terça-feira, 30 de agosto de 2011

The Wiz - O Mágico Inesquecível

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Engraçado como nunca tinha me dado conta de que a mensagem por trás de O Mágico de Oz era “acredite em você mesmo”. Foi preciso que Diana Ross cantasse sobre isso para que aquela história de bater o sapato fizesse sentido. Mas vamos começar pelo começo. The Wiz é uma versão moderna de O Mágico de Oz, com roteiro de Joel Schumacher (O Fantasma da Ópera e Garotos Perdidos) e dirigido por Sidney Lumet (12 Homens e uma Sentença). A releitura transforma o reino de Oz em um submundo assustador, com lixeiras carnívoras, macacos motoqueiros, Munchkins grafiteiros e empresas especializadas na venda de suor.

Dorothy (Diana Ross) é uma professora de 23 anos, que vive com seus tios e que ainda não encontrou um rumo em sua vida. Seus primos estão crescendo, casando e tendo filhos, e Dorothy continua morando com os tios, dando aula para a pré-escola e com medo de relacionamentos. Ela nunca se arrisca, por medo das mudanças, nunca expressa o que sente e prefere ficar infeliz a enfrentar as adversidades da vida. Depois de uma festa familiar, o cão de Dorothy, Toto, foge de casa e ela vai atrás do bichinho. Os dois são pegos por uma tempestade de gelo e carregados até um estranho mundo chamado Oz.

Ao cair naquele mundo, Dorothy derruba uma grande placa em cima da perversa Bruxa Má do Leste, salvando os Munchkins do terrível feitiço que a bruxa havia posto neles. Ao pegá-los pintando grafites em um muro, a bruxa os transformou em meras pinturas nas paredes, aprisionando-os. Com a morte da Bruxa Má do Leste, a Bruxa Boa do Sul (Thelma Carpenter) se liberta e aconselha Dorothy a buscar ajuda com o grande Mágico de Oz, que vive na Cidade das Esmeraldas. Para chegar lá, basta seguir a estrada de tijolos amarelos.

No caminho, a jovem encontra o Espantalho (Michael Jackson), que é atormentado pelos corvos e precisa urgentemente de um cérebro; o Homem de Lata (Nipsey Russell), que só se interessa pelas mulheres erradas e precisa de um coração; e o Leão (Ted Ross), que perdeu seu cargo de rei da floresta e foi obrigado a trabalhar como enfeite da fachada de uma biblioteca, tudo porque não tinha coragem.

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A primeira vista, The Wiz parece um filme bastante bizarro e acaba afastando o público por puro preconceito. O título em português não ajuda (O Mágico Inesquecível) e a presença de Michael Jackson faz o filme ter cara de propaganda. Mas na realidade é um excelente filme, com ótimos números musicais e uma história muito bem estruturada. Os personagens ganham um pano de fundo muito melhor do que em qualquer outra adaptação de O Mágico de Oz que já vi (incluindo o livro original), a começar por Dorothy. No original, a garota não parece ter um bom motivo para voltar para casa, afinal lá ela é maltratada pelos tios, que quase não lhe dão atenção ou respeito, e a vizinha vive lhe atormentando e tentando matar Toto. Em The Wiz, sabemos que ela vem de um lar carinhoso, onde as pessoas apenas querem o seu bem. Aqui, o problema de Dorothy é apenas ela mesma.

O relacionamento dos corvos com o Espantalho passa de apenas um acontecimento esporádico para um ato verdadeiramente cruel. Os corvos atormentam o Espantalho, o tratam como um palhaço e o obrigam a ficar pendurado o dia todo. São eles que convencem o personagem de que ele deve ficar lá porque não tem cérebro. Quando o Espantalho tenta dizer que leu em algum lugar que aquilo não é certo (ele lê trechos dos livros que foram usados para recheá-lo), os corvos dizem que ler é errado. O Homem de Lata já não é mais apenas um lenhador, ele é um artista de parque de diversões, com quatro ex-esposas. Ele põe a culpa de seu fracasso com casamentos no fato de que seu criador esqueceu de lhe dar um coração. O coitado só quer se apaixonar. Já o Leão, quer de volta seu cargo de rei, mas não consegue nem ao menos assustar um cãozinho. Os outros animais o expulsaram da selva e agora ele vive com medo da própria sombra.

