de cabeça na sua história, encontrei várias pessoas que sofriam o mesmo que eu.

A mensagem do filme não é direcionada apenas para pessoas com sexualidade queer, ou seja, qualquer pessoa que não se enquadre no termo heterossexual “tradicional”, como gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, assexuados, homossexuais afeminados, travestis, drag queens, lésbicas masculinizadas, lésbicas afeminadas, sadomasoquistas, fetichistas, pansexuais, voyeurs, exibicionistas, etc. O filme também serve de apoio para pessoas que sofrem outros tipos de preconceito, seja por causa da cor da pele, da maneira como se vestem, das músicas que escutam, porque usam óculos ou aparelho nos dentes, porque não gostam de certos filmes… Enfim…O mundo está cheio de Janets, Brads, Columbias, Rockys, Scotts, Magentas e Riff Raffs, apenas esperando que seu Frank-N-Furter apareça para salvá-los. Esperando para que alguém lhes diga: Não sonhe... Seja!

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The Rocky Horror Picture Show (1975)
Direção: Jim Sharman
Roteiro: Richard O'Brien, Jim Sharman
Elenco: Tim Curry, Susan Sarandon, Barry Bostwick, Richard O'Brien, Patricia Quinn, Nell Campbell, Jonathan Adams, Peter Hinwood, Meat Loaf, Charles Gray

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Jane Eyre

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Confesso que não dei a atenção necessária que Jane Eyre merecia e que isso influenciou um pouco em minha opinião atual sobre o filme. Um dos motivos de minha desatenção foi uma conversa que escutei em uma livraria certa vez. Um grupo de garotas estava discutindo livros da Jane Austen, ao que uma diz “Meu livro favorito da Jane Austen é Jane Eyre”. Isso ficou marcado tão forte na minha mente, que passei o filme todo falando bobagens a respeito. Mas mesmo assim, consegui formar uma opinião, o que deveria ser um bom sinal.

Jane EyreJane Eyre é o melhor filme dirigido pelo Tim Burton, baseado em uma história em quadrinhos da Jane Austen

Recentemente comecei a percorrer a filmografia do ator Michael Fassbender, a princípio por achá-lo bonito e cada vez mais por achá-lo extremamente talentoso. É raro encontrar um ator tão bom quanto ele nos últimos tempos, especialmente um capaz de sustentar um filme inteiro. Este é o caso de Jane Eyre. Fica difícil comentar sobre uma adaptação sem ter lido o livro e por isso não sei exatamente o que é falha do roteiro e o que é falha da história original de Charlotte Brontë, por isso peço desculpa por qualquer atrocidade que vier a falar aqui.

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Jane Eyre (Mia Wasikowska) é uma jovem órfã que vai morar em um internato depois que sua tia a expulsa de casa. Quando completa a maioridade, a garota vai morar na casa de Rochester (Michael Fassbender), um homem fechado e grosseiro, que acaba por se encantar por ela. Sempre vi a personagem como uma mulher cheia de personalidade e forte, mas não é essa a impressão que o filme me passa. O amor de Rochester por Jane não me parece natural, ele simplesmente olha para ela e se encanta, e não consigo ver o que o atraiu tanto.

O filme tem várias cenas confusas e algumas até ridículas, como quando o quarto de Rochester está pegando fogo e ele não acorda com isso. O grande mistério em torno deste personagem também é mal explicado e a impressão que passa é que todo o suspense em torno disso é em vão. As situações apresentadas na história não são aprofundadas, tudo é muito rápido e superficial. Como falei acima, Fassbender manteve o filme até o fim. As falas de seu personagem são cheias de malícia e sensualidade, criando uma tensão sexual altíssima e desconcertante, e é uma pena que Jane seja tão sem graça.

Jane Eyre não parece fazer jus ao livro de Brontë e, mesmo para quem não leu o livro, fica claro que é mal adaptado. Um filme bom, que poderia ser muito melhor. Talvez um daqueles casos onde é melhor sair da frente da televisão e ir ler um livro.

