terça-feira, 21 de setembro de 2010

Entrevista com o crítico de cinema Carlos Primati

Acabou na última sexta-feira, dia 17 de setembro, o curso "A Obra de Alfred Hitchcock", ministrado pelo jornalista, crítico, historiador e pesquisador de filmes de horror Carlos Primati. O curso percorreu a carreira do diretor inglês, desde seus filmes mudos da década de 20 até clássicos do cinema como Psicose (60), Os Pássaros (63) e Frenesi (72), e foi trazido a Porto Alegre pela produtora Cena UM.

Em uma entrevista exclusiva para o blog Judas Dançarino, Primati fala sobre sua paixão por filmes, suas motivações e sua carreira.

Foto retirada do blog Cine Monstro O que te levou a gostar de cinema e em particular os filmes de horror?

Minha formação como cinéfilo começou de verdade quando comprei meu primeiro VCR. Eu tinha cerca de 17 anos, o videocassete era novidade na época, e a simples possibilidade de ver qualquer filme na hora que eu quisesse era algo sedutor demais. Desde então, não parei de ver filmes, e foi quando surgiu minha vontade de trabalhar com isso. As madrugadas da Globo, onde vi filmes como Laura, Pacto de Sangue, Scarface, O Pecado Mora ao Lado, Gilda, As Aventuras de Robin Hood, O Homem Errado, Aconteceu Naquela Noite, também foram essenciais nessa minha formação. Assim como os filmes de arte que assistia na Bandeirantes, como Fanny & Alexander, Fitzcarraldo e O Homem Elefante.

Minha relação com os filmes de horror é ainda mais antiga. Quando vi, ainda na infância, filmes como As Sete Máscaras da Morte, A Mosca da Cabeça Branca, O Homem Cobra, A Trama Diabólica, A Profecia e tantos outros. Porém, só passei a trabalhar com horror em caráter quase exclusivo bem mais tarde, quando decidi me especializar em algum tema específico, para não me tornar mais um crítico que, querendo abraçar o mundo, acabaria caindo na mediocridade.

Por que Hitchcock é tão importante para você?Foto por Jorge Ghiorzi

Minha paixão por Hitchcock se deve, provavelmente, por ele ter obsessões tão fascinantes: sexo, morte, loucura, culpa etc. Tenho interesse mais no orgânico do que no intelectual, na filosofia. Reconheço a importância e o valor de cineastas como Fellini, Bergman, Wajda, Saura, Tarkovski e tantos outros nomes incontestáveis da sétima arte que me fascinaram durante meu período de descoberta desse universo, mas Hitchcock foi o nome que permaneceu para mim, por ter esse cinema vivo, pulsante, vigoroso e sexual. O domínio pleno da técnica de filmagem, desde os aspectos mais minuciosos do planejamento até o resultado final, torna Hitch o cineasta modelo para qualquer diretor que tenha interesse em compreender e aprender os mecanismos do cinema clássico. Não é à toa que ele é celebrado pelos cineastas mais inteligentes do cinema, incluindo Peter Bogdanovich e Martin Scorsese, só para citar dois que ainda estão vivos.

Qual seus filmes favoritos de gênero?

Dentro do suspense, gosto de muita coisa, especialmente do período no qual foram realizados os filmes que ficaram conhecidos como noir, na década de 1940, com obras-primas como Pacto de Sangue e Relíquia Macabra. Para citar cinco filmes de Hitchcock no gênero, eu gostaria de lembrar A Dama Oculta, A Sombra de uma Dúvida, Um Corpo Que Cai, Psicose e Frenesi. Acho que esses traçam um panorama perfeito do que Hitch era capaz de fazer. Gosto também de alguns filmes de cineastas que imitaram Hitchcock assumidamente, como Silêncio nas Trevas, de Robert Siodmak, Testemunha de Acusação, de Billy Wilder, e O Círculo do Medo, de J. Lee Thompson. O gênero todo me interessa, até as produções recentes, mas o suspense cada vez mais tem se misturado com o horror psicológico (como em Janela Secreta, O Orfanato e o maravilhoso, porém pouco conhecido, Naboer), o que de certa forma também é uma herança hitchcockiana, por causa do impacto de Psicose e Os Pássaros.