Outro aspecto muito bem explorado é a relação das quatro bruxas, o Mágico e o mundo onde eles vivem. A Bruxa Boa do Sul, aqui chamada de Miss One, é fraca, talvez a mais fraca das bruxas, e jamais poderia derrotar a Bruxa Má do Leste sozinha. A Bruxa Boa do Norte, Glinda (Lena Horne), é muito poderosa, mas vive isolada das outras bruxas e raramente aparece. Ela acredita que cada um precisa aprender a lidar com seus próprios problemas. As duas Bruxas Más (Mabel King) escravizam seus respectivos povos, mas não ousam passar disso porque temem o grande Oz. Por fim, o Mágico (Richard Pryor) mantém seu povo distraído com ordens absurdas e alternando entre o tiranismo e a bondade. Assim, nunca precisa mostrar seu verdadeiro rosto ou o poder que não tem, mas finge ter.

Não mostrar Glinda desde o início e representá-la como algo inacessível, deixa a história de “o poder de voltar para casa esteve sempre com você” muito mais plausível. Não sei muito bem porque a Bruxa do Sul foi cortada da versão de 1939, mas sempre achei que isso tira o nexo do filme e meio que transforma Glinda em uma desgraçada... Se ela sabia que apenas os sapatos poderiam levar Dorothy de volta para casa, por que não disse desde o início?

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Quando Dorothy se dá conta de que o que seus amigos queriam estava com eles desde o início, eles apenas não sabiam disso porque não tinham fé em si mesmos, Glinda aparece e ajuda Dorothy, pois é o poder do amor próprio que a Bruxa Boa prega. Dorothy não precisa aprender a amar o lugar de onde vem e sim a amar a si e aprender a se arriscar e buscar aquilo que deseja. E isso vale para o Mágico também. Ele não simplesmente abandona o povo de Oz e volta para casa. Não. Ele precisa aprender quem ele é e ganhar o respeito de seu povo, sem usar máscaras para se esconder.

O elenco de The Wiz é constituído quase que completamente por cantores, todos muito talentosos e se dando bem na atuação. Richard Pryor interpreta o mágico, dando o ar cômico, mas também melancólico que o personagem precisa. Mas uma das melhores escolhas de elenco foi, por incrível que pareça, Michael Jackson como o Espantalho. Pode parecer estranho a primeira vista, mas colocar um dançarino andrógeno para interpretar um espantalho gentil, ingênuo e atrapalhado foi uma jogada de mestre.

The Wiz é um musical divertido e sensível, que mostra que a única coisa que nos impede de conseguir aquilo que desejamos é nós mesmos.

The Wiz (1978)
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Joel Schumacher, baseado no livro de L. Frank Baum e na peça de William F. Brown
Elenco: Diana Ross, Michael Jackson, Nipsey Russell, Nipsey Russell, Mabel King, Theresa Merritt, Thelma Carpenter, Lena Horne, Richard Pryor, Stanley Greene

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Dylan Dog e as Criaturas da Noite

PKAPKSPKAS

“If they follow you, don't look back! Like Dylan in the movies, on your own. If they follow you, it's not your money that they're after, boy… It's you.” - Belle & Sebastian

Judas Dançarino! Estreou o filme oficial deste blog! Dylan Dog, o detetive do pesadelo, é um personagem da história em quadrinho publicada pela Sergio Bonelli Editore e criada por Tiziano Sclavi, em 1986. Sua aparência foi criada por Claudio Villa, que se baseou no ator Rupert Everett no filme Memórias de um Espião (1984). Rupert Everett, por sua vez, é o protagonista daquele que é considerado a verdadeira adaptação de Dylan Dog, Dellamorte Dellamore (1994), que na realidade é uma adaptação de um livro de 1991, escrito por ninguém menos do que o próprio Tiziano Sclavi.