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Jane Eyre (2011)
Direção: Cary Fukunaga
Roteiro: Moira Buffini
Elenco: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Jamie Bell, Sally Hawkins, Judi Dench

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Maluco Beleza

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Deve existir no Brasil uma organização secreta, que se reúne todas as sextas-feiras para decidir qual título de filme será ridicularizado naquela semana. Tenho certeza de que estes homens (os imagino como homens gordos e velhos, com bigode, de calça social e suspensórios) passam horas tentando bolar nomes com palavras como “maluco”, “aventura”, “loucas”, “incríveis” ou “amor”. Aquele que reunir todas elas no mesmo título, ganha o prêmio Sessão da Tarde (seria algo como As Malucas Aventuras de um Incrível Amor Louco). Foi assim que Our Idiot Brother virou Maluco Beleza.

crazy-stupid-love-1Como é que esse filme não ganhou esse título, jamais saberemos

Dirigido e escrito por Jesse Peretz, Maluco Beleza nos apresenta Ned Rochlin (Paul Rudd), um homem desligado e ingênuo que é preso ao vender maconha para um policial fardado. Oito meses depois, ele volta para casa e descobre que sua namorada está com outro cara e que não só o despeja como também lhe tira o seu fiel companheiro, o golden retriever Willie Nelson. Sem ter para onde ir, Ned pede ajuda para suas três irmãs e acaba virando a vida delas de cabeça para baixo.

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O filme é uma mistura de clichês com situações inusitadas, e poderia ser um filme esquecível se não fosse por seu elenco de primeira. As três irmãs, vividas por Elizabeth Banks, Zooey Deschanel e Emily Mortimer, são os estereótipos femininos comuns dos filmes. Miranda é a trabalhadora esnobe, Natalie é a liberal e Liz é a casada com filhos. Mas as três atrizes desempenham muito bem seus papéis, mesmo com a limitação do roteiro. Paul Rudd sempre fica bem na pele de homem com boas intenções e aqui não é uma exceção. Quem se destaca mais é Steve Coogan, que interpreta o marido de Liz, e Matthew Mindler, o filho do casal.

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Maluco Beleza fala sobre como às vezes levamos uma vida que não gostamos apenas por estarmos acostumados com ela e que é preciso um empurrão para conseguirmos a nossa felicidade. Não é exatamente um filme bom, mas vale pelas atuações.

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Our Idiot Brother (2011)
Direção: Jesse Peretz
Roteiro: Evgenia Peretz, David Schisgall
Elenco: Paul Rudd, Elizabeth Banks, Zooey Deschanel, Adam Scott, Rashida Jones, Emily Mortimer, Steve Coogan, Kathryn Hahn, T.J. Miller, Shirley Knight

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Doris Day e Rock Hudson

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Estava há muito tempo querendo assistir aos filmes que Doris Day e Rock Hudson fizeram juntos nas décadas de 50 e 60, mas sempre acabava tendo outras prioridades e deixando isso para outro dia. Foi depois que assisti O Segundo Rosto (1966), no qual Hudson interpreta um homem que muda de identidade, é que resolvi assistir o primeiro filme da trilogia dos dois atores.

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Confidências à Meia-Noite (1959), de Michael Gordon, deu início a tradicional fórmula pela qual os dois ficaram conhecidos. Doris Day interpreta Jan Morrow, uma decoradora que divide a linha telefônica com o mulherengo Brad Allen (Rock Hudson). Apesar de não se conhecerem pessoalmente, os dois vivem em conflito por causa disso, ele querendo falar com suas namoradas e ela precisando trabalhar. Um dia, Brad descobre que seu melhor amigo Jonathan Forbes (Tony Randall) está apaixonado por Jan e, para fazê-la de boba, Brad finge ser outra pessoa (o texano Rex Stetson) para seduzi-la. Brad não poderia ser mais cafajeste. Não só ele engana Jan como também seduz a garota de seu amigo!

