quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Burlesque

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Quando eu tinha 14 anos, passei por uma fase Renée Zellweger fortíssima, com direito a álbum de fotos e notícias, pôster na parede e filmes na prateleira. Na época ainda era difícil conseguir filmes mais antigos e desconhecidos, por isso eu contava totalmente com a boa vontade de locadoras de bairro. Um dia, fui a uma loja de R$1,99 e encontrei para vender o VHS de O Massacre da Serra Elétrica - O Retorno (94), um dos primeiros trabalhos da atriz.

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É o pior filme que já vi. Tudo nele está errado. Os personagens, os cenários, a história... Tudo.  Mesmo assim, esse é um dos meus favoritos e o filme que me levou a escrever sobre cinema. Também é o filme que deu a Renée a carreira que ela tem hoje.

11406127_galNa época que o Matthew McConaughey usava roupa 

O que me faz gostar tanto dele é que, apesar de mal feito, é divertido. Os erros são tantos que não tem como não achar engraçado. Dou gargalhadas cada vez que o Leatherface, que aqui parece mais uma tia velha do que um assassino, surge em cena. Quase morro quando Renée, para fugir da serra elétrica, sobe em uma antena (!!!) e cai do outro lado, usando uma roupa completamente diferente.

11399170_gal“Ahh! Tire esta máscara de plástico do meu rosto!”

O que senti após olhar Burlesque foi o mesmo que senti quando olhei O Massacre da Serra Elétrica - O Retorno. Assisti ao filme com uma amiga e passamos todos os 119 minutos intercalando risos com gargalhadas. Peço desculpas a ela se por acaso roubar alguma piada aqui, mas já não sei mais o que fui eu, o que foi ela e o que foi o filme. Tudo se tornou uma coisa só. Tudo pelo amor à Burlesque.

Burlesque conta a história de Ali (Christina Aguilera), uma garota pobre e órfã de Iowa, que sonha em ser dançarina profissional. Ela vai para Los Angeles em busca de seu sonho e encontra o Burlesque, uma casa noturna glamorosa e extremamente irreal. A dona do Burlesque é Tess (Cher), mulher que nunca escuta nada que ninguém fala e quando escuta pela vigésima vez, finge que é uma grande novidade. Tess se nega a dar um emprego à Ali, mas esta trabalha lá mesmo assim. Tess é o tipo de mulher que se faz de durona (talvez pelo fato de não conseguir mais movimentar os músculos do rosto), mas nós sabemos que ela dará uma chance à Ali.

Burlesque-movie-best-movies-ever-cher Ou talvez ela apenas jogue Ali embaixo de um trem

“Nós sabemos” poderia ser a frase do pôster desse filme. Nós sabemos que Ali irá sair de casa; nós sabemos que Tess dará uma chance; nós sabemos que Jack (Cam Gigandet), o bartender “gay”, irá se apaixonar por Ali; nós sabemos que ele não é gay; nós sabemos que no fim Tess irá conseguir dinheiro para salvar o Burlesque das mãos de Marcus (Eric Dane); nós sabemos que Marcus é mal. E nós sabemos que metade desse elenco não deveria estar nesse filme.

Fui ao cinema sabendo que Burlesque seria péssimo, mas tive dois motivos para querer vê-lo mesmo assim. O primeiro é que adoro a Cher. Culpo a sessão da tarde por isso. Cher sempre foi meu Transformer travesti favorito e vê-la novamente em cena, cantando, me deixou feliz. Cher só canta duas músicas em todo o filme.

145215__cher_lTalvez Jack devesse ajudar! 

O outro motivo é que amo musicais. O que é excelente, já que Burlesque copia descaradamente todos os musicais possíveis. A cena da luz vindo da porta e a garota com super poderes da dança escondidos de Flashdance? Está lá. O treinamento de dança no meio da rua de Dirty Dance? Óbvio. O estilo de Chicago (com metralhadora de plástico e tudo)? Muito bem. O drama de Showgirls? They got AIDS and shit. O número musical de Os Homens Preferem as Loiras, ao estilo Moulin Rouge? Correto. O jornal na cabeça de The Rocky Horror Picture Show? Também está lá. Mas o musical que esse filme mais copia é Cabaret. Não sei dizer exatamente porque, mas vejo elementos do filme o tempo todo, até mesmo quando não são tão óbvios.

Burlesque_Movie_stills_19 Se eles parassem de dançar com cadeiras o tempo todo eu conseguiria pensar o que é que tem de tão parecido com Cabaret…

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Não me incomodaria em nada um filme que homenageasse outros musicais, mas não é o caso. Aquilo que nos é apresentado não é uma homenagem. É uma tentativa frustrada de fazer novamente algo que deu certo, mas errando por todo o caminho. É como se eu fizesse um remake de E o Vento Levou..., com o Shia LaBeouf e a Miley Cyrus nos papéis principais, com um roteiro escrito por macacos.