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Dylan Dog é a história de um detetive especializado em casos sobrenaturais. Ele conta com a ajuda de seu fiel e louco assistente, Groucho (aparência e personalidade baseadas em Groucho Marx) e do Inspetor da Scotland Yard, Bloch.

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Seu principal inimigo é Dr. Xabaras, um cientista obsecado pela imortalidade que acordou os mortos, transformando-os em zumbis. Dylan descobre que Xabaras é a metade negra de seu pai, que se dividiu em dois quando testou o soro da imortalidade nele mesmo. Dylan nasceu em 1686, mas foi transportado 300 anos no futuro pelo demônio de quem o pai tirou o tal soro. Quando Xabaras tenta salvar Dylan, também é enviado para o futuro. Essa história daria um ótimo filme!

Sabe o que não dá um grande filme? Dylan Dog e as Criaturas da Noite, dirigido por Kevin Munroe. Não é nem ao menos um bom filme. Ou um filme regular. Nem ao menos tenho certeza de que é um filme de verdade. Os erros são tantos que eu teria que escrever um ensaio de oitenta páginas para poder percorrer por todos eles com detalhes. A começar pela escolha de elenco, que nunca na história do cinema foi tão descabida. Brandon Routh deve ser um dos piores atores da atualidade (e muitos poderiam dizer que esse é o motivo pelo qual ele interpreta o Super-Homem) e nesse filme ele parece mais morto do que todos os zumbis. As falas e narração são cafonas, as situações são absurdas, o plot não faz sentido, o sub-plot dos zumbis é chato e tedioso, o ajudante (Marcus, interpretado por Sam Huntington) é irritante, a mocinha é sem graça, e Dylan Dog não faz absolutamente nada o filme todo. Ah, e balas de madeira? Sério?

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A personalidade de Dylan, que no original é gentil e sarcástica, com um humor ácido, no filme se transformou em algo tirado de um noir mal feito, sem orçamento nenhum. Ele é groceiro e apático, e apenas reage aos acontecimentos. E, em nenhum momento, ele tenta transar com a mocinha que acabou de ver o pai sendo assassinado por um monstro.

DylanE la morte mi eccita…

Com exceção da roupa preta e vermelha, do fusca, do cartão e da profissão, Dylan Dog e as Criaturas da Noite ignora todos os detalhes famosos da HQ, tudo aquilo que deixa a história interessante. Bloch e Xabaras nunca são citados, a campainha do grito não existe, e Groucho foi reduzido a uma foto e um cartaz de Diabo a Quatro (1933). Não sei exatamente porque ele não aparece no filme, provavelmente é por causa de direitos autorais, mas a ausência dele faz com que o filme pareça vazio.

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Dylan Dog tem um enredo muito rico, com 24 anos de histórias que poderiam se tornar ótimos filmes, originais e ousados. Os principais elementos desta HQ são as personagens carismáticas e malucas, os casos non sense e as referências a clássicos do cinema. Nada disso é mostrado em sua adaptação.  Imagino como seria fantástico um filme baseado em Golconda!, com demônios vestidos de terno e chapéu coco, com tentáculos saindo de seus cérebros, uma linha telefônica que conecta diretamente com o inferno, e um olho gigante andando de bicicleta. Golconda! daria um ótimo filme, cheio de situações apavorantes, mesclando com coisas engraçadas e às vezes sem sentido. Mas ao invés de um filme original, o resultado foi uma história batida de “policial aposentado que volta ao combate” e que tem de “aprender lidar com o trauma de perder a mulher que amava”. Por que não contrataram o Bruce Willis, então?

Existem no filme elementos que me lembram bastante dos quadrinhos, como a loja de pedaços de corpos para zumbis, mas são tão mal aproveitados que acabam perdendo a graça. Normalmente, quando vejo uma adaptação péssima de algo que gosto muito, me sinto ofendida e me dobro em posição fetal, com um pouco de gosto de vômito na garganta.

Mas neste caso, só fico triste por saber que muita gente não vai se interessar pelos quadrinhos por conta do filme. Apesar do sucesso na Itália (a revista chega a vender cerca de um milhão de exemplares por mês), aqui no Brasil a série foi cancelada em 2006, devido ao alto valor das revistas, que eram impressas em um papel de péssima qualidade. Tinha esperanças de que o filme fizesse sucesso e isso trouxesse Dylan Dog de volta ao Brasil, mas fica claro que isso não irá acontecer. O filme estreou semana passada aqui e já não está mais em cartaz.