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No segundo filme, Volta Meu Amor (1961), Jerry Webster (Rock Hudson) e Carol Templeton (Doris Day) são publicitários rivais. Quando Jerry rouba um cliente de Carol, ela decide se vingar e fazer o mesmo com ele. Enquanto isso, Jerry tenta se livrar de uma dançarina para quem ele sempre promete um trabalho na televisão, e grava com ela um comercial falso para um produto que não existe, o VIP. O comercial vai ao ar sem querer e Carol decide que irá pegar a conta do produto misterioso para ela e vai atrás do cientista que ela acredita ser o criador do VIP. Quando chega ao laboratório, encontra Jerry e acha que ele é o cientista. Ele se aproveita da situação e decide seduzi-la para roubar suas ideias, enquanto espera que o verdadeiro cientista crie algum produto revolucionário para ser o VIP.

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Não Me Mandem Flores (1964), é o terceiro e último filme da trilogia. Também é o único que não segue a fórmula anterior. Aqui, Rock Hudson interpreta George, um hipocondríaco que acha que está morrendo e decide encontrar um novo marido para sua esposa, Judy (Doris Day), para que ela não fique sozinha no mundo.

Os três filmes foram um sucesso de bilheteria e crítica. Os três filmes possuem méritos bastante diferentes (apesar dos dois primeiros terem bases praticamente iguais). Como história, Não Me Mandem Flores é, com certeza, o melhor dos três. O filme é muito mais melancólico do que engraçado e a situação é a mais convincente dos três. Já em matéria de humor, voto em Volta Meu Amor, uma comédia hilária e absurda. O filme também ganha no quesito figurino, que segue o mesmo padrão do filme. As roupas são tão bizarras quanto o plot. O romance mais convincente está em Confidências à Meia-Noite, onde podemos ver que Brad realmente está apaixonado por Jan e ela tem motivos para perdoá-lo.

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Os dois atores possuem muita química em cena e permaneceram amigos até a morte de Rock Hudson, em 1985. Em uma entrevista, Hudson disse “Doris e eu nos tornamos ótimos amigos (...) O único problema que tínhamos era tentar não rir. Doris e eu não podíamos nos olhar! Sabe, aquela doce agonia de rir quando não se pode fazer isso? É o que tínhamos um com o outro”. Outro fator importante para o sucesso dos filmes foi o ator Tony Randall, que sempre interpretava o amigo atrapalhado de Hudson. Por coincidência, um dos últimos trabalhos de Randall foi no filme Abaixo o Amor (2003), que homenageava estes filmes.

Confidências à Meia-Noite, Volta Meu Amor e Não Me Mandem Flores são filmes essências não só para quem é fã de comédias românticas, mas também para amantes do cinema. Filmes sem muita pretensão, cujo único objetivo era fazer seus espectadores se divertirem.

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Pillow Talk (1959)
Direção: Michael Gordon
Roteiro:Stanley Shapiro, Maurice Richlin
Elenco: Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall, Thelma Ritter

Lover Come Back (1961)
Direção: Delbert Mann
Roteiro: Stanley Shapiro, Paul Henning
Elenco: Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall, Edie Adams

Send Me No Flowers (1964)
Direção: Norman Jewison
Roteiro: Julius J. Epstein
Elenco: Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall

sábado, 21 de janeiro de 2012

As Aventuras de Tintim

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Quando um jornal francês comparou Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida com as aventuras do jornalista Tintim, de Hergé, Steven Spielberg sabia que teria que dar vida as histórias em quadrinhos do artista. Mais de 30 anos depois, o diretor realiza o seu sonho e As Aventuras de Tintim chega às telas de cinema. A primeira animação realizada por Spielberg conta com uma equipe apaixonada pelos quadrinhos de Hergé: Steven Moffat , Edgar Wright e Joe Cornish ficaram com a responsabilidade de criar um roteiro digno dos quadrinhos e já estão trabalhando na continuação, que será dirigida por Peter Jackson, produtor da primeira parte.

