terça-feira, 30 de agosto de 2011

The Wiz - O Mágico Inesquecível

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Engraçado como nunca tinha me dado conta de que a mensagem por trás de O Mágico de Oz era “acredite em você mesmo”. Foi preciso que Diana Ross cantasse sobre isso para que aquela história de bater o sapato fizesse sentido. Mas vamos começar pelo começo. The Wiz é uma versão moderna de O Mágico de Oz, com roteiro de Joel Schumacher (O Fantasma da Ópera e Garotos Perdidos) e dirigido por Sidney Lumet (12 Homens e uma Sentença). A releitura transforma o reino de Oz em um submundo assustador, com lixeiras carnívoras, macacos motoqueiros, Munchkins grafiteiros e empresas especializadas na venda de suor.

Dorothy (Diana Ross) é uma professora de 23 anos, que vive com seus tios e que ainda não encontrou um rumo em sua vida. Seus primos estão crescendo, casando e tendo filhos, e Dorothy continua morando com os tios, dando aula para a pré-escola e com medo de relacionamentos. Ela nunca se arrisca, por medo das mudanças, nunca expressa o que sente e prefere ficar infeliz a enfrentar as adversidades da vida. Depois de uma festa familiar, o cão de Dorothy, Toto, foge de casa e ela vai atrás do bichinho. Os dois são pegos por uma tempestade de gelo e carregados até um estranho mundo chamado Oz.

Ao cair naquele mundo, Dorothy derruba uma grande placa em cima da perversa Bruxa Má do Leste, salvando os Munchkins do terrível feitiço que a bruxa havia posto neles. Ao pegá-los pintando grafites em um muro, a bruxa os transformou em meras pinturas nas paredes, aprisionando-os. Com a morte da Bruxa Má do Leste, a Bruxa Boa do Sul (Thelma Carpenter) se liberta e aconselha Dorothy a buscar ajuda com o grande Mágico de Oz, que vive na Cidade das Esmeraldas. Para chegar lá, basta seguir a estrada de tijolos amarelos.

No caminho, a jovem encontra o Espantalho (Michael Jackson), que é atormentado pelos corvos e precisa urgentemente de um cérebro; o Homem de Lata (Nipsey Russell), que só se interessa pelas mulheres erradas e precisa de um coração; e o Leão (Ted Ross), que perdeu seu cargo de rei da floresta e foi obrigado a trabalhar como enfeite da fachada de uma biblioteca, tudo porque não tinha coragem.

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A primeira vista, The Wiz parece um filme bastante bizarro e acaba afastando o público por puro preconceito. O título em português não ajuda (O Mágico Inesquecível) e a presença de Michael Jackson faz o filme ter cara de propaganda. Mas na realidade é um excelente filme, com ótimos números musicais e uma história muito bem estruturada. Os personagens ganham um pano de fundo muito melhor do que em qualquer outra adaptação de O Mágico de Oz que já vi (incluindo o livro original), a começar por Dorothy. No original, a garota não parece ter um bom motivo para voltar para casa, afinal lá ela é maltratada pelos tios, que quase não lhe dão atenção ou respeito, e a vizinha vive lhe atormentando e tentando matar Toto. Em The Wiz, sabemos que ela vem de um lar carinhoso, onde as pessoas apenas querem o seu bem. Aqui, o problema de Dorothy é apenas ela mesma.

O relacionamento dos corvos com o Espantalho passa de apenas um acontecimento esporádico para um ato verdadeiramente cruel. Os corvos atormentam o Espantalho, o tratam como um palhaço e o obrigam a ficar pendurado o dia todo. São eles que convencem o personagem de que ele deve ficar lá porque não tem cérebro. Quando o Espantalho tenta dizer que leu em algum lugar que aquilo não é certo (ele lê trechos dos livros que foram usados para recheá-lo), os corvos dizem que ler é errado. O Homem de Lata já não é mais apenas um lenhador, ele é um artista de parque de diversões, com quatro ex-esposas. Ele põe a culpa de seu fracasso com casamentos no fato de que seu criador esqueceu de lhe dar um coração. O coitado só quer se apaixonar. Já o Leão, quer de volta seu cargo de rei, mas não consegue nem ao menos assustar um cãozinho. Os outros animais o expulsaram da selva e agora ele vive com medo da própria sombra.

