quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Menina que Brincava com Fogo

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Os Homens que Não Amavam as Mulheres é um livro extremamente envolvente, bem narrado e com personagens muito fortes. Além disso, é possível lê-lo sem ler os outros dois livros da trilogia Millennium, escrita pelo jornalista Stieg Larsson. Acontece que, quando você lê esse livro, irá querer ler os próximos. E foi assim que coloquei minhas mãos em A Menina que Brincava com Fogo, a segunda parte da trilogia.

Ao contrário do primeiro livro, o segundo não tem um final concreto, então não comece a lê-lo se não estiver disposto a ler o terceiro (A Rainha do Castelo de Ar). A vantagem do segundo quanto ao primeiro é que agora já conhecemos os personagens, sabemos do que são capazes e que podemos confiar neles. Lisbeth está mais madura, menos egoísta do que na primeira parte, mas continua vivendo sob suas próprias regras e peculiaridades. Já Mikael continua o mesmo, com seu jeito de canastrão querido, se arriscando de todas as maneiras possíveis para salvar Lisbeth.

O livro questiona o papel do jornalista na sociedade, mostrando um jornalismo sensacionalista, com matérias agressivas (e muitas vezes mentirosas), voltadas apenas para o dinheiro que elas trarão. Quem acompanha os noticiários brasileiros já deve ter se deparado com tais matérias. Em casos de assassinato, é comum ver a mídia apedrejando os suspeitos, não deixando brechas para que tal pessoa consiga se inocentar. A pessoa é mostrada como um monstro, e ai daquele que for contra a maré. Afinal... Se saiu no jornal, é verdade! O jornalismo tem o poder de destruir vidas.

Larsson também critica a hipocrisia política, o velho “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Os políticos possuem um poder que não é usado para o bem da nação e sim para o bem pessoal. A opinião de Larsson quanto a essas questões fica bem evidente, especialmente em Mikael, o jornalista que tem nojo de ser chamado de jornalista. Mikael é, por assim dizer, uma personificação de Larsson, o porta-voz dos pensamentos do escritor.

stieg-larsson-415_thumb[3]

Já o discurso contra o abuso às mulheres continua preenchendo as páginas do livro, desta vez tendo Lisbeth como principal representante, além dos novos personagens Dag e Mia, que querem ajudar a denunciar esse problema. Lisbeth, que é várias vezes descrita como “a mulher que odeia os homens que não amam as mulheres”, luta com unhas e dentes para defender sua opinião. Em contraponto, temos o personagem Hans Faste, um policial machista e homofóbico, o típico homem que Lisbeth despreza.

A narrativa detalhada e os personagens ricos e incrivelmente reais, fazem de A Menina que Brincava com Fogo um livro delicioso de se ler, com suas 600 páginas passando voando sem que se perceba.

E esse é o principal erro do filme.

Assim como no primeiro, a narração é bastante simplista e deixa de lado essa riqueza de detalhes, acabando por cair mais uma vez no clichê e na mesmice de sempre. O livro tem uma quantidade enorme de histórias paralelas, que acabam por se ligar e formar o sentido final e isso fica praticamente impossível de se mostrar em um filme de apenas 129 minutos. Seriam necessários pelo menos dois filmes (prática que está cada vez mais comum no mundo do cinema) para narrar de forma decente todos os fatos. O resultado é um filme confuso, com detalhes importantes cortados para dar espaço a situações que não existem no livro e que não fariam diferença nenhuma se não estivessem no filme também.

E o problema não se resume apenas a péssima adaptação. Os personagens agem de maneira que não condiz com suas personalidades. Mikael é um fofoqueiro, que conta tudo que sabe para todo mundo (consigo imaginar ele saindo na rua gritando “a mocinha morre no final, quem matou foi o marido”), Lisbeth age de maneira inconsequente e burra, personagens aparecem e somem sem nem dar tempo de gostarmos deles, e por ai vai.

Played-with-fire-27.08.10_thumb[3]Mikael: Vem aqui… Vou te contar o final do livro…

As coisas acontecem rápido demais sem dar a chance de a pessoa acompanhar o que está acontecendo. Só entendi o filme porque li o livro. Os atores não são ruins, mas como não temos tempo de vê-los atuando, tanto faz. Também tenho a impressão de que todos os atores são velhos demais para os personagens que estão interpretando, em especial a Noomi Rapace, que é ótima atriz, mas aparenta ter 30 anos e não 14 (como Lisbeth é sempre descrita).