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A ideia de fazer um filme com captura de movimento ao invés de live-action veio de Jackson, que acredita que nenhum ator faria justiça ao personagem. O longa mistura dois livros da série, O Caranguejo das Tenazes de Ouro (que conta como Tintim e o Capitão Haddock se conheceram) e O Segredo do Licorne (onde os dois personagens saem em busca de um tesouro). As Aventuras de Tintim começa com o personagem título comprando um barco em miniatura em uma feira. Mas a peça parece conter algum segredo e Tintim passa a ser perseguido. Depois de salvar Capitão Haddock das mãos dos malfeitores, os dois (acompanhados do fiel cachorro Milu) partem em busca de um tesouro há muito tempo perdido.

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Quando fiquei sabendo que o filme seria em 3D fiquei com um pé atrás. Achei que a tecnologia iria destruir a obra de Hergé e que teríamos mais um besteirol americano cheio de explosões e nenhuma personalidade. Estava enganada. O filme não só captura com excelência a alma dos livros como também resulta em uma obra divertida e nem um pouco tediosa. Fãs mais puristas podem se incomodar com a quantidade de ação que o filme tem, mas a mim não incomodou. Poderia sim ter mais cenas com os personagens e suas idiossincrasias, mas isso não chega a ser um problema.

O trabalho de captura de movimentos está excelente e várias cenas parecem tão reais que acabava esquecendo que aquilo era uma animação. As dublagens também estão ótimas, tendo Jamie Bell como Tintim, Andy Serkis como Capitão Haddock, Daniel Craig como o colecionador de arte Rackham, e os amigos Nick Frost e Simon Pegg como os atrapalhados Thomson e Thompson (ou Dupond e Dupont, dependendo da versão que você assistir). Mas o ponto alto do filme é o cãozinho Milu (Snowy na versão americana) e seu relacionamento com os humanos. Milu parece estar sempre um passo a frente dos demais personagens e é bastante divertido vê-lo tentando se fazer entender.

As Aventuras de Tintim é um filme divertido e digno da sua versão original. Quem é fã dos quadrinhos, não pode perder.

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The Adventures of Tintin (2011)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish
Elenco: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost, Simon Pegg

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Elvira, a Rainha das Trevas

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Faz tempo que estou adiando este projeto e acho que este é o momento ideal para começa-lo. Para dar início a nova fase de Judas Dançarino, hoje começa o que gosto de chamar de Loma’s Choice. O objetivo é simples: irei assistir cada um dos meus filmes favoritos e escrever uma crítica sobre ele. Tentarei postar todas as sextas. Alguns dos filmes já possuem crítica aqui no Judas e se minha opinião continuar a mesma, irei apenas republicá-los, tentando adicionar algo a eles. A ordem dos filmes será igual a da lista. Começo com meu favorito: Elvira, a Rainha das Trevas.

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Assisti a este filme pela primeira vez quando tinha quatro ou cinco anos. Essa é uma das primeiras lembranças que tenho e o filme acabou por marcar muito minha infância e pré-adolescência. Lembro-me claramente de minha mãe dizendo que eu não deveria assistir a um filme assim, que me daria pesadelos, e minha irmã dizendo para ela relaxar porque não passava de uma comédia e que eu ficaria bem. Naquela noite, tive um pesadelo. Passei algum tempo proibida de assisti-lo novamente, mas quando o filme começou a ser exibido de tarde na televisão aberta nada mais me segurou. Logo se tornou meu favorito e eu costumava obrigar meus amigos a brincar de Elvira comigo, eu sempre sendo ela. O engraçado é que nenhum deles sabia do que eu estava falando, mas brincavam mesmo assim. Paloma, obrigando os amigos a fazerem o que ela quer desde 1987. Um dia, resolvi perguntar para a minha irmã quem era a atriz que interpretava a personagem, ao que minha irmã (lendo os créditos) disse “Ela interpreta ela mesma!”. Foi então que comecei a achar que a Elvira realmente existia e que eu iria crescer e ser que nem ela. Infelizmente, não cresci o suficiente.