A impressão que este filme passa é a de um trabalho feito por estudantes de colégio, que gostam um monte dos quadrinhos e que pegaram a câmera do pai para gravar um filme para os amigos. Estudantes de colégio pago. Com pais bem ricos. Dá para notar a boa intenção por baixo de toda a falta de talento.

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Dylan Dog: Dead of Night (2010)
Direção: Kevin Munroe
Roteiro: Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer, baseado em uma história em quadrinhos de Tiziano Sclavi
Elenco: Brandon Routh, Peter Stormare, Sam Huntington, Taye Diggs, Anita Briem

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Coisas que odeio nas coisas que amo – Parte I

O Diário de Bridget Jones – O filme

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Este filme ganha pontos em várias áreas para mim. Para começar, é a minha comédia romântica favorita. A mocinha é real e não um estereótipo idiota ou um ser maravilhosamente maravilhoso, a história não me deprime e os romances são bem construídos, nada é forçado. Quando Mark diz que gosta de Bridget “do jeito que ela é”, sabemos que isso é verdade. Por ser um diário, todos os personagens (com exceção de Bridget) são exagerados ao extremo. Mark é perfeito, Daniel é um monstro, a mãe é dominadora. Além disso, este é um dos poucos filmes que já vi que considero muito melhor do que o livro do qual é adaptado, e o principal motivo disso é que o filme é muito mais competente em fazer aquilo que o livro se propõe: adaptar Orgulho e Preconceito.

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Quando li o livro, não ficou muito claro para mim as semelhanças entre as duas obras. Talvez porque o livro tem uma quantidade infinita de personagens, situações e cenários. Já o filme, por ter de se manter dentro dos 120 minutos, agiliza as coisas e vai direto ao ponto. Também temos cenas mais concretas, que demarcam melhor partes específicas do livro de Jane Austen. Um dos trechos mais marcantes na obra de Austen é, com certeza, o momento em que Mr. Darcy revela para Elizabeth que ele a ama. Ele lista todos os defeitos dela, para então dizer que, mesmo assim, não consegue deixar de amá-la. Em Bridget Jones, o livro, Mark Darcy convida Bridget para um encontro, alegando que a mãe dele acha que isso seria uma coisa boa. O trecho em si é muito engraçado (Bridget está se escondendo em uma festa e, segundos antes de Mark chegar, um adolescente a convida para dançar e tem uma ereção). A cena foi completamente remodelada para a versão cinematográfica e acabou sendo muito mais fiel a Orgulho e Preconceito: Mark Darcy inúmera todos os defeitos de Bridget para só então pedir desculpa por seu comportamento e dizer que gosta dela, do jeito que ela é.


                            BRIDGET
                Você e Cosmo estão nisso juntos?
                Porque você parece fazer de tudo
                para que eu me sinta uma completa 
                idota todas as vezes que a gente  
                se vê e você realmente não precisa se
                preocupar com isso... Eu já me sinto
                uma idiota a maior parte do tempo,
                com ou sem o cano dos bombeiros.

                            MARK
                Eu não acho que você seja idiota.
                Quero dizer, existem elementos
                ridículos sobre você. A sua mãe é
                um bom exemplo... E você é terrível
                falando em público e, ãhm, você tem
                a tendência de deixar tudo que passa
                pela sua cabeça sair pela sua boca,
                sem considerar as consequências. Eu me
                dei conta de que quando a gente se
                conheceu, no buffet de peru ao curry,
                eu fui imperdoavelmente grosseiro e
                estava usando um suéter de rena que
                minha mãe me deu no dia anterior. Mas,
                veja bem, o que estou tentando dizer,
                de maneira muito desarticulada,
                é que, ãhm, na verdade, eu gosto de
                você. Muito mesmo.

                            BRIDGET
                Ah, apesar do cigarro e da bebida e da
                mãe vulgar, ah, e da diarreia verbal...