Outro aspecto muito bem explorado é a relação das quatro bruxas, o Mágico e o mundo onde eles vivem. A Bruxa Boa do Sul, aqui chamada de Miss One, é fraca, talvez a mais fraca das bruxas, e jamais poderia derrotar a Bruxa Má do Leste sozinha. A Bruxa Boa do Norte, Glinda (Lena Horne), é muito poderosa, mas vive isolada das outras bruxas e raramente aparece. Ela acredita que cada um precisa aprender a lidar com seus próprios problemas. As duas Bruxas Más (Mabel King) escravizam seus respectivos povos, mas não ousam passar disso porque temem o grande Oz. Por fim, o Mágico (Richard Pryor) mantém seu povo distraído com ordens absurdas e alternando entre o tiranismo e a bondade. Assim, nunca precisa mostrar seu verdadeiro rosto ou o poder que não tem, mas finge ter.

Não mostrar Glinda desde o início e representá-la como algo inacessível, deixa a história de “o poder de voltar para casa esteve sempre com você” muito mais plausível. Não sei muito bem porque a Bruxa do Sul foi cortada da versão de 1939, mas sempre achei que isso tira o nexo do filme e meio que transforma Glinda em uma desgraçada... Se ela sabia que apenas os sapatos poderiam levar Dorothy de volta para casa, por que não disse desde o início?

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Quando Dorothy se dá conta de que o que seus amigos queriam estava com eles desde o início, eles apenas não sabiam disso porque não tinham fé em si mesmos, Glinda aparece e ajuda Dorothy, pois é o poder do amor próprio que a Bruxa Boa prega. Dorothy não precisa aprender a amar o lugar de onde vem e sim a amar a si e aprender a se arriscar e buscar aquilo que deseja. E isso vale para o Mágico também. Ele não simplesmente abandona o povo de Oz e volta para casa. Não. Ele precisa aprender quem ele é e ganhar o respeito de seu povo, sem usar máscaras para se esconder.

O elenco de The Wiz é constituído quase que completamente por cantores, todos muito talentosos e se dando bem na atuação. Richard Pryor interpreta o mágico, dando o ar cômico, mas também melancólico que o personagem precisa. Mas uma das melhores escolhas de elenco foi, por incrível que pareça, Michael Jackson como o Espantalho. Pode parecer estranho a primeira vista, mas colocar um dançarino andrógeno para interpretar um espantalho gentil, ingênuo e atrapalhado foi uma jogada de mestre.

The Wiz é um musical divertido e sensível, que mostra que a única coisa que nos impede de conseguir aquilo que desejamos é nós mesmos.

The Wiz (1978)
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Joel Schumacher, baseado no livro de L. Frank Baum e na peça de William F. Brown
Elenco: Diana Ross, Michael Jackson, Nipsey Russell, Nipsey Russell, Mabel King, Theresa Merritt, Thelma Carpenter, Lena Horne, Richard Pryor, Stanley Greene

3 comentários:

Pinu disse...

"pois é o poder do amor próprio que a Bruxa Boa prega"

Hahahahah, imaginei a Diana Ross tirando uma espada luminosa do peito! xD

Quero ver esse filme! Nunca imagine que seria bom!

Gustavo disse...

I'm the Wiz, and nobody beats me!
http://youtu.be/pRf_A07Elyw

Juliano Moreira disse...

Eitcha! Essa é a surpresa.
No Brasil se tenta esconder filmes bons com títulos horríveis e capas bagaceiras.

É tipo uma gincana!

Podiam fazer com coisas como Avatar. O nome podia ser "Smurfs do Barulho". E a capa os bichos azuis em cima de balas de revólver, montando como se fossem cavalos. Sorrindo, é claro.

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