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Passei um tempo sem ver o filme e sem me importar muito com o assunto até que, no auge da minha adolescência, redescobri a personagem e, munida de uma bela conexão de internet, comecei a pesquisar um pouco sobre o assunto. Descobri, por exemplo, que Elvira era interpretada por Cassandra Peterson. A personagem nasceu em 1981, no programa de horror Movie Macabre. O programa traz filmes de horror, que são apresentados por Elvira. Esse tipo de programa é bastante comum nos EUA e aqui no Brasil tínhamos o Cine Trash na Band, apresentado por Zé do Caixão. O que diferencia Elvira dos demais apresentadores de horror é o seu jeito divertido e irônico, unidos com roupas sensuais. Elvira não quer assustar seus espectadores e sim entretê-los enquanto tira sarro dos filmes e de si mesma. Apesar das roupas provocantes e das piadas sobre seus avantajados seios, Elvira sempre demonstra respeito por si e não aceita levar desaforo para casa.

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O Movie Macabre retornou em 2010, para mais uma temporada. Apesar da dificuldade para assistir aos episódios (que só passam nos EUA e são dificílimos de baixar) e da baixa qualidade dos filmes (que precisam ser de distribuição gratuita já que é a própria Cassandra que está produzindo o show) o humor de Elvira continua o mesmo e o programa merece uma atenção especial dos fãs do gênero.

Em 1988, Elvira ganhou seu primeiro longa metragem (o segundo, Elvira's Haunted Hills, estreou em 2001), Elvira, a Rainha das Trevas, que conta a origem da personagem. Elvira descobre que uma tia avó desconhecida faleceu e lhe deixou uma herança. Achando que esta é a oportunidade que esperava para poder ter seu tão sonhado show em Las Vegas, ela parte para a pequena cidade de Falwell, Massachusetts. Chegando lá, Elvira dá de cara com um grupo de conservadores, que querem expulsá-la da cidade custe o que custar. Além disso, ela descobre que sua tia avó Morgana era uma poderosa bruxa e seu irmão, Vincent Talbot (William Morgan Sheppard) quer destruir Elvira para por as mãos em um livro de receitas que esta ganhou de herança. Elvira conta com a ajuda de Bob (Daniel Greene) e dos adolescentes da cidade, e também de seu fiel poodle Gonk.

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O filme captura com bastante fidelidade a personalidade de Elvira e, com muito humor, homenageia os filmes clássicos do horror. Elvira pode ser sexy, mas não é vulgar e por isso o filme pode ser apreciado tanto por adultos quanto por crianças. Em uma entrevista, Cassandra disse que baseou o roteiro do filme em O Mágico de Oz e podemos ver várias referências a isso. Uma mulher sai de seu habitat natural e é “jogada” em um lugar estranho e absurdo, cheio de perigos. Dorothy é levada pelo furacão até Oz e lá precisa lutar contra a Bruxa Má do Oeste para poder voltar para casa. Elvira vai até Falwell porque sua tia morreu e é quando derrota o tio que consegue o dinheiro para realizar seus sonhos.

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Hoje, revendo o filme, consigo ver o que me atraía quando criança a ele e também o que faz com que eu continue a gostar tanto. Acredito que quando pequena, o humor escrachado de Elvira e também sua independência (tão incomum para uma mulher nos filmes “normais”) faziam dela um modelo a ser seguido. O fato de eu acreditar que ela realmente existia só aumentava ainda mais isso. Hoje a vejo como um ícone, tanto do cinema quanto da televisão, e admiro seu poder feminino e seu carisma. Cassandra Peterson é uma excelente atriz e tem um timing perfeito para comédia (sem falar que ela já namorou o Elvis e perdeu a virgindade para o Tom Jones…).

Elvira, a Rainha das Trevas é um filme inteligente, divertido e uma bela homenagem aos filmes de horror trash. É uma pena que aqui no Brasil, Cassandra não tenha ficado tão famosa quanto a sua personagem.