The-Girl-Who-Played-With-Fire (1)_thumb[3]

E nem adianta dizer que uma adaptação nunca será fiel e que é impossível adaptar um livro de maneira a agradar os fãs. Tenho dois exemplos bem distintos de filmes que fazem jus aos livros: O Diário de Bridget Jones, que não é fiel à história e sim a personagem, como uma espécie de história paralela; e O Silêncio dos Inocentes, uma das melhores adaptações já feitas, que pega tudo que é importante no livro e exclui o que não importa, fazendo um filme compreensivo e maravilhoso de se assistir.

casal5_thumb[4]silence-of-the-lambs_thumb[4]   People will say we're in love, Bridget…

Ambos os filmes são bem melhores do suas sequencias (dirigidas por outros diretores) e agradam aos fãs. Se Sharon Maguire e Jonathan Demme conseguiram essa façanha, porque outros não iriam conseguir?

Talvez o principal problema do filme seja eu e essa minha mania de achar que todos os filmes suecos deveriam ser como os filmes do Ingmar Bergman. Ou talvez esteja no diretor Daniel Alfredson ao tentar imitar o cinema americano. Ou então a culpa é de Alfred Hitchcock por não ter vivido o suficiente para fazer esse filme.

the-girl-who-played-with-fire_thumb[7]
Flickan som lekte med elden (2009)
Direção: Daniel Alfredson
Roteiro: Jonas Frykberg, baseado em um livro de Stieg Larsson
Elenco: Michael Nyqvist, Noomi Rapace, Lena Endre, Peter Andersson, Michalis Koutsogiannakis, Georgi Staykov, Paolo Roberto

8 comentários:

Juliano Moreira disse...

Mais uma decepção, né? =/
Que droga pensar que um livro tão rico vire um filme tão medíocre.

É horrível pensar que talvez um remake americano possa salvar alguma coisa.
Possivelmente não no aspecto mais importante, a profundidade dos personagens.
Se pelo menos mostrarem a Lisbeth como doente, ao invés de esquisita, já estaremos no lucro. hehehe

Paloma disse...

Pois é... Mas, pensamento positivo! A versão americana não vai ser pior do que Dylan Dog!

(morrendo por dentro)

Pinu disse...

Eu não sei de nada, só que o Dumbledore morre. E vira purpurina.

Mas falando um pouco mais sério, é péssimo mesmo quando um livro que a gente gosta vira um filme de bosta (rimou!). Mas o pior é quando a gente gosta de um filme e lê o livro que deu origem e passa a odiar a versão cinematográfica, que foi meu caso com o Clube de Leitura de Jane Austen. Bom, talvez odiar seja um termo muito forte, mas não consigo mais assistir, especialmente porque o filme altera uma personagem, na minha opinião, de forma imperdoável, e esta é uma crítica presente tanto no filme quanto no livro, sobre uma adaptação de Mansfield Park.

Será que eles não se dão conta de que as pessoas que leram o livro vão notar uma mudança dramática na personalidade de um personagem? Ou será que eles simplesmente contam que quem assistir o filme não terá lido o livro?

Anônimo disse...

Restaurants in the United States. Search or browse list of restaurants. http://restaurants-us.com/in/Lafayette/Buffalo%20Wild%20Wings%20Grill%20&%20Bar/47905/

Paloma disse...

Uma vez li uma crítica de um fã de HP, sobre o Prisioneiro. O cara dizia que era horrível, porque cortava coisas de mais da trama e ficava confuso. O cara escreveu isso em uma carta da SET. E a pessoa que responde essas cartas disse que o filme não foi feito para os fãs e sim para o público que não leu o livro...

Sempre achei isso um absurdo. Se tu não consegue fazer um livro que consiga agradar tanto os fãs quanto os genéricos, então teu filme é uma merda.

Pinu disse...

É... o que importa é que tenhas efeitos bonitos e "grande elenco" e todo mundo fica feliza, porque pessoas que lêem livros não tem nada que ficar vendo filme.

O que me admira é um cara da SET responder uma coisa dessas.

Pinu disse...

*feliza: o feminino de feliz.

Paloma disse...

Vai ver o cara da SET não ficou feliza com os livros! Ficou felzi.

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