sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Inacreditável Circo Chileno dos Super Mineiros Malabaristas do Dr. Midiático

Novecentas e trinta e uma notícias nos últimos trinta dias. Isso dá, em média, trinta e uma notícias e meia por dia. Esse foi o número de matérias capturadas nos principais meios de comunicação brasileiros a respeito do resgate dos mineiros chilenos. Presos a seiscentos e vinte e dois metros de profundidade desde o dia 05 de agosto deste ano, os trinta e três mineiros foram resgatados após 23h de trabalho.

O fato gerou uma profusão de reportagens de todos os tipos e gêneros. A Folha Online criou uma página especial no site, com dados do resgate e perfil de cada um dos mineiros. A Discovery Chanel realizou um documentário a respeito, Enterrados Vivos, que deve passar ainda hoje (28/10) no canal. O resgate, que ganhou ares de evento glamouroso, foi um dos momentos mais acompanhados de todos os tempos na internet, tendo mais de 5,3 milhões de espectadores. Comoções nas redes socias, matérias jornalísticas dramáticas e até mesmo rumores de um possível filme. Esses mineiros tiveram direito a tudo. Menos a luz solar e água em abundância.

A vida de trinta e três pessoas (sem contar seus familiares) transformada em um verdadeiro circo.

Com certeza foi a internet, devido a sua rapidez, que melhor cobriu o acontecimento. As matérias não se mantiveram apenas nos editorias internacionais, dando um ar onipresente ao fato: todos, em todos os lugares, falaram sobre o assunto. Uma das matérias mais absurdas a respeito foi, com certeza, a postada no site Ego, da Globo, no dia 18 de outubro:

Raio X de estilo: Os mineiros do Chile estão ligados na moda ou a moda neles?

Macacão, tendência safári, sapatos estilo clogs, cores neon e óculos descolados. As tendências já estão nas passarelas e nas ruas.

Os mineiros resgatados semana passada no Chile viraram assunto no mundo todo. Inclusive quando se fala de moda... Os uniformes e assessórios dos trabalhadores - cores, tecidos e modelos - já há algum tempo vêm aparecendo nas passarelas internacionais.

A moda cáqui ganha força total neste verão, disputando os holofotes com a febre neon. Macacões devem vir com tudo e até os óculos escuros usados pelos mineiros para voltar à superfície podem virar moda...

O EGO propõe uma brincadeira fashion, com raio-X do estilo ‘mineiro do Chile’, versus o que já se usa por aí. Confira!”

O resgate teve uma enorme importância, com certeza, mas são matérias como essas que acabam por ridicularizar a vida humana, nos transformando em meros animais de zoológico. Mostra que, quando uma história é narrada incessantemente, acaba se tornando enfadonha e até mesmo ridícula.

O que será que é mais importante: a futilidade da calça cáqui que poderemos usar com “força total” no verão ou a vida destes trinta e três sobreviventes?

O problema não é a mídia agendar algo. Muito pelo contrário. Muitas vezes é através deste agendamento que pessoas que normalmente não têm acesso a mais de uma mídia podem se atualizar dos acontecimentos globais. Não, esse não é o problema. O problema é falar a mesma coisa todos os dias, todas as horas e banalizar a vida alheia. A mídia trata as notícias como uma criança trata uma piada engraçada. Ela narra de mil formas diferentes, a mesma histórias, até os seus ouvidos sangrarem.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Comer Rezar Amar

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Comer Rezar Amar é mais novo filme do diretor Ryan Murphy, conhecido por Correndo com Tesouras e pela série Glee. Baseado no best-seller autobiográfico de Elizabeth Gilbert (Julia Roberts), conta a história de uma mulher que se vê em uma vida insatisfatória e resolve embarcar em uma viagem de autodescobrimento pela Itália, Índia e Indonésia.

Além de Julia (que ganhou Oscar em 2000, por Erin Brockovich), o elenco também conta com a participação de Billy Crudup, como o marido abandonado; Javier Bardem, outro divorciado à procura de refugio; e Hadi Subiyanto, um sábio indonésio que a ajuda a se descobrir.