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Elvira: Mistress of the Dark (1988)
Direção: James Signorelli
Roteiro: Sam Egan, John Paragon, Cassandra Peterson
Elenco: Cassandra Peterson, Phil Rubenstein, Larry Flash Jenkins, Edie McClurg, Kris Kamm, Scott Morris, Ira Heiden, Pat Crawford Brown, Susan Kellermann, William Morgan Sheppard, Daniel Greene, Frank Collison, Jeff Conaway

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Tomboy

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Laure (Zoé Héran) se veste como menino, brinca com outros garotos e corta o cabelo curto. Ela se muda para um condomínio com a irmã mais nova (Malonn Lévana), o pai (Mathieu Demy) e a mãe grávida (Sophie Cattani). Tentando fazer amizade com as crianças do prédio, Laure conhece Lisa (Jeanne Disson) que a confunde com um menino, então ela finge se chamar Michaël.

O filme é uma bela fábula sobre as dificuldades da infância, do crescer e se encontrar. A história se foca nas crianças (nenhum adulto tem nome) e no seu dia-a-dia durante aquelas férias de verão. Laure/Michaël é uma personagem muito bem construída e Zoé Héran é uma atriz bastante promissora, encarando com perfeição tanto o lado feminino quanto o masculino de Laure. A menina não se sente como as demais garotas da sua idade (até sua irmã de seis anos é mais feminina do que ela) e não se sente bem no papel que a sociedade lhe obriga a exercer.

Seus pais parecem ser bem abertos e compreensivos com ela, mas quando a personalidade de Laure “sai” de dentro das quatro paredes do apartamento, seu pai não toma partido (como a maioria dos pais cinematográficos) e sua mãe tenta “consertar” o que a filha fez, para que a sociedade não os julgue. Quem realmente apoia a menina é sua irmã Jeanne, que fica do seu lado custe o que custar. A menina compreende a natureza de Laure muito melhor do que os adultos. Ela ama sua irmã pelo que ela é e não pelo que os outros esperam que ela seja.

Tomboy é uma história sobre uma criança tentando descobrir quem ela é e onde ela se encaixa no mundo. Um retrato muito bem construído de como a sociedade prepara as crianças desde pequenas para serem adultos conservadores e retraídos. Laure não escolheu ser assim. Ela o é e só será feliz quando as pessoas a sua volta aprenderem a respeitar isso.

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Tomboy (2011)
Direção: Céline Sciamma
Roteiro: Céline Sciamma
Elenco: Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani, Mathieu Demy

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Sessão de Horror ou Sessão Horrorosa?

Meus amigos e eu resolvemos passar a última sexta-feira 13 assistindo filmes de horror. Cada um escolheu um título e ficamos até às 4h olhando e debatendo. Os filmes escolhidos foram: A Casa (2010), Poltergeist (1982), Eden Lake (2008) e Halloween (1978).

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Assisti A Casa sem saber muito o que esperar. Sabia que era uma casa, por causa do título, e que tinha uma mulher assustada nessa casa, por causa do pôster. E é basicamente sobre isso que o filme fala. O filme uruguaio foi gravado todo em uma tomada, o que é bastante admirável, e tem uma ótima atuação da atriz Florencia Colucci. E só. Cheio de cenas tediosas, um final confuso e sustos fáceis, A Casa é um filme que poderia ter sido bom se não tentasse posar de alternativo ao mesmo tempo em que rouba clichês de vários outros filmes do gênero. Outra coisa que me incomodou bastante foi a trilha musical, que diversas vezes quebra o clima. Foi, com certeza, o pior filme da noite.

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Depois assistimos Poltergeist. Vi este filme pela primeira vez quando tinha 14 anos e fiquei bastante assustada (especialmente com a cena do palhaço). Olhando novamente agora notei uma coisa que me deixou um pouco perturbada: Poltergeist é um filme de horror para famílias. Não me assustei em nenhum momento durante todo o filme (ok, admito que fechei os olhos na cena do palhaço, mas foi só isso) e achei os efeitos especiais bem medíocres. Não é um filme ruim e consigo ver o porquê de sua fama. Mas não mais o considero como um filme de terror.

