terça-feira, 16 de agosto de 2011

Coisas que odeio nas coisas que amo – Parte I

O Diário de Bridget Jones – O filme

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Este filme ganha pontos em várias áreas para mim. Para começar, é a minha comédia romântica favorita. A mocinha é real e não um estereótipo idiota ou um ser maravilhosamente maravilhoso, a história não me deprime e os romances são bem construídos, nada é forçado. Quando Mark diz que gosta de Bridget “do jeito que ela é”, sabemos que isso é verdade. Por ser um diário, todos os personagens (com exceção de Bridget) são exagerados ao extremo. Mark é perfeito, Daniel é um monstro, a mãe é dominadora. Além disso, este é um dos poucos filmes que já vi que considero muito melhor do que o livro do qual é adaptado, e o principal motivo disso é que o filme é muito mais competente em fazer aquilo que o livro se propõe: adaptar Orgulho e Preconceito.

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Quando li o livro, não ficou muito claro para mim as semelhanças entre as duas obras. Talvez porque o livro tem uma quantidade infinita de personagens, situações e cenários. Já o filme, por ter de se manter dentro dos 120 minutos, agiliza as coisas e vai direto ao ponto. Também temos cenas mais concretas, que demarcam melhor partes específicas do livro de Jane Austen. Um dos trechos mais marcantes na obra de Austen é, com certeza, o momento em que Mr. Darcy revela para Elizabeth que ele a ama. Ele lista todos os defeitos dela, para então dizer que, mesmo assim, não consegue deixar de amá-la. Em Bridget Jones, o livro, Mark Darcy convida Bridget para um encontro, alegando que a mãe dele acha que isso seria uma coisa boa. O trecho em si é muito engraçado (Bridget está se escondendo em uma festa e, segundos antes de Mark chegar, um adolescente a convida para dançar e tem uma ereção). A cena foi completamente remodelada para a versão cinematográfica e acabou sendo muito mais fiel a Orgulho e Preconceito: Mark Darcy inúmera todos os defeitos de Bridget para só então pedir desculpa por seu comportamento e dizer que gosta dela, do jeito que ela é.


                            BRIDGET
                Você e Cosmo estão nisso juntos?
                Porque você parece fazer de tudo
                para que eu me sinta uma completa 
                idota todas as vezes que a gente  
                se vê e você realmente não precisa se
                preocupar com isso... Eu já me sinto
                uma idiota a maior parte do tempo,
                com ou sem o cano dos bombeiros.

                            MARK
                Eu não acho que você seja idiota.
                Quero dizer, existem elementos
                ridículos sobre você. A sua mãe é
                um bom exemplo... E você é terrível
                falando em público e, ãhm, você tem
                a tendência de deixar tudo que passa
                pela sua cabeça sair pela sua boca,
                sem considerar as consequências. Eu me
                dei conta de que quando a gente se
                conheceu, no buffet de peru ao curry,
                eu fui imperdoavelmente grosseiro e
                estava usando um suéter de rena que
                minha mãe me deu no dia anterior. Mas,
                veja bem, o que estou tentando dizer,
                de maneira muito desarticulada,
                é que, ãhm, na verdade, eu gosto de
                você. Muito mesmo.

                            BRIDGET
                Ah, apesar do cigarro e da bebida e da
                mãe vulgar, ah, e da diarreia verbal...

                            MARK
                Não, eu gosto muito de você. Do jeito
                que você é.

O Diário de Bridget Jones, 2001, Working Title Films

tumblr_lpoiskWzmo1r1piiao1_500Sério, me mata.

Outra situação que foi melhorada no filme é a participação de Daniel como vilão da história. No livro, ele vem e vai, e basicamente era isso. O equivalente de Daniel em Orgulho e Preconceito, Mr. Wickham, mente para Elizabeth que Mr. Darcy roubou algo que lhe pertencia e isso apenas alimentou ainda mais o ódio que a jovem sentia de Darcy. Daniel nunca faz nada parecido no livro, mas no filme ele conta para Bridget que Mark teve um caso com sua noiva e o deixou de coração partido, quando na realidade era o contrário (e era a esposa de Mark).

