sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Complexo de Bridget Jones

Certo dia, uma amiga me disse que ela era a Bridget Jones sem o Mark Darcy. Na hora, respondi algo engraçado, uma maneira fácil de escapar de uma dura realidade. Realidade essa que há muito tempo luto contra: TODAS NÓS SOMOS UMA BRIDGET JONES SEM UM MARK DARCY.

BridgetJonesColin Firth e Renée Zellweger, em Bridget Jones: No Limite da Razão

Isso porque homens como Mark não existem. Mark é perfeito. Ele é confiável, fiel, companheiro. Ele nunca te deixa na mão, ele te defende, te respeita e nunca te abandona. Ele sorri com os olhos, usa roupas ridículas só para não magoar a mãe e te acha gostosa, mesmo que você esteja levemente acima do peso. Ele abandonaria a vida dele por você. E, mesmo depois que você ofende todos os amigos dele e age como uma doida, ele ainda assim aparece na porta da sua casa para dizer que te ama. Não, não apenas te ama. Ele te ama do jeito como você é.

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Para completar, existem dois Darcys: o Darcy do século XIX ou o do século XXI. Você escolhe.

Darcy

Mark Darcy não existe. Já Bridget Jones sim, e aos montes! Isso porque, ao contrário dele, ela é imperfeita. Bridget não é muito esperta, nem muito bonita, nem muito gostosa, nem muito magra. Ela é normal.

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O Diário de Bridget Jones é um dos meus filmes favoritos e o vi pela primeira vez quando tinha 14 anos e nenhuma perspectiva de vida amorosa. Ao ver Bridget sentada de pijama, chorando e cantando All By Myself, cheguei a conclusão de que aquela era eu. Não importava os quase vinte anos de diferença entre nós duas.

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Obviamente, se eu era Bridget, eu teria que encontrar meu Mark e então tudo ficaria bem. Minha vida finalmente entraria nos eixos, nada mais de sofrer por causa de homens, nada mais de passar o dia dos namorados sozinha, nada mais de pagar o ingresso do cinema. Minha vida, assim como Mark, seria perfeita. Como toda boa história de terror, as coisas começaram a dar errado no momento em que fiquei sozinha em casa, ou melhor, sozinha com meus pensamentos. E as coisas só ficam piores à medida que você cresce e começa a finalmente se relacionar com o sexo oposto (ou o mesmo, dependendo de sua orientação sexual). E é então que você se dá conta, ou pelo menos deveria, de que sua vida está arruinada para sempre. Porque nenhum homem será o seu Mark Darcy!

“Um humano, ser humano, pessoa, gente ou homem é um animal membro da espécie de primata bípede Homo sapiens, pertencente ao gênero Homo, família Hominidae (taxonomicamente Homo sapiens - latim: ‘homem sábio’). Os membros dessa espécie têm um cérebro altamente desenvolvido, com inúmeras capacidades como o raciocínio abstrato, a linguagem, a introspecção e a resolução de problemas”. [Wikipédia]

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O macho, assim com a fêmea, possui deficiências, pois ninguém é perfeito. Por tanto, é de se esperar que os adultos desta espécie ensinem seus filhotes a se protegerem contra essas deficiências, ensinando desde cedo para eles a respeito destas. Mas isso não acontece.

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Nós, meninas, crescemos lendo sobre o príncipe encantado que salva a moça indefesa da torre, o jovem corajoso e belo que nos ama e nos protege. Ao envelhecermos, os contos de fadas são gradualmente substituídos por comédias românticas. Os príncipes são substituídos por homens maduros, bonitos, ricos (ou não, na verdade), sensíveis e que vão te amar para sempre. Nas comédias românticas, quando um homem trai, ele jamais será O HOMEM. Se ele te magoa de maneira terrível ou te humilha, ele também não será O HOMEM.

Vejam Alguém Como Você, por exemplo. O filme dirigido por Tony Goldwyn fala sobre Jane (Ashley Judd), que acredita em amor verdadeiro. Ela conhece Ray (Greg Kinnear), um homem charmoso e sensível, que parece amá-la bastante. Mas Ray tem uma namorada e acaba terminando com Jane por causa disso. Ray traiu, magoou e humilhou. Pergunto: ele é O HOMEM?

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Não. Jane, abandonada, vai morar com um amigo, Eddie (Hugh Jackman), que é o homem mais galinha da cidade. Ela acaba descobrindo que Eddie tinha uma namorada, por quem era imensamente apaixonado e que quebrou o coração dele. Ao lado de Eddie, Jane pode ser ela mesma. Eddie entende Jane. Eddie ajuda Jane. Mim Eddie, tu Jane. Pergunto: ele é O HOMEM? Você realmente precisa que eu responda?