                            MARK
                Não, eu gosto muito de você. Do jeito
                que você é.

O Diário de Bridget Jones, 2001, Working Title Films

tumblr_lpoiskWzmo1r1piiao1_500Sério, me mata.

Outra situação que foi melhorada no filme é a participação de Daniel como vilão da história. No livro, ele vem e vai, e basicamente era isso. O equivalente de Daniel em Orgulho e Preconceito, Mr. Wickham, mente para Elizabeth que Mr. Darcy roubou algo que lhe pertencia e isso apenas alimentou ainda mais o ódio que a jovem sentia de Darcy. Daniel nunca faz nada parecido no livro, mas no filme ele conta para Bridget que Mark teve um caso com sua noiva e o deixou de coração partido, quando na realidade era o contrário (e era a esposa de Mark).

Todos os personagens importantes da obra de Jane estão lá. As duas mães são praticamente a mesma personagem, o mesmo vale para os pais. Natasha, namorada de Mark, é a cópia fiel de Caroline Bingley, irmã do melhor amigo de Mr. Darcy. Sempre vi os amigos de Bridget como um misto das irmãs de Elizabeth e Charlotte Lucas, a melhor amiga. Enfim, O Diário de Bridget Jones é um dos meus filmes favoritos e a melhor adaptação de Orgulho e Preconceito que já existiu.

Photo Credit: Jason Bell.E todos os filmes deveriam ter pelo menos uma cena com o Colin Firth e o Hugh Grant brigando

Mas assim como tudo na vida, ele tem seus defeitos. Não me refiro a erros de continuidade e coisas com gênero. Não estou aqui para falar de detalhes técnicos. Para mim, O Diário de Bridget Jones possui duas grandes falhas, que são bem difíceis de engolir.

Falha Número Um: Quando Bridget fica braba com Mark, depois da cena da briga. Para quem não viu o filme (vá ver, o que você está fazendo lendo este texto?), Mark ajuda Bridget a fazer uma grande entrevista exclusiva, que não só impede de ela ser demitida como também faz com que ela fique bem vista pelo chefe. Isso acontece logo depois que Mark diz que gosta dela, e Bridget está começando a se dar conta de como ele é uma pessoa maravilhosa.

colin-firth-movies-listAnd, please, bitch… He’s the King!

É aniversário de Bridget, e Mark aparece para comemorar a matéria que ele ajudou ela a fazer. Tudo está lindo, ele a ajuda a cozinhar omeletes, todo mundo come a sopa azul e então Daniel aparece, meio bêbado. Ele tenta convencer Bridget de que eles são perfeitos um para o outro e Mark se irrita, chamando Daniel para um “duelo”. O dois brigam em uma das lutas mais fofas e atrapalhadas da história do cinema e depois de pedir uma trégua, Daniel xinga Mark em voz baixa e Mark dá um soco nele.

É então que Bridget reage da maneira mais absurda possível. Ela ainda acha que Mark roubou a noiva de Daniel e parece achar que isso é um bom motivo para Daniel ganhar a luta, ignorando completamente o fato de que ele tinha uma namorada da qual nunca mencionou, namorada essa que chamou Bridget de gorda. Daniel traiu Bridget, foi o motivo pelo qual ela ficou sem emprego e agiu como um completo imbecil no aniversário dela, e mesmo assim ela fica braba com Mark. Entendo que isso é necessário para a trama andar, afinal, se ela mandasse Daniel embora e trouxesse Mark para dentro de casa, o restante do filme seria Colin Firth nu, em todas as posições sexuais possíveis.

tumblr_l0x2aeD7tn1qasstho1_400Pensando bem...

Mas a reação dela continua sendo estúpida. Mesmo assim, essa é a cena onde Bridget mostra que ela não está largando Daniel por causa de Mark, e sim por causa dela mesma. Ela finalmente aprende a gostar de si e a se respeitar, crescendo como mulher e como personagem. Pela primeira vez na vida, Bridget se dá conta de que não precisa de um homem para ser feliz e que ela é uma mulher inteligente, bonita e independente. Ficar com Mark no final do filme é apenas uma recompensa.

clip_image009Tipo um pirulito que o médico dá depois da consulta.