Todos os personagens importantes da obra de Jane estão lá. As duas mães são praticamente a mesma personagem, o mesmo vale para os pais. Natasha, namorada de Mark, é a cópia fiel de Caroline Bingley, irmã do melhor amigo de Mr. Darcy. Sempre vi os amigos de Bridget como um misto das irmãs de Elizabeth e Charlotte Lucas, a melhor amiga. Enfim, O Diário de Bridget Jones é um dos meus filmes favoritos e a melhor adaptação de Orgulho e Preconceito que já existiu.

Photo Credit: Jason Bell.E todos os filmes deveriam ter pelo menos uma cena com o Colin Firth e o Hugh Grant brigando

Mas assim como tudo na vida, ele tem seus defeitos. Não me refiro a erros de continuidade e coisas com gênero. Não estou aqui para falar de detalhes técnicos. Para mim, O Diário de Bridget Jones possui duas grandes falhas, que são bem difíceis de engolir.

Falha Número Um: Quando Bridget fica braba com Mark, depois da cena da briga. Para quem não viu o filme (vá ver, o que você está fazendo lendo este texto?), Mark ajuda Bridget a fazer uma grande entrevista exclusiva, que não só impede de ela ser demitida como também faz com que ela fique bem vista pelo chefe. Isso acontece logo depois que Mark diz que gosta dela, e Bridget está começando a se dar conta de como ele é uma pessoa maravilhosa.

colin-firth-movies-listAnd, please, bitch… He’s the King!

É aniversário de Bridget, e Mark aparece para comemorar a matéria que ele ajudou ela a fazer. Tudo está lindo, ele a ajuda a cozinhar omeletes, todo mundo come a sopa azul e então Daniel aparece, meio bêbado. Ele tenta convencer Bridget de que eles são perfeitos um para o outro e Mark se irrita, chamando Daniel para um “duelo”. O dois brigam em uma das lutas mais fofas e atrapalhadas da história do cinema e depois de pedir uma trégua, Daniel xinga Mark em voz baixa e Mark dá um soco nele.

É então que Bridget reage da maneira mais absurda possível. Ela ainda acha que Mark roubou a noiva de Daniel e parece achar que isso é um bom motivo para Daniel ganhar a luta, ignorando completamente o fato de que ele tinha uma namorada da qual nunca mencionou, namorada essa que chamou Bridget de gorda. Daniel traiu Bridget, foi o motivo pelo qual ela ficou sem emprego e agiu como um completo imbecil no aniversário dela, e mesmo assim ela fica braba com Mark. Entendo que isso é necessário para a trama andar, afinal, se ela mandasse Daniel embora e trouxesse Mark para dentro de casa, o restante do filme seria Colin Firth nu, em todas as posições sexuais possíveis.

tumblr_l0x2aeD7tn1qasstho1_400Pensando bem...

Mas a reação dela continua sendo estúpida. Mesmo assim, essa é a cena onde Bridget mostra que ela não está largando Daniel por causa de Mark, e sim por causa dela mesma. Ela finalmente aprende a gostar de si e a se respeitar, crescendo como mulher e como personagem. Pela primeira vez na vida, Bridget se dá conta de que não precisa de um homem para ser feliz e que ela é uma mulher inteligente, bonita e independente. Ficar com Mark no final do filme é apenas uma recompensa.

clip_image009Tipo um pirulito que o médico dá depois da consulta.

O que nos leva a...

Falha Número Dois: A continuação. Ao contrário de muita gente por ai, eu até gosto de Bridget Jones: No Limite da Razão. O grande problema é que, ao contrário de seu antecessor, este filme é uma péssima adaptação. Vamos começar pelo fato de que ele é o meu livro favorito e que eu tinha grandes expectativas quanto ao filme. A questão aqui não é uma adaptação fiel, trecho por trecho do livro transformado em cenas. O primeiro filme não é nem de perto uma adaptação assim e não esperava que a continuação também fosse. Mas duas coisas extremamente importantes para manter o espírito da obra foram completamente deturpadas. A própria Bridget e Rebecca, sua nêmeses. Neste filme, Bridget vai de “a mocinha é real e não um estereótipo forçado” para um ser completamente retardado fadado ao desastre. Bridget não só perdeu totalmente o raciocínio como também o autocontrole e o amor próprio.

