sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mamãezinha Querida

mamaezinhaquerida

De tempos em tempos gosto de sair à caça de filme bizarros e, muitas vezes, incoerentes. Não é novidade para os leitores deste blog que gosto de filmes ruins. Não qualquer porcaria, como Avatar e Transformers, mas sim filmes que são tão ruins que acabam sendo divertidos. Ainda escreverei um livro sobre isso. Minha última “descoberta” foi Mamãezinha Querida, de Frank Perry.

Mommie Dearest Birthday

O que faz de uma história um ótimo filme ruim? Personagens bizarros... Roteiro cheio de buracos... Cenários extravagantes... Edição pobre... Atuações over the top... Um plot sem sentido... E, principalmente, o querer se levar a sério, mas não conseguir. É só pensar em filmes como Burlesque, que foi feito para ser uma homenagem aos musicais e uma volta triunfal para Cher. Ou O Massacre da Serra Elétrica - O Retorno, que era para ser a verdadeira continuação de O Massacre da Serra Elétrica. Ou The Rocky Horror Picture Show, que foi endereçado para o grande – e errado – público (em sua maioria homens brancos americanos e heterossexuais).

Assim como os filmes acima, Mamãezinha Querida se levou a sério de mais (menos Rocky Horror, que sempre foi para ser engraçado) e foi lançado em 1981 como uma chocante biografia de Christina Crawford, filha adotiva da atriz Joan Crawford. O filme é baseado em um livro de Christina, que acusa sua mãe de vários tipos de abuso e violência doméstica.

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Ninguém sabe ao certo se o livro de Christina fala a verdade ou se foi apenas uma tentativa da garota de ganhar dinheiro às custas do sucesso da mãe. Várias pessoas sustentaram a veracidade da narrativa (incluindo a atriz Bette Davis), ao mesmo tempo em que outras acusaram Christina de aumentar os fatos. Claro que a opinião de Bette Davis nesse assunto não conta muito, já que a rixa entre as duas atrizes é bem famosa. Quando Joan morreu, Bette disse “você não deve jamais dizer coisas ruins sobre os mortos, você deve apenas dizer coisas ótimas... Joan Crawford está morta. Ótimo”. Sem falar em coisas como “eu não mijaria nela nem se ela estivesse pegando fogo” ou “ela transou com todos os atores da MGM, com exceção da Lassie”. Mesmo assim... Eu confio mais em Bette.

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Bette: Fasten your seatbelts, it's going to be a bumpy movie!

De qualquer forma, o filme é uma versão light do livro (segunda a própria Christina) e foi a tentativa da atriz Faye Dunaway de ganhar um Oscar. A coitada só ganhou uma Framboesa de Ouro, mas essa é outra história. O filme foi um fracasso de bilheteria e acabou sendo adotado pelo público underground. Quando os produtores se deram conta de que o público ia para o cinema com embalagens de Ajax e cabides de arame, resolveram investir nesse aspecto do filme e o relançaram com o logo “Meet the biggest MOTHER of them all!”.

I'M EVIL!!!

I’m evil muahuahua!

Mamãezinha Querida é cheio de frases absurdas, cenários kitsch, atuações exageradas ou apáticas (nunca um meio termo) e uma edição tão pobre que tira qualquer sentido que o filme poderia ter. Em uma cena temos Joan feliz, ganhando um Oscar, na próxima temos ela atacando Christina, na próxima ninguém mais se lembra do que aconteceu e todo mundo age como se a vida fosse normal. Joan Crawford não ganha nenhum background que explique a loucura da personagem e é retratada apenas como um monstro terrível. Christina é interpretada quando criança pela mesma menina apática (Mara Hobel), não importa a idade que ela tenha. Vários aspectos da vida de Joan são ignorados (incluindo dois de seus quatro filhos) e nenhuma personagem é explorada de maneira correta.

A impressão que tenho é que foram gravadas milhares de cenas e que, na hora de editar, eles colocaram fogo sem querer na maioria delas e o editor disse “Putz... Coloca qualquer coisa, ninguém vai notar... Coloca em qualquer ordem...”.

