terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Feitiço do Rio

(Texto originalmente publicado em 29 de maio de 2009, re-publicado com correções e alterações)

Não sou exatamente o que se pode chamar de patriota e não me irrito quando tiram sarro do meu país. Quando o episódio de Os Simpsons que mostrava o Brasil passou por aqui, muita gente se revoltou por causa dos estereótipos forçados que foram apresentados pelo programa. Eu, sinceramente, achei o episódio bem engraçadinho, mas nada de mais. E que tal aquele filme Turistas, que causou polêmica por mostrar o Brasil como um país horroroso, cheio de ladrões de órgãos, caipirinha envenenada e cabanas no meio do mato? Ok... Eu tenho plena noção de que tudo isso é um grande absurdo. Eu moro há mais de 20 anos no Brasil e nunca tive nenhum órgão roubado. No máximo um celular, que estava fora do meu corpo e não dentro. Mas o que essas pessoas esperavam de um filme trash que nem consegue ser original? E se pararmos para pensar, O Albergue faz a mesma coisa com a República Tcheca.

Mas tem um filme em específico que me causou completo horror quando o assisti pela primeira vez e que até hoje não entendo muito bem porque ele foi feito. Um filme com um ótimo diretor e um ótimo elenco, que resultou em algo... Abominável...

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Dirigido pelo maravilhoso Stanley Donen e com Michael Caine e Demi Moore no elenco, Feitiço do Rio conta a história de um grupo de pessoas que vão passar suas férias no Rio de Janeiro... Um Rio de Janeiro bonito... Com pessoas nuas na beira da praia... Tucanos... Macumba... Cipós... Nudez... Macacos... Nudez... Capoeira... E tucanos... Um Rio de Janeiro onde tudo pode acontecer! Porque todo mundo sabe que o Brasil se resume a sexo, carnaval, caipirinha, futebol e violência. Mas não neste filme... Não... Neste filme eles substituem a violência por tucanos... E mais tucanos... Porque a vida é linda.

clip_image002Como a vida deve ser!

Mas vamos lá, chega de tucanos conversa! A história começa com um monólogo de Michael Caine em uma tentativa de mostrar que ele é um ator de verdade, não importa o que aconteça no resto do filme. E então a guria sombrancelhuda fala. E o Michael Caine volta a falar. Intercalados com isso são apresentadas pequenas cenas, que eu imagino que sejam para apresentar os personagens. Na verdade o filme começa mesmo é com uma abertura ultra brega dos anos 80, com direito a cores e música MPBFA (Música Popular Brasileira Feita por Americanos)... O que dizer sobre essa abertura? Deixo vocês decidirem:

Em uma das cenas de apresentação, Cane (que no filme também se chama Michael, porque era mais fácil de decorar) e sua esposa estão na cama. Ela chora, ele pergunta o que ela tem, ela não responde. Minha teoria é de que ela descobriu que atua como um bezerro morto e isso a deixou triste. Ou então ela se assustou com o tamanho dos óculos dele, achando que estava na cama com o Woody Allen. Ou ambas as coisas.

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Ela está infeliz no casamento, porque ela queria estar num filme melhor e ele a obrigou a ficar nesse. E, convenhamos, para que criar um motivo original quando podemos usar um que já está pronto? Ela se sente infeliz então resolveu passar as férias separada dele e de sua filha, a Demi Moore, que na época ainda era humana. Ela vai para a Bahia e eles para o Rio de Janeiro. Por algum motivo nunca revelado, todos os personagens acham que o Rio é um paraíso maravilhoso. Com tucanos. Talvez eles devessem assistir mais televisão ou mais filmes brasileiros... Até parece que o Brasil é um lugar no qual as pessoas vão para fazer sacanagem!

Será que esse é o momento errado para contar que Tieta do Agreste é o meu filme brasileiro favorito?

O amigo de Michael, Victor Lyons (Joseph Bologna), também está com problemas de relacionamento. Ele e sua esposa estão de divorciando e Michael acha que ir para o Rio de Janeiro é a solução de todos os problemas dos dois. Né... Vai que eles levem uma bala perdida! Victor levará sua filha de 17 anos Jennifer (Michelle Johnson), que em grego significa “aquela cuja sobrancelha é maior do que o mundo”. Na viagem de ida acontece uma das cenas mais tensas do filme:

Ok... Ok... Não foi assim que aconteceu, mas teria sido bem melhor... Teria evitado danos maiores e mais trágicos. O que na verdade acontece é isso – tive que trocar o áudio por causa do YouTube...:

O Brasil é tão maravilhoso que garotas seminuas dançam nas asas do avião! Imagino que esta cena seja uma metáfora para o que Michael espera do Brasil e seria uma ótima metáfora caso ele chegasse lá e notasse que o Brasil é um país como outro qualquer. Só que não. O Brasil é realmente um lugar mágico onde pássaros colocam ovos nas suas mãos e mulher tiram a roupa na beira da praia. Mas falando sério, sempre acho essa cena muito engraçada, mas quando colocada em outro contexto ela passa a fazer sentido. Stanley Donen disse em uma entrevista que Flying Down to Rio (1933) foi o filme que inspirou sua carreira de coreografo. O musical tinha Fred Astaire, Ginger Rogers e Dolores del Rio no elenco, e as cenas que vemos pela janela do avião foram tiradas dele.