O livro de Gilbert ficou 150 semanas consecutivas na lista de livros mais vendidos do New York Times e, segundo o jornal, é carregado de “uma mistura de inteligência, sabedoria e exuberância coloquial que é quase irresistível, fazendo o leitor sentir-se feliz de escutá-la, como se fosse um amigo”.

Confesso que o livro está na minha prateleira há quase um ano e ainda não li. Mesmo assim, consigo notar que ele não foi muito bem adaptado e os problemas de Gilbert acabam parecendo muito mais superficiais do que realmente devem ser. É Julia quem salva isso, e é incrível como ela ainda me agrada mesmo interpretando a mesma personagem desde 1987.

O filme é agradável de ver, bonito e consegui me identificar muitas vezes com a personagem (menos na parte de resolver os problemas indo comer na Itália... geralmente eu resolvo os meus problemas vomitando). O único problema é o número enorme de estereótipos apresentados, questão que fica muito mais fácil de identificar já que o personagem de Javier Bardem (espanhol) é brasileiro. O filme causou tumulto com os italianos por causa disso, já que eles são mostrados como pessoas gritonas, que falam gesticulando e se entopem de comida e sexo o tempo todo.

Felipe, o personagem brasileiro, tem sotaque espanhol, beija o filho na boca, é romântico, escuta Bossa Nova e chora por qualquer coisa. Já a mulher brasileira é mostrada como uma mulher seminua que faz amizade fácil... Bem, tem várias palavras brasileiras para isso.

Mas, como eu disse, esse é o único problema grave do filme. O segredo é não levá-lo muito a sério e se divertir.

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Eat Pray Love (2010)
Direção: Ryan Murphy
Roteiro: Ryan Murphy e Jennifer Salt, baseado em um livro de Elizabeth Gilbert
Elenco: Julia Roberts, Billy Crudup, Javier Bardem, Hadi Subiyanto, Viola Davis, James Franco, Richard Jenkins

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Como Esquecer

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Fui para o cinema sem ter absolutamente nenhuma ideia do que iria assistir. Quando vi o trailer, tentei ignorá-lo por completo já que, ultimamente, todos os trailers contam os filmes do começo ao fim, possivelmente subestimando a inteligência de sua plateia. Sabia que o filme tinha a Ana Paula Arósio e o Murilo Rosa. Sabia que ambos interpretavam homossexuais. E sabia que vou com a cara dos dois. Mas é provável que ele passasse batido por mim (nem ao menos sabia que estava em cartaz), se não fosse pela indicação – ou devo dizer “intimação” – de uma amiga.

Como Esquecer é exatamente o que o título diz: uma história sobre como esquecer algo que nos tormenta ao ponto da loucura. No caso do filme, é o amor. Mas acredito que isso possa ser usado em muitas outras coisas da vida. Eu, assim como a personagem Júlia (Ana Paula Arósio), tenho muita dificuldade de esquecer aquilo que me machucou um dia. Cada pessoa lida com esse tipo de sentimento da sua própria maneira. Alguns bebem para esquecer, outros choram até dormir, outros fingem não lembrar, e outros não conseguem parar de pensar a respeito.

O roteiro é baseado no livro de Myriam Campello, Como Esquecer - Anotações Quase Inglesas, e é um retrato fiel deste sentimento de vazio na alma e acaba por causar dor no próprio espectador, que sofre junto com os personagens e que pode até se identificar com alguns deles. Murilo Rosa está muito bem como o amigo de Júlia, Hugo, que perdeu seu parceiro há um ano.

Natália Lage interpreta Lisa, que foi abandonada por seu namorado quando descobriu que estava grávida. Mas com certeza é Ana quem se destaca, como uma atuação sensível e ao mesmo tempo antipática. É impossível não amar e odiar Júlia. Ela está em depressão desde que Antônia a deixou. Sua maneira de lidar com isso é se fechar dentro de um casulo impenetrável. Para ela, a vida acabou.

Os cenários de Como Esquecer são lindos, cheio de tons cinza em contraste com a casa de Hugo, toda colorida com exceção do quarto de Júlia (uma representação das almas das personagens, talvez). A história é cheia de referencias ao livro O Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë, uma obra gótica sobre a insanidade do amor.