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Mas não é só de plágio mal feito que se faz um musical ruim. Temos Eric Dane, Alan Cumming, Kristen Bell, Stanley Tucci e a Cher (!!!) e o filme se foca completamente na Christina Aguilera. Isso não deveria ser permitido nem nos anos 90. Tudo bem que ela seja a personagem principal, mas isso não justifica dar três palavras soltas para Alan Cumming em todo o roteiro, não deixar nem ele nem a Kristen Bell cantar, transformar o Stanley Tucci num garanhão italiano, deixar o Eric Dane de roupa e fazer a plateia esquecer que a Cher está no filme.

Burlesque-Movie-Trailer-2-Official-HD Porque se é pra olhar por duas horas para uma mulher com apenas uma expressão facial e peruca, prefiro que seja a Cher

Os números musicais são tão insignificantes que apenas um não é interrompido por diálogos sem importância sobre como Ali sonha em ser dançarina ou como Jack a ama, apesar de ser noivo da Quinn (Dianna Agron) do Glee.

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E aí temos os personagens sem contexto, que são o que são apenas por ser. O personagem de Eric Dane, Marcus, quer comprar o Burlesque e destruí-lo para que um prédio gigantesco seja construído no local. Isso faz dele um homem mal e desprezível. Só que tudo indica que o Burlesque é um lugar relativamente novo e que, com o os US$2 milhões que ele está disposto a pagar, Tess pode muito bem comprar um clube novo e tentar se restabelecer financeiramente.

Nikki, vivida por Kristen Bell, é ruim e invejosa, mas nós sabemos que ela irá se redimir no final do filme. Acontece que ela nunca faz nada de errado. Todos pegam no pé dela o tempo todo e quando Ali chega ao Burlesque, diz para Nikki que ela se parece com um travesti. O que não faz sentido, porque ela é a única mulher com cara de mulher em todo o clube! Tess tira o número musical de Nikki e dá para Ali. Ali rouba o namorado de Nikki, Marcus. Por fim, a “vilã” é demitida porque também quer ter a chance de cantar ao vivo. Deus, ela é tão desprezível que eu sinto vontade de vomitar.

meanBitch!

Sean (Stanley Tucci) parece ser apaixonado por Tess, mas ele é uma parada gay ambulante. Eu só sei que o nome do personagem do Alan Cumming é Alexis porque olhei no IMDb. E Coco (Chelsea Traille) é mencionada o filme inteiro, mas nunca aparece em cena. A câmera chega a se afastar de seu rosto quando a personagem vai falar alguma coisa.

Mas a pior parte são os números musicais. Vejam bem, no Burlesque, o clube, ninguém realmente canta. As dançarinas dublam musicas famosas, enquanto fazem piruetas pelo palco. A única que canta de verdade é Tess. Isso não impede que os microfones fiquem ligados e que tenha uma banda lá. Talvez a banda seja paga para esperar a única apresentação de Tess. Ou então eles estão tocando air band.

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Só que ninguém informa que as músicas são dubladas até metade do filme. Isso não seria um problema se as músicas que deveriam ser ao vivo (as que Tess e Ali cantam) não fossem tão horrivelmente porcamente pavorosamente dubladas também! Não tem diferença alguma entre um número e outro. Então para que colocar atores que cantam bem, dublando a voz de outras pessoas?

meanAposto que tudo culpa da Nikki… Bitch! 

A única música que não é assim e, por coincidência ou não, a única realmente boa, é You Haven't Seen the Last of Me, interpretada por Cher, que realmente a cantou ao vivo. O interessante é que sua letra fala sobre como Cher foi obrigada e empurrada ao seu limite, mas que ela irá suportar até o fim. Isso criou teorias sobre como ela estava sentada no set de filmagens, pensando o que diabos estava fazendo ali, se realmente valia a pena participar desse filme e então resolveu cantar para liberar seus demônios. Steve Antin, o visionário que criou essa obra prima, estava passando e resolveu gravar o que via. Nunca, em toda a história do cinema, se viu uma música que relatasse tão bem os dilemas de seu interprete. O legal é que ela não tem nada a ver com o resto do filme.

Tudo em Burlesque é horrível. Não um horrível horroroso ao estilo Crepúsculo ou Avatar, mas um horrível engraçado. É divertido procurar falhas nele, especialmente as menos berrantes, como Ali ter um cartão postal do prédio furreco onde ela mora e ter se preparado para mandar para alguém e desistido, apesar de ser improvável que exista um cartão postal do prédio dela e de ter ficado bem claro que ela não tem ninguém para enviar tal cartão. Ou como Kirsten Bell passa todo o filme fazendo cara de má, sendo que ela é “mais doce que um pudim de Shirley Temple”. Ou como a música que toca quando Ali está imitando Dirty Dance e que também toca nos créditos finais tem a mesma melodia de The Beautiful People, do Marilyn Manson. Ou como Ali rouba dinheiro do antigo emprego dela e nunca mais ninguém menciona isso.

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Mal posso esperar para assistir Burlesque de novo, comprar o DVD e obrigar todo mundo a assistir. Ele serve tanto de diversão para dias chuvosos como para castigo ou vingança.

Burlesque (2010)
Direção: Steve Antin
Roteiro: Steve Antin
Elenco: Cher, Christina Aguilera, Alan Cumming, Eric Dane, Cam Gigandet, Peter Gallagher, Kristen Bell, Stanley Tucci

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