No primeiro filme, quando Bridget cai em cima da câmera quando está gravando sua primeira matéria jornalística, não é culpa dela. A roupa inadequada que ela usa foi imposta pelo produtor, a mandam escorregar do poste no momento errado e o câmera fica parado embaixo dela mesmo depois de ver que ela já estava escorregando. Já no segundo filme, Bridget parece mais atrapalhada do que nunca, pagando mico atrás de mico, sem nenhuma noção. No primeiro, Bridget aprende o valor do amor próprio, manda Daniel pastar e finalmente se dá conta de que homem maravilhoso Mark é. No segundo, Bridget termina com Mark por conta de um ciúme absurdo (no livro é apenas um mau entendimento entre os dois, causado pelo ciúmes, que não era nem um pouco absurdo) e corre para os braços de Daniel. É como se ela tivesse esquecido tudo que ela aprendeu no último ano. Então de que adiantou fazer um diário?

Quanto a Rebecca... Bem, aí a coisa é muito mais complicada. A versão literária de Rebecca é amiga de Bridget, que aparece desde o primeiro livro. Bridget e seus amigos a chamam de Água-viva, porque quando você menos espera ela te queima. Ela começa a dar em cima de Mark e, com a “ajuda” dos amigos, Bridget fica cada vez mais paranóica com isso.

“Rebecca não é exatamente uma amiga, mas sempre aparecia no 192 e se juntava a mim, à Jude e à Shaz. O problema dela é que é assim como uma água-viva gelatinosa e causa queimadura quando menos se espera. A gente tem uma conversa com ela que parece inteiramente simpática e amistosa e, de repente, sente uma ferroada e não sabe de onde veio. Por exemplo, quando se está conversando sobre jeans, ela diz: "Bem, se você tem culotes cheios de celulite, é melhor usar alguma coisa realmente bem modelada como Dolce & Gabbana" -, só que ela tem coxas que parecem às de um filhote de girafa - e depois se põe a falar de um modo meio sub-reptício de tecido de algodão, como se nada tivesse acontecido.”

Bridget Jones: No Limite da Razão, página 44.

No filme, Rebecca é uma colega de trabalho de Mark que passa tempo de mais com ele e acaba despertando o ciúme de Bridget, apesar de nunca dar motivos para isso. Ela só fica sorrindo e sendo educada.

Jacinda-BarrettE fazendo cara de filhote de coelho

Nas duas situações, Rebecca é a causa do término do namoro. A grande diferença é que no livro, Bridget tem razão em se sentir péssima com a situação (e não ajuda quando Rebecca finalmente rouba Mark dela e depois esfrega na cara de todo mundo) e no filme ela é só uma garota qualquer, extremamente educada e gentil.

Entendo a razão de trazer Daniel num papel muito maior do que no livro, acho que isso até adiciona mais a história e todo mundo adora o Hugh Grant, especialmente com aquele cabelo.

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Mas convenhamos, ele não é mais o vilão. Ele pode até seduzir a Bridget para depois abandonar ela no aeroporto, sendo presa por porte de cocaína, mas isso faz parte da personagem. Será que alguém realmente esperava que ele fosse voltar para ajudar ela? Depois que ela se negou a transar com ele? A verdadeira vilã nessa história é Rebecca. É ela que faz com que o namoro de Bridget e Mark acabe, é ela que transa com ele e depois esfrega a realidade na cara de Bridget. É ela que vive humilhando a Bridget na frente dos outros:

“Rebecca agarrava Mark pela lapela, falando-lhe apaixonada. Voei para trás de uma pilar e escutei.

- Você não acha - dizia ela. - Você não acha inteiramente possível duas pessoas  que deviam estar juntas, uma perfeita combinação em todos os aspectos, intelecto, físico, educação, posição social, ficarem separadas, por causa de um mal-entendido, defesa, orgulho, da ...  interferência de outros, e acabar com parceiros errados? Não acha?

- Bem, sim - murmurou Mark. - Embora não esteja certo sobre a sua lista de...

- Acha mesmo? Acha mesmo? - Ela parecia bêbada.