A viagem, infelizmente, é boa e eles chegam a terra de Oz, digo, no Rio de Janeirooouu. Um Rio de Janeiro que continua lindo... Terra do samba. Do Pão de Açúcar. Do Cristo Redentor. E de aviões que voam em vários ângulos ao mesmo tempo. Adoro o jeito como o Rio é mostrado através da janela do avião. Cada vez que aparece, é em um ângulo diferente. Como se o piloto fizesse questão de seus passageiros verem TODOS os lados do Rio.

Quando eles chegam ao Rio, acontece uma das minhas cenas favoritas de todo filme. Uma cena onde os atores demonstram como eles são bons. Percebam a naturalidade com a qual são ditas as falas. Notem a escolha perfeita de elenco. Aquele homem é o que eu chamo de perfeição em pessoa. Um ator tão fascinante que nos conquista nestes poucos segundos que permanece em cena:

Dá para ver o QI da Demi Moore caindo nessa cena, enquanto ela lentamente se torna um robô. Queridas, vocês alguma vez viram um homem bonito? O mais incrível é que elas não se surpreendem por nenhum outro homem pelo resto do filme! E isso vem da mulher que estava dormindo com esse cara:

152554_ashton-kutcher-on-the-season-9-premiere-of-the-ellen-degeneres-showE é neste momento que todos descobrem que Demi Moore foi casada com Ellen DeGeneres

E mais. Elas estão no Brasil, tudo bem que a maioria dos homens que tu vê pela rua são feios ou apenas normais, mas aquele cara não chega nem perto do que poderia ser um homem brasileiro bonito.

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Pode tirar o olho, Demi, porque eee… euuu… eu vii… eu viii primeiro!

Depois disso eles vão para uma casa que eles alugaram em cima do morro. Não... Não estou falando sobre o morro dos tiroteios e tráfico de drogas. Muito menos do morro onde jornalistas são assassinados. Eu estou falando do morro encantado dos animais selvagens. Está certo que eu nunca fui para o Rio, mas tenho certeza de que se tivesse lá um morro cheio de animais em extinção que não tem medo do ser humano e que andam livres para lá e para cá, a gente ficaria sabendo. Onde diabos fica a casa deles? No Jardim Botânico? No Pampa Safári? E quem é que ensinou biologia para essa gente? Ah sim... Porque pássaros selvagens colocam ovos em cima de mesas, ao invés de fazerem ninhos e deixam que pessoas peguem estes ovos, joguem para cima e sacudam!

Ah, eu queria abortar mesmo...

Depois de várias cenas sem motivo de nudez na praia, pessoas cantando e dançando no meio da rua, ambulantes que rimam, mais nudez na praia e cenas pra lá de desconfortáveis, nos encontramos com algo assustador. Algo tão incrivelmente pavoroso que eu sugiro que todas as pessoas que possuem coração fraco se retirem agora mesmo. Eu estou falando do... PLOT!

Depois de quase meia hora de filme o plot finalmente dá as caras! Porque até então nada, absolutamente nada, havia acontecido! Era basicamente essas quatro pessoas, andando pelo Rio Encantado, tirando a roupa e olhando macacos. Mas então eis que surge a história para nos salvar desta excursão do inferno. Do nada, Michael começa a ter um caso com Jennifer, romance este que causa a maior confusão. Isso é tão clichê! Por que Michael não começa a ter um caso com Victor? Ou então com a Demi Moore? Ou com uma mãe de santo! Tanto faz! Qualquer coisa seria menos clichê do que comer a filha do melhor amigo! E por que é que meu pai não tem amigos bonitões e ricos? Bem... Imagino que a culpa seja do Rio...

clip_image007Sim, eu acho o Michael Caine bonitão.