O filme também fala brevemente sobre a questão do casamento homossexual, assunto este que tem povoado as notícias do país nessa época de eleições. Engraçado... Sofrimento é uma das coisas que sinto quando escuto sobre esse assunto. Nojo é a outra. Nojo de ouvir pessoas discutindo sobre algo que não lhes diz respeito. Não entendo essa mania de rotular. Somos todos seres humanos, não somos? Todos tem o direito à felicidade, não temos? Como diria Lord Henry, “definir é limitar”.

Direito à felicidade... Direito de acabar com o sofrimento. Como podemos fazer isso? Como podemos deixar tudo isso para trás e seguir com nossas vidas? Como esquecer?

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Como Esquecer (2010)
Direção: Malu de Martino
Roteiro: Sabina Anzuategui, José de Carvalho, Douglas Dwight, Daniel Guimarães, Luiza Leite e Silvia Lourenço, baseado em um livro de Myriam Campello
Elenco: Murilo Rosa, Ana Paula Arósio, Natália Lage, Arieta Correia

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Show de Truman, O Show da Vida

truman

Imagine se você pudesse ter uma vida de cinema perfeita e maravilhosa. Todos a sua volta são confiáveis, não existe violência, todo mundo é feliz. Só existe um porém: nada disso é real e milhões de pessoas no mundo inteiro assistem seu cotidiano sendo transmitido 24 horas por dia na televisão, sem que você saiba.

Essa é a vida que Truman Burbank (Jim Carrey) leva desde que nasceu. Truman foi escolhido entre vários bebês para participar de um reality show que mostra o seu dia a dia, e acabou virando uma mania mundial. Todos estão de olho nos seus primeiros passos, no seu primeiro beijo e no dia de seu casamento. Todos compram mercadorias com seu rosto estampado. Todos choram junto com ele. Truman, é claro, não sabe que sua família, amigos e esposa são atores contratados, que os produtos que consomem são patrocinadores e que sua cidade (cercada de um vasto mar) nada mais é do que o maior cenário já construído na história da televisão.

Jim Carrey é Truman

No mundo de Truman, Christof (Ed Harris), o criador do programa, é Deus. É ele quem controla vida de todos lá dentro, é ele quem diz se irá chover ou fazer calor, é ele que decide se Truman fica feliz ou triste. O que faz de Truman especial é que ele é único fator real desta equação de mentiras criada por Christof.

Ed Harris é Christof

O Show de Truman é uma crítica sarcástica da sociedade que vivemos, que se preocupa mais com a ficção do que com a realidade. Passamos, assim, como os homens da caverna de Platão, observando as sombras da vida ao invés de viver de verdade. Ter os seus quinze minutos de fama, como diria Andy Warhol, é mais importante do que qualquer coisa – até mesmo dignidade, como podemos ver em reality shows como Big Brother e afins.

Turma da Mônica também é cultura

Imagino que quando Guy Debord (lá em 67) lançou seu livro La société du spectacle, não imaginava que a coisa chegaria a tal ponto, com pessoas vendendo até a alma para aparecer na televisão. Truman ganha o público por ter exatamente aquilo que falta nas pessoas de hoje em dia: ingenuidade. Ele não quer ser famoso, apenas o é. Seu único objetivo de vida é ser feliz. Aqui, ser ingênuo não significa ser bobo, e sim autêntico e puro. Uma pureza que nenhum programa de televisão é capaz de nos dar. Falta autenticidade no mundo.

Somos bombardeados diariamente com notícias sensacionalistas e muitas vezes enfadonhas, que não nos permitem escolha. Uma notícia é revirada de tantas maneiras que é impossível achar alguém que não saiba nem ao menos um detalhes sobre aquilo. São as vacas espalhadas pela cidade, os mineiros saindo do buraco, o personagem da novela morrendo, as eleições e, quando você se dá conta, já não sabe mais nem quem é. O quê? Tem uma vaca morrendo dentro de uma mina no Chile enquanto concorre para a presidência?

