segunda-feira, 22 de novembro de 2010

José e Pilar

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Não tenho o costume de assistir documentários, não por não gostar do gênero, mas porque raramente encontro algum que fale de algo do meu interesse. Este semestre estou fazendo uma cadeira de documentário na faculdade e me deparei com um dilema: como fazer um documentário bom de assistir, leve, divertido e que interesse as pessoas? Meus colegas fizeram sobre temas polêmicos ou sensacionalistas. Eu fiz sobre amor.

E é sobre isso que José e Pilar, o documentário sobre o autor José Saramago e sua esposa Pilar Del Rio, trata. O filme acompanha Saramago durante todo o processo de criação do livro A Viagem do Elefante, desde a ideia inicial até a sua publicação. Mas a formação do livro serve apenas de base para mostrar o amor destes dois personagens.

Os dois se conheceram em 1986, quando a jornalista Pilar, após ler Memorial do Convento, decidiu ir até Lisboa conhecer o autor. Na época, ela tinha 36 anos e ele 63. Dois anos depois, se casaram e permaneceram juntos até a morte de Saramago, em junho de 2010.

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O filme retrata a vida dos dois, as viagens incessantes de um lado do mundo a outro, as infinitas sessões de autógrafos, o corre-corre entre mil eventos. O que mais me atraiu neste documentário foi a veracidade com que os dois são mostrados. Não senti a presença da câmera em nenhum momento (exceto quando o próprio Saramago, já cansado de tanta loucura, parece se dar conta de que ela está ali) e tive a impressão de que eu mesma estava lá, junto com eles, correndo de uma sessão de autógrafos para uma inauguração de biblioteca, de uma festa a uma entrevista, da Espanha para o Brasil para os EUA para Portugal...

A outra coisa que me fez amar foi, bem, o próprio amor. O amor devoto de Saramago por Pilar,demonstrado tantas vezes nas páginas de seus livros (em As Pequenas Memórias, o autor agradece “a Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”, uma das dedicatórias mais belas do autor), entra em uma espécie de confronto com o carinho e a dedicação da esposa, fazendo dos dois um dos casais mais belos de nossa história.

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O que faz desse amor algo tão belo, é a sua crueza, sua realidade. Eles não são personagens de um filme de romance, sem falhas, perfeitos. Não. Eles são de carne e osso, tem problemas, aflições, conflitos... Mas isso não impede que se amem. Ao se sentir perdido, em um mar de jornalistas (a quem adoraria matar, como ele mesmo disse), Saramago evoca o nome da esposa como se evocasse a seu deus “Pilar... Pilar...”.

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Uma cena que me comoveu bastante, chegando a me fazer chorar, foi quando Saramago assistiu pela primeira vez a versão cinematográfica de Ensaio Sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles. O diretor, emocionado pela presença do autor. O autor, emocionado pelo carinho que o diretor teve ao adaptar aquela que se tornou uma de suas obras mais famosas. Cheio de lágrimas nos olhos, Saramago diz que aquele é um dos momentos mais felizes de sua vida e que está contente de ter vivido para ver o filme.

Se eu pudesse fazer um documentário como esse, que fizesse rir e chorar, e que marcasse aqueles que o assistem, sem se tornar sensacionalista, o faria com todo o orgulho. Saramago, que tinha fama de durão, aqui é mostrado como um homem sensível e amável, mas ao mesmo tempo rabugento. E Pilar, como seu próprio nome diz, é o que sustentava esse homem.

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José e Pilar (2010)
Direção: Miguel Gonçalves Mendes
Edição: Cláudia Rita Oliveira
Elenco: José Saramago, Pilar Del Rio, Fernando Meirelles, Gael García Bernal

4 comentários:

Pri Zorzi disse...

Tu gostou bastante, pelo jeito :)

Que linda mesmo essa dedicatória! Eu não conheço tanto deles pra saber se o documentário seria fiel ao que eles foram na vida real, mas sempre acho que se existir uma forma maligna, polêmica ou sensacionalista de retratar uma pessoa e uma forma bonita e sensível, vale sempre optar por essa última.

Paloma disse...

O filme é lindo! E duvido que não seja real, porque mostrava eles brigando também. E não parecia um documentário... A impressão que eu tive era a de estar sentada na sala deles, junto.

Juliano Moreira disse...

Quero muito ver! Deve ser empolgante conhecer um pouco em ganhador do Nobel. =D
E o único português.


E ainda mais contigo falando tão bem do documentário.

Deve ser estranho estar numa posição social que permita negar um convite de se encontrar com o Dalai Lama.

@danimascolo disse...

Louca prá assistir! Vi o anúncio deste no "Como Esquecer". :)
Valeu Loma!

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