- Isso quase aconteceu comigo e a Bridget.

- Eu sei! Eu sei! Ela é a pessoa errada para você, querido, como Giles é para mim... Oh, Mark. Só fui para o Giles para fazer você compreender o que sente por mim. Talvez tenha sido errado, mas... eles não são nossos iguais!

- Hum ... - fez Mark.

- Eu sei! Eu sei! Posso sentir como você se sente vítima de uma armadilha. Mas é a sua vida. Não pode vivê-la com alguém que acha que Rimbaud foi interpretado por Sylvester Stallone, você precisa de estímulo, precisa de...

- Rebecca - disse Mark, em voz baixa: - Eu preciso da Bridget.

Ao que Rebecca deixou escapar um ruído horroroso, alguma coisa entre um lancinante gemido embriagado e um berro raivoso.”

Bridget Jones: No Limite da Razão, página 427.

tumblr_lpmpgcceYv1qihp55o1_500Boo, you whore.

Isso tudo, é claro, no livro... No filme ela virou uma mera piada, apenas mais uma mostra da estupidez de Bridget, o “tun dum push” final, com direito a um flashback que grita “Viu Bridget? Você não passa de uma coitada imbecil que imagina coisas e que merecia ficar sozinha no final dessa história”. No filme, a grande vilã que quer destruir a vida de Bridget se torna uma jovem e simpática lésbica, apaixonada por Bridget. E assim, uma das vilãs mais legais das comédias românticas e que passei anos odiando, me fez pensar “putz, coitada...”. Sabe, não tenho nada contra o final ser assim, é simples, é engraçado, mas somado com a patetice que Bridget adquiriu fazendo sexo com Mark, deixa o filme ainda mais superficial.

wirelumièrehangerA mesma coisa aconteceu comigo

A questão toda não é a mudança radical de personalidade da Rebecca, e sim a simplificação trabalhando a favor da estupificação de Bridget e não da história em si, como no primeiro. Existem no livro trechos que são disparados mais engraçados e mais bonitos do que no filme e ao vê-lo, senti muita falta dessas coisas. Não vi necessidade disso e vejo que o principal apelo da personagem acaba se perdendo. Bridget Jones começou como uma coluna em um jornal britânico, que virou livro, que ganhou continuação, que virou filme. E tem um terceiro longa / livro vindo por aí. E o principal motivo do sucesso é que Bridget é real, ela é você, ela é eu... A própria autora, Helen Fielding, diz que recebe milhares de cartas de mulheres do mundo todo dizendo “Eu sou a Bridget!”. Quando vi esse filme pela primeira vez, me identifiquei tanto com ela que me tornei grande fã de Renée Zellweger, que parecia ser a pior escolha possível para o papel que acabou se tornando seu melhor trabalho. Mas quem iria se identificar com uma personagem burra e sem nenhum amor próprio?

Não é que eu deteste Bridget Jones: No Limite da Razão. Acho que a narrativa está boa, algumas das situações são bastante divertidas (Bridget esquiando, as cenas na Tailândia, e desde que vi o filme eu passei a correr na grama cantando “The hills are alive, with the sound of music, na na na naa na na na naaaaaa”). O único problema é a preocupação com o divertido que acaba deixando a realidade de lado. No primeiro filme, Bridget era ridícula mesmo sendo real, não foi preciso exagerar. É como se este filme fosse a franquia Premonição, onde a cada filme novo eles precisam inventar estúpidas e surpreendentes mortes sangrentas. Isso é subestimar o público de Bridget. É subestimar a própria Bridget.

E realmente espero que no terceiro filme, a tradicional cena da luta seja na lama. Com Hugh Grant e Colin Firth nus. Não importa que eles estejam flácidos e gordos. Eu quero nudez. Só isso salvará.

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A autora deste texto é aficionada em Bridget Jones. Para mais provas, acesse este link por sua conta em risco.

Um comentário:

Juliano Moreira disse...

Gostei dos trechos do livro, nenê! =D
\o\

Tinha que fazer isso mesmo, considerar quem não tá tão íntimo do assunto.

Também acho dã ela ficar braba com ela. Mas, né (?), é falta de alternativa em roteiro.

Vai fazer o quê, agora?

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