Get it? Or maybe it was just another asshole

Ao assistir o filme com meus colegas de aula, o comentário geral foi “Coitado, está sendo enganado”. Não acredito que ele seja um coitado. Talvez, ao olhar o filme, devamos nos dar conta de que os coitados somos nós. Truman leva uma vida perfeita, cheia de regalias. Ele está sendo enganado? Sim, está. Mas nossa caverna é muito pior do que a dele. Nosso mundo é violento, sujo e estamos nos matando sem nem nos darmos conta. Aceitamos o mundo como ele nos é apresentado.

O Show de Truman é um filme maravilhoso e triste, muito bem dirigido e com uma das melhores atuações de Jim Carrey. O único problema é assisti-lo e continuar com os olhos vendados. Como diria Christof “eu dei a Truman a chance de levar uma vida normal... o mundo, o lugar onde você vive, é que é um lugar doentio”.

The Truman Show
The Truman Show (1998)
Direção: Peter Weir
Roteiro: Andrew Niccol
Elenco: Jim Carrey, Laura Linney, Noah Emmerich, Natascha McElhone, Holland Taylor, Ed Harris, Paul Giamatti

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Update: The Baryshnikov Situation

Depois de surtar um pouco mais e de encher o saco de mais gente, finalmente desisti de conseguir entrar na apresentação dia 27. Isso não significa que eu desisti de ir.

Entrei em contato com a responsável pela divulgação lá de Brasilia e ela me disse que guarda o ingresso para mim. Maravilha! Só que existe um porém: conseguir pagar a passagem de avião. Tenho dinheiro para o ingresso e consigo lugar para ficar (até pensei em ficar uns dias a mais por lá, para conhecer a cidade). Mas só a passagem de avião é mais cara que o ingresso!

Isso sem falar na linda situação “Paloma sozinha na cidade grande”. Consigo me perder no centro da cidade onde vivo desde que nasci, imagina o que seria eu em outro estado, completamente sozinha.

Então é isso… Bye, bye, Misha. Por favor, não esqueça de mim.

bw_Misha:  Loma?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

“I'm gonna roll myself up in a big ball and die”

O título deste post é a última frase da música That’s Life, do Frank Sinatra. E não poderia descrever melhor o que sinto agora. Hoje tive a prova absoluta de que Deus existe e que ele me odeia. Dia 27 é meu aniversário e também é o dia da apresentação do espetáculo Três Solos e Um Dueto, com a bailarina espanhola Ana Laguna… e o Mikhail Baryshnikov!

mikhail-baryshnikov

Fiquei sabendo disso ontem, apenas cinco dias depois que começaram a vender os ingressos, chorei para minha mãe me dar/emprestar dinheiro para eu poder ir, enchi o saco de todo mundo gritando “Misha!” enlouquecida pelas ruas da cidade.

E os ingressos estão esgotados. Aparentemente, quase mil ingressos foram vendidos no primeiro dia. Baryshnikov é o bailarino mais famoso do mundo, que já atuou em vários filmes e na série Sex in the City (causando vários grito histéricos de “Mas ele é mais legal que o Mr. Big!!!”). O Misha nasceu na Letónia em 1948, foi membro do balé Kirov, tem uma filha com a Jessica Lange e é o único bailarino heterosexual que a Miss Fine consegue citar (6:01 do vídeo).

Sem título0

E eu não vou poder ver ele. Já twittei para a Zero Hora, já mandei email para a assessora do show daqui, já pedi para uma professora minha falar com alguém, já falei com meu cunhado, já mandei email para a produtora lá do Rio de Janeiro, já liguei para o lugar que vende os ingressos, já chorei, já rezei e já mandei um amigo no Praia de Belas ver se tinha lá ainda.

Acho isso injusto. Nunca tem nada que preste aqui e quando tem, não posso ir. Ah, sim, Paul McCartney vai vir mês que vem. E se eu pagar R$520 posso até tentar enxergar ele no palco. E, convenhamos, ele pode ser legal e tudo mais, mas ele não é o John Lennon… E ele definitivamente não consegue fazer isso:

mikhail_baryshnikov1

Dou minha alma para quem conseguir esses ingressos para mim. E a pergunta que não quer calar é: O que pode ser mais orgástico do que o Frank Sinatra cantando One For My Baby, One More For the Road? O Baryshnikov dançando enquanto o Sinatra canta:

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