O filme chega a ser deprimente especialmente se você tem uma família opressora ou uma mãe com problemas psicológicos (ou conhece alguém que tenha) e o fato de ser tão mau feito não ajuda em nada. E é agora que você me pergunta “Mas Paloma, se o filme é assim tão péssimo... O que te fez gostar dele?”. A resposta é muito simples: a atuação de Faye Dunaway.

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Você está sim, miss Dunaway! Não seja tão modesta!

A atriz que já esteve em clássicos como Bonnie e Clyde (1967) e Chinatown (1974), interpreta Joan Crawford no auge de sua loucura. Quando vejo Faye nesse filme tenho a impressão de que ela se deu conta da merda na qual tinha se metido e pensou “quer saber, se eles querem loucura, eu vou dar a eles loucura” e o resultado é uma Joan Crawford assustadora e levemente demoníaca. Acho que Faye está excelente no papel e fico triste em saber que ela foi duramente criticada por esse filme, chegando ao ponto de se negar a falar sobre ele em entrevistas. Mamãezinha Querida praticamente acabou com a carreira dela, que já não ia muito bem.

Sem título

A maioria dos pós-Mamãezinha vem com a pergunta “Sério? Que era ela no filme?”

Ela fez diversos filmes depois de Mamãezinha, mas nada muito genial ou muito conhecido. Se bem que devo ter assistido Supergirl umas quinhentas vezes na Sessão da Tarde! Acredito que sem Faye, Mamãezinha Querida não teria conseguido a fama que tem hoje em dia, mas também sinto que o que fez o filme subir, fez a pobre atriz descer, e isso me deixa triste. Uma das cenas mais famosas é quando Joan encontra um cabide de arame no armário de Christina e enlouquece, batendo na menina com o cabide e jogando todas as roupas do armário no chão. A cena é motivo de piada até hoje, mas acredito que é a melhor (e mais assustadora) atuação de Faye no filme.

 

Não consegui encontrar a cena completa, mas depois disso, Joan começa a gritar e bater na menina com o cabide. Depois, decide que o piso do banheiro está sujo e a obriga a limpá-lo. Segundo o site IMDb, Faye gritou tanto nessa cena que perdeu a voz e teve que pedir ajuda para o Frank Sinatra.

Entre as outras cenas que adoro neste filme estão A Sedução de Joan:

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Oh! I bet you do!

A cena Todos Nós Devemos nos Arrumar Para a Pepsi-Côuuula:

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A cena Mexeu Comigo, Mexeu Com a Joan Crawford:

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Você é Mimada Como eu te Mimei, o Que Faz Todo o Sentido do Mundo, Porque se eu Não Tivesse te Mimado Você Não Seria Mimada e Nós Não Estaríamos Aqui Tendo Essa Conversa:

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E por último a cena Isso é o Que Ela Disse:

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Mamãezinha Querida é um dos filmes mais camp, kitsch, queer, underrated ever e eu te desafio a achar palavras em português para descrevê-lo.

Mommie Dearest (1981)
Direção: Frank Perry
Roteiro: Robert Getchell, Tracy Hotchner, Frank Perry, Frank Yablans, baseado em um livro de Christina Crawford
Elenco: Faye Dunaway, Diana Scarwid, Steve Forrest, Howard Da Silva, Mara Hobel

4 comentários:

Pinu disse...

Pois eu acho o filme extravagante, cafona, canastrão e desprezado! HA! Quero meu brinde! xD

Overacting FTW! Tudo nesse filme é muito ruim e muito bom!

Paloma disse...

Hahahah Eu pensei em traduzir, mas achei que não faria jus ao filme! Não existe palavra melhor do que kitsch!

Paloma disse...

E teu brinde é esse texto, ora!

Juliano Moreira disse...

Ai, bebê! Tá ainda melhor escrito! \o\
Tem mais um pro livro. hehehe

Esse filme é do expressionismo porque representa o meio pra decadência da Dunaway!

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