E em geral?Cantando na Chuva

Meu filme de cabeceira, com o qual tenho uma relação de amor incondicional, é  Cantando na Chuva. Para mim, é a quintessência do cinema como ‘fábrica de ilusões’, de pura magia e encantamento. É, acima de tudo, um filme sobre o cinema, sobre todo o processo da criação artística. Não sou fã de musicais, mas se existe magia no cinema, ela está nesse filme. Meus outros favoritos mudam a todo o momento, mas posso citar filmes como Em Busca do Ouro, de Chaplin, Aguirre, a Cólera dos Deuses e O Enigma de Kaspar Hauser, ambos de Herzog, e O Sétimo Selo e A Fonte da Donzela, de Bergman. Quase tudo de Billy Wilder também. No horror, esse universo se expande muito mais e posso citar obras contundentes como A Noite dos Mortos Vivos, O Bebê de Rosemary, O Massacre da Serra Elétrica, Suspiria, O Homem de Palha e O Silêncio dos Inocentes. Certamente estou esquecendo de muitos outros, mas isso apenas demonstra como o cinema é uma arte viva.

Tem algum autor de terror e suspense que te chama atenção?

Fora os grandes mestres, como Murnau, Lang, Hitchcock, Polanski e Romero, eu citaria a visão bem particular de Dario Argento, que quando acerta, é genial, mas quando erra, é patético. No Brasil, temos nosso José Mojica Marins, que tem momentos absolutamente brilhantes em sua carreira (como O Estranho Mundo de Zé do Caixão e a obra-prima delirante O Ritual dos Sádicos), mas nem sempre é reconhecido. Ainda no cinema clássico de horror, Mario Bava e Terence Fisher são dois que quase nunca erraram. Os grandes nomes do cinema de horror atual estão na Espanha, gente como Guillermo del Toro (mexicano de nascimento, mas que também trabalha na Europa), Jaume Balagueró e Álex de la Iglesia, que tem filmes geniais como O Dia da Besta, A Comunidade e Crime Ferpeito.

Nas letras, claro que sou apaixonado por Edgar Allan Poe, mas não conheço H.P. Lovecraft tanto quanto deveria. Cresci lendo Stephen King, que descobri quando tinha 10 anos e ainda era um autor em ascensão. Hoje tem muita gente que desdenha de King, talvez não sabendo reconhecer como ele tem sido importante para a popularização do gênero.

Foto por Jorge Ghiorzi O que/quem te motivou a trabalhar com cinema?

Foi um pouco casual e um pouco de sorte. Meu irmão mais velho trabalhava como diagramador de um jornal na minha cidade, Jundiaí, no interior de São Paulo. Observando meu interesse por cinema, ele propôs que eu começasse a escrever sobre o tema no jornal, num encarte cultural que eles estavam criando naquele momento, algo nos moldes do Caderno 2, do Estadão. Essa oportunidade foi preciosa para mim, pois comecei a trabalhar com crítica e jornalismo e pude exercitar essa arte na base da tentativa e erro. Errei um bocado, mas acabei aprendendo!

O que foi mais difícil no início?

Não sei dizer se algo foi de fato difícil. Talvez a ansiedade e a sensação de isolamento intelectual, pois eu sempre morei no interior de São Paulo e todas as oportunidades de emprego estavam na capital. A rotina era pegar um ônibus e ir visitar redações de jornais e revistas. Mas nunca tive problemas para atingir meus objetivos; de fato, sempre que fui atrás de um trabalho, acabei conquistando-o sem maiores esforços. Se isso pode servir de lição, o que posso dizer é que primeiro você precisa se certificar de que realmente tem algo de bom para oferecer, estar bem seguro e confiante, e então vai conversar com quem realmente manda (um editor, de preferência), e lhe expõe sem meias palavras o que você pode lhe oferecer de útil. Um editor sempre está disposto a receber uma pessoa com talento e capacidade, pode ter certeza disso.

Quem te ajudou e de que forma?

Não sou formado em Jornalismo, até porque comecei a trabalhar nisso muito cedo e sempre fui requisitado mais pelo meu conhecimento em determinados temas do que por uma educação formal. Tudo que aprendi tecnicamente nessa atividade devo ao meu primeiro editor de fato, o José Augusto Lemos, que foi o criador da revista Set e com quem trabalhei por alguns anos. Ele era tão chato e exigente, no melhor sentido do termo, que aprendi muitos segredos sobre como construir um texto informativo e fluido, criando uma ligação direta com o leitor. Meu estilo é o de tentar ‘puxar’ o leitor para dentro do texto, convidá-lo a participar da discussão. Detesto textos que excluem a presença do leitor, que abusam da soberba e da arrogância.

Também aprendi muito nas horas intermináveis de conversas com um grande amigo e vizinho, o Edson Negromonte, discutindo intelectualmente temas teoricamente banais como Betty Boop, Rin-Tin-Tin, Lucille Ball, Roger Corman, Star Trek, Traci Lords, Vincent Price, Spirit, Arquivo X, Scooby-Doo, Twin Peaks e, claro, Hitchcock. Foi com ele que aprendi que a cultura pop era digna de ser discutida de maneira séria e profunda; algo que depois se tornou quase que uma regra e praticamente se banalizou, mas que naquele momento foi uma descoberta reveladora.