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Eden Lake foi uma grande surpresa. Não esperava nada dele e nem ao menos sabia sobre o que se tratava. Apesar de eu ter ficado desapontada com a temática (violência infantil causada pelo ambiente onde estas crianças vivem) por ser algo tão clichê e cansativo, gostei muito de como o filme foi tratado. Seu principal mérito são os atores principais Kelly Reilly e Michael Fassbender, que possuem muita química um com o outro, além de serem ótimos atores. Sempre gostei bastante de Kelly Reilly e Michael Fassbender me chamou a atenção com X-Men: Primeira Classe (sendo ele a única coisa boa em todo o filme). O diretor James Watkins soube criar um clima tenso e perturbador, e o final, em relação a temática, não poderia ser mais perfeito.

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Por fim, a grande decepção da noite: Halloween. Este é um daqueles filmes que nunca havia assistido por ter medo e que estou assistindo aos poucos (só falta Boneco Assassino). Eu tinha uma imagem bem clara sobre ele na minha mente e vi esta imagem sendo destruída a medida que o filme ia passando. Para começar, Michael Myers deve ser um dos serial killers mais idiotas de todos os tempos. Ele não possui motivação alguma, apresenta uma super força e agilidade praticamente impossíveis, e nenhum carisma (ao contrário de Jason e Fred). Entendo que John Carpenter quis criar um personagem enigmático e sobrenatural... Mas então, para que dar um background para ele?

A personagem principal, Laurie, não tem personalidade e não podia ser mais sem graça. O que é algo incrível, considerando que ela é interpretada por Jamie Lee Curtis! Por fim, o que mais me irritou foi a trilha sonora. Achei as músicas maravilhosas, mas o uso delas é tão forçado que cansa. A trilha praticamente te diz como você deve se sentir. Aqui você tem que se assustar, viu? Não erre! Uma das músicas, Laurie's Theme, é exatamente igual ao início de All I Care About da trilha de Chicago! Passei o filme todo cantarolando “we… want… Biiiillyyyy!!”. Já estava esperando que Jamie Lee Curtis aparecesse na janela cantando (e gemendo) “I… want… Miiiiikeeeee!!!”. Onde está John Kander quando precisamos dele?

É bem óbvio que Carpenter bebeu bastante da fonte de Hitchcock e o próprio diretor admite que contratou Jamie Lee Curtis por ela ser filha de Janet Leigh. Não sei se isso me agrada ou me irrita. Tudo bem que a maioria dos diretores de horror roubam as ideias de Hitchcock, mas ver isso num filme que tem um grande potencial e não o usa me deixa bastante chateada. O filme tem seus méritos, mas foi uma decepção gigantesca.

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Agora, mantendo o mesmo assunto... Para quem gosta de filmes de horror, entre os dias 23 e 26 de janeiro acontecerá em Porto Alegre o curso de História do Cinema de Horror, com Carlos Primati. As inscrições podem ser feitas no site da produtora Cena UM e o valor é de R$120.

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La Casa Muda (2010)
Direção: Gustavo Hernández
Roteiro: Oscar Estévez
Elenco: Florencia Colucci, Abel Tripaldi, Gustavo Alonso

Poltergeist (1982)
Direção: Tobe Hooper
Roteiro: Steven Spielberg, Michael Grais, Mark Victor
Elenco: JoBeth Williams, Heather O'Rourke, Craig T. Nelson, Heather O'Rourke, Zelda Rubinstein

Eden Lake (2008)
Direção: James Watkins
Roteiro: James Watkins
Elenco: Kelly Reilly, Michael Fassbender, Tara Ellis

Halloween (1978)
Direção: John Carpenter
Roteiro: John Carpenter, Debra Hill
Elenco:  Donald Pleasence, Jamie Lee Curtis, Tony Moran

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