O que nos leva a...

Falha Número Dois: A continuação. Ao contrário de muita gente por ai, eu até gosto de Bridget Jones: No Limite da Razão. O grande problema é que, ao contrário de seu antecessor, este filme é uma péssima adaptação. Vamos começar pelo fato de que ele é o meu livro favorito e que eu tinha grandes expectativas quanto ao filme. A questão aqui não é uma adaptação fiel, trecho por trecho do livro transformado em cenas. O primeiro filme não é nem de perto uma adaptação assim e não esperava que a continuação também fosse. Mas duas coisas extremamente importantes para manter o espírito da obra foram completamente deturpadas. A própria Bridget e Rebecca, sua nêmeses. Neste filme, Bridget vai de “a mocinha é real e não um estereótipo forçado” para um ser completamente retardado fadado ao desastre. Bridget não só perdeu totalmente o raciocínio como também o autocontrole e o amor próprio.

No primeiro filme, quando Bridget cai em cima da câmera quando está gravando sua primeira matéria jornalística, não é culpa dela. A roupa inadequada que ela usa foi imposta pelo produtor, a mandam escorregar do poste no momento errado e o câmera fica parado embaixo dela mesmo depois de ver que ela já estava escorregando. Já no segundo filme, Bridget parece mais atrapalhada do que nunca, pagando mico atrás de mico, sem nenhuma noção. No primeiro, Bridget aprende o valor do amor próprio, manda Daniel pastar e finalmente se dá conta de que homem maravilhoso Mark é. No segundo, Bridget termina com Mark por conta de um ciúme absurdo (no livro é apenas um mau entendimento entre os dois, causado pelo ciúmes, que não era nem um pouco absurdo) e corre para os braços de Daniel. É como se ela tivesse esquecido tudo que ela aprendeu no último ano. Então de que adiantou fazer um diário?

Quanto a Rebecca... Bem, aí a coisa é muito mais complicada. A versão literária de Rebecca é amiga de Bridget, que aparece desde o primeiro livro. Bridget e seus amigos a chamam de Água-viva, porque quando você menos espera ela te queima. Ela começa a dar em cima de Mark e, com a “ajuda” dos amigos, Bridget fica cada vez mais paranóica com isso.

“Rebecca não é exatamente uma amiga, mas sempre aparecia no 192 e se juntava a mim, à Jude e à Shaz. O problema dela é que é assim como uma água-viva gelatinosa e causa queimadura quando menos se espera. A gente tem uma conversa com ela que parece inteiramente simpática e amistosa e, de repente, sente uma ferroada e não sabe de onde veio. Por exemplo, quando se está conversando sobre jeans, ela diz: "Bem, se você tem culotes cheios de celulite, é melhor usar alguma coisa realmente bem modelada como Dolce & Gabbana" -, só que ela tem coxas que parecem às de um filhote de girafa - e depois se põe a falar de um modo meio sub-reptício de tecido de algodão, como se nada tivesse acontecido.”

Bridget Jones: No Limite da Razão, página 44.

No filme, Rebecca é uma colega de trabalho de Mark que passa tempo de mais com ele e acaba despertando o ciúme de Bridget, apesar de nunca dar motivos para isso. Ela só fica sorrindo e sendo educada.

Jacinda-BarrettE fazendo cara de filhote de coelho

Nas duas situações, Rebecca é a causa do término do namoro. A grande diferença é que no livro, Bridget tem razão em se sentir péssima com a situação (e não ajuda quando Rebecca finalmente rouba Mark dela e depois esfrega na cara de todo mundo) e no filme ela é só uma garota qualquer, extremamente educada e gentil.

Entendo a razão de trazer Daniel num papel muito maior do que no livro, acho que isso até adiciona mais a história e todo mundo adora o Hugh Grant, especialmente com aquele cabelo.