Então a história não é sobre o Rio de Janeiro e sim sobre o romance entre Michael e Jennifer. O Rio aqui é apenas um cenário... Um cenário distorcido, mas ainda sim um cenário. O resto do filme mostra as aventuras sexuais dos dois, enquanto tentam de todas as maneiras esconder o que está acontecendo de Victor. O problema é que Victor nota que, tanto o amigo quanto a filha, estão envolvidos com alguém. E a filha de Michael viu os dois juntos, então fica um clima chato o tempo todo, apesar das belezas sobrenaturais do lugar.

E é só isso. SÓ ISSO. Todo esse sofrimento, toda essa angústia por nada! Depois de uma gritaria geral, brigas, nudez desnecessária e tucanos, o filme acaba sem acrescentar em nada. Em certo momento a esposa, que foi para a Bahia, descobre tudo e ai tem mais gritaria. E a Jeniffer começa a namorar um cara de 21 anos e o Michael, ah, sei lá o que acontece com ele. Não importa! E ai tem um monólogo e acaba. Fim do sofrimento.

Tem certas coisas nesse filme que eu até deixaria passar se ele se passasse no Nordeste. Porque no Nordeste as coisas são mais coloridas. Quando as pessoas não estão morrendo por causa da seca, é claro... Mas tem certas coisas que não dá... Onde já se viu macaco e tucano andando livres no meio da rua? Daqui a pouco vão dizer que a gente anda de cipó. O pior é que muita gente realmente tem essa imagem aqui do meu país. Eu ouvi uma história uma vez sobre um casal que não queria vir morar em São Paulo porque eles tinham medo de onça.

Em certo momento do filme todos eles vão a um casamento típico brasileiro, celebrado por uma baiana (“the Macumba Lady!”) no meio da praia. Depois de realizar a cerimônia, todos os convidados e os noivos tiram as roupas e se atiram no mar.

Eu tenho plena noção de que os filmes feitos por brasileiros passam uma ideia exagerada do nosso país. A maioria fala sobre sexo, violência, sexo, palavrão, violência, nordestinos morrendo de fome, sexo, pessoas ricas fazendo sexo violento com nordestinos (ah não, essa é a novela das oito). Mas uma coisa é a gente ficar mostrando o lado podre ou sexual do nosso país. Outra coisa é um americano que não tem noção do que é viver no Brasil, fazendo um filme sem nem ao menos pesquisar um pouco antes disso. É claro que Feitiço do Rio é uma visão americana romanceada deste país, mais ou menos como vemos a Europa, por exemplo. E como eu disse antes, não me importo tanto com a ideia de um Rio de Janeiro que “continua lindo”. O que mais me incomoda é a nudez exagerada e os animais selvagens andando no meio das pessoas.

Outro dia eu reclamei das novelas brasileiras que fazem estereótipos horrorosos de tudo que é nação ou crença. Porque os indianos são todos fanáticos ricos que cantam na rua, os judeus usam peruca, as ciganas dançam o tempo todo, as muçulmanas apanham. E todas as mulheres de todas as coisas citadas devem casar virgens. E todo mundo fala português... Caminho das Índias... A novela levemente baseada em uma página do Wikipédia. Mas é uma novela. Eu não estou defendendo ninguém, só que não dá para esperar muito de uma novela. Todas elas são enfadonhas. Produtos mal dirigidos com péssimas atuações. Vi uma entrevista com a Regina Duarte na qual ela dizia que as novelas dão certo porque o público gosta de ver a mesma história sendo contada várias e várias vezes. E é isso que novela é. Consigo contar nos dedos as novelas realmente boas (Roque Santeiro... Roque Santeiro...)

18_19_ghg_roque_santeiro_15Que não era nem um pouco exagerado…

Um filme, por outro lado, deveria ser mais bem trabalhado. Mas a equipe de Feitiço do Rio nem ao menos tentou. E se eles podem culpar o Rio, eu posso culpá-los também. O roteirista, o diretor, os atores, os diretores de arte, os continuistas, os diretores de fotografia, o responsável pela música, a mulher do cafezinho, o cara que limpava os vasos, o Prefeito e o Governador do Rio naquela época, o Presidente da República... Enfim... TODO MUNDO. A única coisa que se salva é Michael Caine. Ele é bom ator, interpretou direitinho e está engraçado. Mas é só porque ele é o Michael Caine. Porque se fosse um arigó qualquer (alguém aí disse Tom Cruise?) teria sido tão ruim quanto os outros.

Não posso finalizar este texto sem comentar a respeito de um dos meus diretores favoritos: Stanley Donen. Quando escrevi este texto pela primeira vez (em 2009, parece que já se passaram décadas) não sabia quem ele e era e hoje me envergonho bastante disso. Bem, eu o perdoo por esse filme se ele me perdoar por essa falha. Para quem não sabe, Donen é um diretor e coreografo americano, que dirigiu uma das maiores obras primas do cinema: Cantando na Chuva. Além disso, dirigiu vários filmes que adoro (e recomendo), como Um Dia em Nova York (1949), Sete Noivas para Sete Irmãos (1954), It's Always Fair Weather (1955), Charada (1963), O Diabo É Meu Sócio (1967) e O Pequeno Príncipe (1974).