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Coloco a culpa disso tudo em Jane Austen, aquela traíra que ficou enchendo a cabeça de nossas ancestrais com esses orgulhos, sensibilidades e persuasões da vida. Jane praticamente criou o gênero “comédia romântica” com seus livros.  O mais incrível é que Jane nunca foi casada.

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Se você é homem e está lendo isso sem entender muito bem do que estou falando (não querendo generalizar, mas já generalizando), pense o seguinte: comédias românticas são os filmes pornôs das mulheres. Meninos assistem filmes pornôs e, sem nem ao menos terem visto uma mulher nua ao vivo (a própria mãe não conta), acham que aquilo ali é sexo. Meninas, que nunca foram cortejadas (o próprio pai não conta... nesse caso, é melhor chamar a polícia), olham os romances e acham que aquilo é amor. Enquanto os meninos passam sua puberdade se preparando para o dia que transarão enlouquecidamente com uma loira de peitos e orgasmos falsos, as meninas se preparam para quando serão amadas intensamente por um homem falso.

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“Mas nem tudo está perdido!”, alguém grita na multidão. “E o que você me diz de Leopold???” Em Kate & Leopold, de James Mangold, Kate (Meg Ryan) é uma nova-iorquina que só pensa em trabalho e Leopold (Hugh Jackman) é um duque do século XIX. Quando o ex de Kate descobre um portal do tempo que o leva para a época de Leopold, o duque o segue para o século XXI e acaba se apaixonando por Kate. Mas (e nessas histórias sempre existe um “mas”) Leopold precisa voltar para seu próprio tempo, pois ele ainda tem que inventar o elevador e todos nós sabemos como isso é mais importante do que o amor. Jane vai com ele para o século XIX, porque ela nunca se importou de passar mais de um dia sem tomar banho ou abrir os emails.

Leopold também é perfeito. Ele é respeitoso, faz café da manhã como se estivesse fazendo a coisa mais importante da sua vida, é lindamente ingênuo, é sincero, é integro, é um duque e é lindo de morrer. De todos os homens de comédias românticas que já existiriam, esse é, com certeza, o mais maravilhoso.

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E Leopold existe! O Príncipe Leopold, Duque de Albany, nasceu em 1853 e era príncipe de Saxe-Coburgo-Gota, antigo ducado semi-independente da Alemanha situado no atual estado de Turíngia. Leopold nunca inventou o elevador, quem fez isso foram os egípcios e quem aperfeiçoou foi Elisha Otis. Mas ele era patrono das artes e da literatura, o que eu acho muito genial! Quando Leopold resolveu se casar, uma de suas pretendentes foi Alice Liddell, para quem Lewis Carroll escreveu Alice no País das Maravilhas. Ele acabou se casando com a Princesa Helena Frederica de Waldeck, por sugestão da Rainha Victoria, mãe de Leopold.

“Viu? Existem homens perfeitos! Se Leopold existiu, então Mark também pode existir!”

Acontece que o Leopold e sua versão cinematográfica não poderiam ser mais diferentes. Príncipe Leopold foi diagnosticado com hemofilia (doença genética hereditária que incapacita o corpo de controlar sangramentos) e morreu aos 30 anos. Apesar de ele ser retratado como um homem corajoso e destemido no filme, na realidade ele não poderia se dar ao luxo de cavalgar atrás de um assaltante no meio do Central Park apenas para resgatar uma bolsa. Sua doença jamais permitiria que ele fizesse algo tão destemido (e meio burro). O Leopold de verdade era um homem muito doente (ele quis seguir carreira militar, mas não teve condições) e até mesmo sua mãe ficou surpresa com o fato de que ele viveu por tanto tempo, a ponto de se casar e ter dois filhos. Além disso, a rainha nunca falava em inglês com seus filhos, e sim em alemão, e quando eles falavam em inglês, era com um forte sotaque, nem um pouco sedutor.

Mas, como diria Roger Ebert, “na próxima vez que eu encontrar James Mangold, eu irei perguntar a ele porque não fez de Kate & Leopold a história de um hemofílico com um sotaque alemão e que tem medo de se jogar de pontes. Parece exatamente o tipo de filmes que nós todos queremos assistir”.

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Então, se esses homens que nós crescemos amando não existem, o que acontece conosco? Nada. Nós seguimos nossas vidas, fazendo o melhor possível para que esse mundo se torne algo decente para que as gerações futuras possam sobreviver. E rezamos para que nossas bisnetas consigam se encontrar com um Mark ou um Leopold que as façam feliz.

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Não conseguimos a perfeição, não agora. Nem nós, nem eles. Por isso, o melhor que podemos fazer é aprender a conviver com os defeitos uns dois outros. Talvez você não encontre o homem perfeito, mas realmente espero que ache um cara que te abrace quando você começar a chorar por causa de uma barata e que te traga um copo de água quando você sentir sede.

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O importante não é a perfeição. É o companheirismo e o amor.

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