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Mas convenhamos, ele não é mais o vilão. Ele pode até seduzir a Bridget para depois abandonar ela no aeroporto, sendo presa por porte de cocaína, mas isso faz parte da personagem. Será que alguém realmente esperava que ele fosse voltar para ajudar ela? Depois que ela se negou a transar com ele? A verdadeira vilã nessa história é Rebecca. É ela que faz com que o namoro de Bridget e Mark acabe, é ela que transa com ele e depois esfrega a realidade na cara de Bridget. É ela que vive humilhando a Bridget na frente dos outros:

“Rebecca agarrava Mark pela lapela, falando-lhe apaixonada. Voei para trás de uma pilar e escutei.

- Você não acha - dizia ela. - Você não acha inteiramente possível duas pessoas  que deviam estar juntas, uma perfeita combinação em todos os aspectos, intelecto, físico, educação, posição social, ficarem separadas, por causa de um mal-entendido, defesa, orgulho, da ...  interferência de outros, e acabar com parceiros errados? Não acha?

- Bem, sim - murmurou Mark. - Embora não esteja certo sobre a sua lista de...

- Acha mesmo? Acha mesmo? - Ela parecia bêbada.

- Isso quase aconteceu comigo e a Bridget.

- Eu sei! Eu sei! Ela é a pessoa errada para você, querido, como Giles é para mim... Oh, Mark. Só fui para o Giles para fazer você compreender o que sente por mim. Talvez tenha sido errado, mas... eles não são nossos iguais!

- Hum ... - fez Mark.

- Eu sei! Eu sei! Posso sentir como você se sente vítima de uma armadilha. Mas é a sua vida. Não pode vivê-la com alguém que acha que Rimbaud foi interpretado por Sylvester Stallone, você precisa de estímulo, precisa de...

- Rebecca - disse Mark, em voz baixa: - Eu preciso da Bridget.

Ao que Rebecca deixou escapar um ruído horroroso, alguma coisa entre um lancinante gemido embriagado e um berro raivoso.”

Bridget Jones: No Limite da Razão, página 427.

tumblr_lpmpgcceYv1qihp55o1_500Boo, you whore.

Isso tudo, é claro, no livro... No filme ela virou uma mera piada, apenas mais uma mostra da estupidez de Bridget, o “tun dum push” final, com direito a um flashback que grita “Viu Bridget? Você não passa de uma coitada imbecil que imagina coisas e que merecia ficar sozinha no final dessa história”. No filme, a grande vilã que quer destruir a vida de Bridget se torna uma jovem e simpática lésbica, apaixonada por Bridget. E assim, uma das vilãs mais legais das comédias românticas e que passei anos odiando, me fez pensar “putz, coitada...”. Sabe, não tenho nada contra o final ser assim, é simples, é engraçado, mas somado com a patetice que Bridget adquiriu fazendo sexo com Mark, deixa o filme ainda mais superficial.

wirelumièrehangerA mesma coisa aconteceu comigo

A questão toda não é a mudança radical de personalidade da Rebecca, e sim a simplificação trabalhando a favor da estupificação de Bridget e não da história em si, como no primeiro. Existem no livro trechos que são disparados mais engraçados e mais bonitos do que no filme e ao vê-lo, senti muita falta dessas coisas. Não vi necessidade disso e vejo que o principal apelo da personagem acaba se perdendo. Bridget Jones começou como uma coluna em um jornal britânico, que virou livro, que ganhou continuação, que virou filme. E tem um terceiro longa / livro vindo por aí. E o principal motivo do sucesso é que Bridget é real, ela é você, ela é eu... A própria autora, Helen Fielding, diz que recebe milhares de cartas de mulheres do mundo todo dizendo “Eu sou a Bridget!”. Quando vi esse filme pela primeira vez, me identifiquei tanto com ela que me tornei grande fã de Renée Zellweger, que parecia ser a pior escolha possível para o papel que acabou se tornando seu melhor trabalho. Mas quem iria se identificar com uma personagem burra e sem nenhum amor próprio?