O que conta mais: técnica ou criatividade?

Tendo que escolher, prefiro a criatividade, sempre. Porém, é importante também o domínio da técnica. O cinema é uma arte coletiva e, acima de tudo, uma atividade cara. Quando um filme é feito com criatividade e tem ao seu favor o pleno domínio da técnica, ele certamente se comunicará com o espectador com mais facilidade, resultando num filme melhor, em todos os aspectos. Porém, apenas o domínio da técnica, sem criatividade, é a receita do desastre, sem dúvida.

Caso esteja perguntando em relação à atividade de escrever, a clareza é mais importante de tudo. Mesmo que esteja escrevendo um artigo acadêmico, o que mais importa é expor com clareza seus argumentos para defender uma idéia do que empolar o texto com palavras complicadas e não conseguir comunicar uma idéia interessante.

O que está pensando para o futuro?Fantaspoa 2010

Minha paixão por pesquisa e por escrever é tão grande ou até maior do que meu amor pelo cinema, então estou sempre envolvido em projetos que envolvem livros, artigos, críticas. O desenvolvimento de cursos sobre cinema foi uma descoberta relativamente recente, e logo me apaixonei por isso, porque posso levar adiante o que aprendi e ainda ter a oportunidade de interagir com pessoas realmente interessadas em discutir o assunto. Ministrei cursos sobre Hitchcock, sobre a história do cinema de horror, sobre a ficção científica clássica e sobre o horror no cinema brasileiro. Este último tema, aliás, rendeu um livro e uma mostra de filmes que aconteceu em Brasília e no Rio de Janeiro e que temos planos de levar para São Paulo. Também participo ativamente do Fantaspoa, o festival internacional de cinema fantástico que acontece anualmente em Porto Alegre, e certamente estarei presente em 2011 com mais um ou dois cursos de cinema!

Qual conselho você dá para quem está começando a carreira?

Quem tem desejo de trabalhar com crítica de cinema deve, acima de tudo, ter gosto pela leitura, em especial livros sobre críticas e análises de filmes. Claro, a paixão pelo cinema deve ser algo natural, mas me incomodo muito quando vejo supostos “críticos” que tem como formação, ter visto meia dúzia de filmes e já começar a escrever sobre eles. Ler muito é o primeiro passo para aprender a escrever. Também me incomodo com a forma desrespeitosa que muita gente escreve sobre filmes. O gracejo, a ironia e o sarcasmo são armadilhas fáceis e até uma forma de covardia para tratar os filmes. A soberba da crítica cria um abismo entre o autor e o leitor. Tratar o pior filme do mundo como algo minimamente digno é o que pode tornar um crítico respeitável. Claro que ele deve falar mal, quando o filme for ruim, mas não vejo necessidade de se perder a elegância nessa relação.

***

O próximo curso do Cena UM será “Woody Allen – Fora de Quadro”, com o crítico José Carlos Avellar. O curso acontecerá nos dias 09 e 10 de outubro (sábado e domingo), das 9h30 às 12h, no Museu da Comunicação Hipólito José da Costa (Andradas, 959 – P. Alegre – RS). O valor é de R$95, e a inscrição pode ser feita AQUI.

Para mais informações, ligue (51) 9101-9377 ou envie um email para cenaum@cenaum.net.

3 comentários:

Juliano Moreira disse...

Bem supimpa essas palavras. =)

Servem de inspiração, Carlos, até mesmo pra mim, que não trabalho com cinema. Mas adoro o mundo da escrita. Concordo plenamente com o estilo de convidar o leitor para uma conversa dentro das linhas do escritor. Demonstra um grande interesse de quem escreve querer dialogar com quem lê. Acho facinante isso.

Sucesso pra todos!

Pinu disse...

Paloma toda gostosona na primeira fila.

Rodrigo Nunes disse...

Venho fazendo os cursos do Carlos Primati há alguns anos, e asseguro que eles valem muito a pena. Se ele estiver passando por sua cidade com alguma atividade do tipo, não perca!

O seu maior mérito é conseguir transmitir toda a paixão que o cinema proporciona, algo que só os grandes mestres conseguem. Você nota o brilho nos olhos enquanto ele fala dos assuntos que tão bem conhece, e o acompanha com prazer por uma viagem imperdível pela história do Cinema.

Ele exibe trechos selecionados de filmes, dá explicações didáticas, fornece informações precisas, tem bom humor e abre espaço para o diálogo com o público (jamais sendo o dono da razão).

Grande Primati! Esse terá a minha admiração sempre.

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