sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Fear, Anxiety and Depression

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Medo, ansiedade e depressão. Três palavras que dizem exatamente o que esperar de um filme de Todd Solondz. São também palavras excelentes para descrever o que eu sinto constantemente. Gosto dos trabalhos de Solondz porque eles descrevem muito bem a infelicidade e incapacidade que sinto. Sei que tenho potencial e sei que não posso usá-lo ao máximo, pois o mundo no qual vivemos não me permite isso.

Fear, Anxiety and Depression é o primeiro trabalho como diretor de Solondz e fala exatamente sobre isso: como a nossa sociedade nos oprime e não temos culpa alguma se tudo sempre dá errado em nossas vidas.

Solondz interpreta Ira Ellis, um roteirista de teatro que nunca consegue ser bem sucedido em nada, por mais que tente. Na cena inicial, encontramos Ira em um trabalho diurno enfadonho, onde seu chefe grita com ele e o agride verbalmente. Ira precisa estacionar um caminhão e levar um vidro para dentro de um prédio. Ele não consegue. Ira nunca consegue.

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O filme me lembrou bastante os primeiros trabalhos de Woody Allen, como Annie Hall (1975) e A Rosa Púrpura do Cairo (1985), e me fez pensar se talvez Allen tenha inspirado Solondz de alguma maneira no início de sua carreira. Até mesmo a caracterização de Ira, o modo de se vestir e de falar lembra Alvy Singer de Annie Hall. Mas ao contrário de Alvy, Ira não fica neurótico com as coisas que acontecem a sua volta, ele parece aceitar o fato de que é um perdedor e pronto.

Ira se apaixona por uma artista performática chamada Junk (Jane Hamper), que não aparenta ter nenhum sentimento além de raiva – proferindo a palavra “Fuck” em praticamente todas as suas frases. Os amigos de Ira, Jack (Max Cantor) e Janice (Alexandra Gersten), falam mal dele pelas costas. Seus pais, o acham incapaz. Seu público (se é que ele tem um público), não consegue entender sua arte. Os críticos massacram seu trabalho. A única pessoa que parece entender Ira é Sharon (Jill Wisoff), uma espécie de groupie que o admira e ama, mas que não recebe de volta os mesmos sentimentos.

Ela seria capaz de seguir Ira até o fim do mundo, se assim ele quisesse. Mas ele não quer. Ele quer Junk, que o trata como o nome dela mesmo diz (“junk” significa “lixo” em inglês). Ira vai atrás daquela que ele sabe que não lhe trará felicidade, talvez por estar acostumado a sofrer. Mais uma vez, recordo Annie Hall e seus inúmeros flashbacks que narram a vida amorosa passada de Alvy.

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Fear, Anxiety and Depression não possui a mesma qualidade técnica dos filmes mais atuais de Solondz, mas já deixa claro o talento para o cinema que o diretor possuí. A trilha sonora também chama atenção, mesmo que bastante simples, trazendo desde Wagner até músicas escritas pelo próprio diretor e cantada pelos personagens, dando um toque de humor às cenas. Depois de encontrar Junk, Ira decide terminar seu relacionamento com Sharon. É então que a trilha sonora sobe e ouvimos a música Ira, I love you, cantada de maneira desafinada por Jill Wisoff. Sabemos que para Ira, estar com Sharon é um sofrimento, e mesmo assim nos pegamos rindo deste martírio.

Existem várias cenas nesse filme que são incríveis e que mostram perfeitamente como as pessoas são superficiais e focadas apenas nelas mesmas. Em um momento, Ira e Sharon estão conversando, quando ela confessa que foi molestada quando criança. Ira não parece perceber e segue filosofando sobre a própria vida. Ao fundo, Sharon é atacada por alguns homens que tentam estuprá-la.

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Em outro momento, Ira faz de tudo para agradar Junk, que nem parece notar sua presença. Em off, ouvimos Ira cantar A Neat Kind Of Guy (também escrita pelo diretor), enquanto Junk usa uma roupa que não poderia deixar seus sentimentos mais claros:

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Ira não aceita a realidade: “You're gonna love me for the rest of your days. I can see in your eyes, I can see in your face”

Em Fear, Anxiety and Depression, ninguém consegue atingir a sonhada felicidade porque estão tão acostumados à decepção, que não veem que o que querem está bem diante de seus olhos. Roger Ebert (desculpem-me por trazê-lo a tona novamente, não consigo evitar) chamou os trabalhos de Solondz de filmes “in-your-face”, pois como eu já havia dito, ele não tem vergonha de jogar na cara da plateia toda verdade. Solondz tenta ser o mais verdadeiro possível e depois de assistir a um de seus filmes, é praticamente impossível não ficar abalado.

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Fear, Anxiety & Depression (1989)
Direção: Todd Solondz
Roteiro: Todd Solondz
Elenco: Todd Solondz, Jane Hamper, Max Cantor, Alexandra Gersten, Jill Wisoff, Stanley Tucci

2 comentários:

Juliano Moreira disse...

Nada como um filhote de Woody Allen pra comemorar com o depressivo dezembro. =D

Pinu disse...

Suicídio coletivo! \o/

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