Não é que eu deteste Bridget Jones: No Limite da Razão. Acho que a narrativa está boa, algumas das situações são bastante divertidas (Bridget esquiando, as cenas na Tailândia, e desde que vi o filme eu passei a correr na grama cantando “The hills are alive, with the sound of music, na na na naa na na na naaaaaa”). O único problema é a preocupação com o divertido que acaba deixando a realidade de lado. No primeiro filme, Bridget era ridícula mesmo sendo real, não foi preciso exagerar. É como se este filme fosse a franquia Premonição, onde a cada filme novo eles precisam inventar estúpidas e surpreendentes mortes sangrentas. Isso é subestimar o público de Bridget. É subestimar a própria Bridget.

E realmente espero que no terceiro filme, a tradicional cena da luta seja na lama. Com Hugh Grant e Colin Firth nus. Não importa que eles estejam flácidos e gordos. Eu quero nudez. Só isso salvará.

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A autora deste texto é aficionada em Bridget Jones. Para mais provas, acesse este link por sua conta em risco.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Quero Matar Meu Chefe

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É engraçado pensar que, mesmo dentro de todos os estereótipos apresentados em Quero Matar Meu Chefe, é possível encontrar retratos da vida real. A história gira em torno das desventuras de Nick (Jason Bateman), Dale (Charlie Day) e Kurt (Jason Sudeikis) e de seus chefes insuportáveis. O chefe de Nick é um psicopata narcisista (Kevin Spacey), que obriga o seu empregado a trabalhar o dobro para ser promovido, mas não só não lhe promove como lhe dá uma fama de alcoólatra mentiroso.

Kurt, por outro lado, adora seu chefe (Donald Sutherland). Mas quando ele morre, seu filho viciado em cocaína (Colin Farrell) assume o cargo, ameaçando a empresa, os outros funcionários, Kurt e a vida de centenas de bolivianos.

Dale é assistente de uma dentista (Jennifer Aniston) que o assedia sexualmente e tenta lhe chantagear com fotos obsenas que ela tirou quando ele estava dopado. O problema de Dale pode parecer o mais fácil de lidar, especialmente quando olhamos para o estereótipo masculino presente em todas as comédias deste gênero. O que deixa a personagem verossímil é sua personalidade muito bem construída pelos roteiristas. O maior sonho de Dale é ser um bom marido e ele está apaixonado por sua noiva (Lindsay Sloane).

Os três amigos decidem acabar com seus problemas de uma vez por todas: como a economia não permite que eles se demitam, eles contratam um matador de aluguel, Dean Motherfucker Jones (Jamie Foxx). Quero Matar Meu Chefe é uma comédia divertida ao estilo Se Beber Não Case, sem se tornar apelativa de mais ou ofensiva. Os realizadores souberam dosar o mau gosto, o exagero e os clichês com momentos divertidos e até mesmo identificáveis.

Não passei sequer um minuto deste filme sem pensar em um dos meus ex-chefes, o maior psicopata que já conheci na vida. Essa pessoa, que não irei nomear, costumava se esconder atrás dos armários para espiar o que os funcionários estavam fazendo. Várias vezes eu ficava na sala de arrumar livros, trabalhando, e escutava ele se aproximando e parando perto da porta. Ele costumava se meter nos nossos assuntos, mexer nas nossas coisas, desarrumar o nosso trabalho e dizer que nós é que não estávamos fazendo direito. Deu um soco no meu computador porque ele não estava na “posição correta”. Leu um email pessoal meu para o meu namorado. O fim da picada (o que no filme leva as personagens a matar seus chefes e na vida real me levou a ter um surto psicótico e ficar duas semanas sem ir trabalhar) foi quando, depois de me fazer caminhar na chuva a tarde toda, ele roubou minha cadeira e fingiu que tinha sido o meu colega.

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O divertido neste filme não são necessariamente as piadas e sim tentar imaginar como aquele chefe horrível que todos nós já tivemos poderia se encaixar no meio de toda aquela loucura. E quem nunca se imaginou matando um chefe, que atire a primeira pedra.

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Horrible Bosses (2011)
Direção: Seth Gordon
Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley, Jonathan M. Goldstein
Elenco: Jason Bateman, Kevin Spacey, Charlie Day, Jennifer Aniston, Jason Sudeikis, Colin Farrell, Jamie Foxx, P.J. Byrne, Lindsay Sloane, Julie Bowen

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