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O diretor trabalhou diversas vezes ao lado de outras duas pessoas que admiro bastante, Gene Kelly e Bob Fosse. Feitiço do Rio foi seu último filme para o cinema e continua sendo uma incógnita para mim. Ao lado de Kelly, Donen o cinema musical e sua adaptação da obra de Antoine de Saint-Exupéry é um dos filmes mais bonitos que já vi. Como é possível que este homem tenha feito algo tão fraco e sem valor? Pesquisando sobre isso acabei descobrindo que Feitiço do Rio é um remake do filme de 1977 e se passa em uma praia em Saint-Tropez, conhecida por suas praias de nudismo, o que faz muito mais sentido. Depois deste filme, Donen se dedicou ao teatro e a televisão, tendo dirigido um clipe do Lionel Richie (Dancing on the Ceiling) e um episódio musical de A Gata e o Rato. Ele também dirigiu um filme para a TV chamado Love Letters, em 1999.

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Feitiço do Rio é uma homenagem ao Brasil e ao Rio de Janeiro, assim como aos filmes musicais da década de 30. Não é exatamente um filme ruim, é apenas esquecível e se tivesse sido feito como um filme dos anos 30 poderia ter sido muito melhor.

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Se você tem 11 anos e está grávida porque se prostituiu... Culpe o Riooooooo... Se levou bala perdida na sua cara... Culpe o Riooooooo... Se você fez um filme ruim e ofensivo... Culpe o Riooooooo... Se os seus atores não sabem atuar... Culpe o Riooooooo... E se sua mãe é uma macumba lady... Culpe o Riooooooo... Se o Michael Caine envelhece e vira o Alfred... Culpe o Rioooooooooooooooooooooooooo!!!!! Rio de Janeirooo!!! Pam pam pam pam pam paaaaam!!!

Blame It on Rio (1984)
Direção: Stanley Donen
Roteiro: Charlie Peters e Larry Gelbart
Elenco: Michael Caine, Joseph Bologna, Michelle Johnson, Demi Moore

5 comentários:

Pri Zorzi disse...

Lembro de ter comentado algo quilométrico na época que li o texto pela primeira vez (aaah, Haloscan!), mas tanto faz: é interessante reler e repensar.

Acho que todo mundo tende a ter uma visão fantasiosa de lugares que não conhece, seja considerando o lugar melhor ou pior do que ele realmente é. No fim das contas, é incrível o quanto, apesar de tudo, todos os lugares se parecem um pouco e todos eles são mais normais do que a gente tende a pensar... mas fim da reflexão sobre estereótipos. Eu não vejo nada contra distorcer um local pra deixá-lo com um ar fantástico e pouco realista - Gabriel Garcia Marquez faz isso como ninguém - a questão é como isso vai ser feito e com que propósito. E aí só vendo o filme pra saber, mas pelo jeito nesse caso aí a idéia da produção foi sabotada por alguns diálogos toscos e atuações medíocres.

Mas discordo de ti que novela não tenha obrigação de ser boa. Acho que tudo o que se propõe a ser exposto ao público tem que dar o seu melhor e tentar ser um produto decente. A questão é que existem públicos com diferentes graus de exigência e alguns deles se contentam com trabalhos simplórios, caso em que as pessoas aproveitam pra lucrar em cima de "qualquer coisa". E aí se há espaço pras novelas clichês, há espaço pros filmes medíocres também.

No geral, parece um filme que não é ruim na idéia, mas cuja execução deixa a desejar...

Paloma disse...

Não é que eu ache que novelas não devam ser boas. Só não espero que elas sejam, porque todas são ruins. É como fazer sexo medíocre a vida toda. Chega uma hora que tu não espera mais que seja bom.

Pri Zorzi disse...

É, a gente já espera a mesma trasheira e desrespeito a outras culturas, mas por costume e resignação. Não deveria ser assim!

E a culpa é sempre do cara cabeçudo e com um sorriso gigante, HAHAHAHA!

Paloma disse...

Hahahahaha! O que me lembra que outro dia a vó estava vendo a novela e apareceu o Thiago Lacerda e eu "ah, hm... Thiago Lacerda... Ai meu Deus... Eu gosto do Thiago Lacerda?????" ahahahahhaha

Carol disse...

POR QUE VC Ñ POSTA MAIS COISAS?

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