terça-feira, 30 de março de 2010

Mulher Nota 1000

Atenção: contém spoilers

Ah! Os anos 80... Época dos cortes de cabelo escandalosos, da lambada, da Cindy Lauper, do Michael Jackson negro, das polainas e do pogobol. Nasci no final de tudo isso, em 1987, e se existe uma época onde eu gostaria de ter vivido é essa... O que vocês não sabem é que eu vivi nessa época, mesmo atrasada, ouvindo Cindy Lauper a todo volume. Fui uma típica adolescente dos anos 80, só que nos anos 90 e sem o cabelo ridículo. Quando assisto os filmes dessa época, a impressão que tenho é de que tudo era possível. E existe um filme em especial que exala anos 80. A personificação de uma década. Nos anos 60 tínhamos os hippies, nos 70 vieram os punkies. E nos 80 veio:

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Meu Deus, o que falar de Mulher Nota 1000? Posso falar que esse é um dos filmes mais nonsense que já vi em toda a minha vida. Posso falar que o John Hughes devia estar sob o efeito de drogas quando fez ele. Posso falar que o Anthony Michael Hall fez um ótimo trabalho crescendo (e virando o John Smith de Dead Zone). Posso falar que se esse filme ficar mais anos 80, ele explode. Mas nada disso iria explicar a magnetude de Mulher Nota 1000.

Weird Science (e "weird" é a melhor palavra para descrever), foi lançado em 1985 e, segundo a trívia do site IMDb, John Hughes escreveu o roteiro dele em dois dias. Isso faz muito sentido. Gary Wallace (Anthony Michael Hall) e Wyatt Donnelly (Ilan Mitchell-Smith - que largou a "carreira" de ator para virar professor universitário) são amigos nerds que possuem apenas dois objetivos na vida: farrear e arranjar namoradas.

 

Isso fica bem claro logo na primeira cena, onde os dois chegam no ginásio da escola e observam as garotas fazendo ginástica. Gary se emociona e começa a falar todas as coisas que ele gostaria de fazer (basicamente, tomar banho com elas e farrear). Então o Robert Downey Jr. (que nos créditos está só como Robert Downey, imagino que o pai dele não tinha nascido na época ainda) e um outro cara com sobrancelhas tão grandes quanto as dele chegam e baixam as calças de Wyatt e Gary.

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Então começa a abertura do filme, que não seria nada de mais se não fosse por isso:

Oingo Boingo! A Oingo Boingo era uma banda dos anos 70 e 80... Mas isso não importa, realmente, o que importa é que uma das pessoinhas dessa banda virou um dos compositores de trilha sonora mais legais de hoje em dia: Danny Elfman. Para quem não sabe, Danny Elfman é o cara por trás da maioria das trilhas do Tim Burton. Acho legal saber que a pessoa que compôs essa música também compôs isso:

Depois da abertura, encontramos os dois protagonistas no quarto de Wyatt. Os pais viajaram no final de semana, deixando ele sob os cuidados de Chet (Bill Paxton), o irmão psicopata.

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Os dois estão assistindo Bride of Frankenstein (1935) e Gary tem uma idéia: criar uma mulher virtual para poderem fazer perguntas sobre sexo para ela. Nesta parte, Wyatt pergunta "E a sua garota no Canadá?" ao que Gary responde "Ela mora no Canadá! Não tem moral nenhuma!" Esse é um dos pontos fortes do filme. Apesar da histórias não fazer sentido nenhum, os personagens conseguem se manter reais. Quando Gary fala sobre sua suposta namorada canadense ele deixa bem claro quem ele é: um adolescente nerd e ingênuo, que só quer se encaixar no mundo onde ele vive - como quase todos personagens do John Hughes e todos os adolescentes da face da Terra. Gary inventou uma namorada para se sentir bem e nem ao menos sabe do que está falando.

Os dois resolvem criar a mulher ideal usando um Memotech MTX-512 com uma expansão FDX. Isso mesmo... Um Memotech MTX-512 com uma expansão FDX... Não tenho a mínima idéia do que um um Memotech MTX512 com uma expansão FDX é, mas se serve pra criar uma escrava sexual digital, com poderes mágicos e a cara da Kelly LeBrock, eu quero (se bem que eu prefiro o Hugh Jackman). De que me adiantou pagar os olhos da cara por um Dell Inspiron 1545 se ele não faz esse tipo de coisa! Estou muito desapontada.

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clip_image012It's the Memotech, bitch!

A cena a seguir é tão louca e inexplicável, que eu nem vou me dar ao trabalho de descrever ela.

E o que eles querem fazer com ela? Tomar banho com ela, é claro! Não consigo entender qual a fixação desses dois com tomar banho.

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Imagino que, na época, tenha sido um grande marco tomar banho com a Kelly LeBrock... Mas quem deve ser orgulhar disso é ela, afinal...

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Depois de tomarem banho (sonho número um conquistado) e nomearem sua nova escrava sexual de Lisa, eles partem para a segunda parte do plano: farrear!

Eles vão para um bar muito esquisito no qual Gary fica bêbado e começa a falar com uma voz irritante pelo resto da cena. Eles voltam para casa, Chet chantageia Wyatt por ele ter voltado tarde e bebido, Lisa dá uns amassos com o Wyatt, que acorda no dia seguinte usando as calcinhas dela.

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Os três vão até o shopping onde os garotos são incomodados por Robert Downey Jr. de novo, enquanto Lisa vai a uma loja de lingerie. Essa é a melhor cena do filme, mesmo durando menos de um minuto: Ela pergunta para a vendedora (que aparenta ser velha de mais para trabalhar como atendente em uma loja de lingerie, mas tudo bem) "Se você fosse um garoto de 15 anos, isso te excitaria?"

clip_image019Regra número um: qualquer coisa excitaria um garoto de 15 anos

Quando ela está indo embora do shopping, os bullies seguem ela e se surpreendem ao descobrir que aquela mulher linda está com os nerds. Ela diz para eles que terá uma festa na casa de Wyatt e que estão todos convidados. Lisa vai à casa de Gary para convencer os pais dele de que o garoto precisa farrear bastante. Mas ela não consegue...

De noite, a casa lota de adolescentes retardados, incluindo Downey Jr., o amigo sobrancelhudo e as namoradas deles (por quem os nerds estão apaixonados). Wyatt e Gary ficam trancados no banheiro, porque estão nervosos de mais para ir dançar. Nisso chegam as namoradas, que precisam usar o banheiro. Eles acham os dois fofinhos, apesar de Wyatt ter poluído o banheiro de tanto peidar. Sexy.

Robert e o amigo propõem trocar Lisa por suas namoradas (eu me lembro de quando fizeram isso comigo), mas Gary e Wyatt têm uma idéia melhor: criar uma nova mulher usando o seu super Memotech MTX-512 com uma expansão FDX! Aqui acontece mais uma cena maluca, que nem a primeira, com pessoas e objetos sendo arrastados por um vento bizarro, o céu ficando vermelho e um piano passando por uma chaminé bem menor do que ele. Ah, e isso:

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Quando a maluquice acaba (se é que isso é possível), eles descobrem que esqueceram de colocar a boneca (vide vídeo da primeira vez, e os fios ficam em cima de uma revista que tem um (er) míssil (?) na capa. E ai um míssil gigantesco aparece no meio da casa, quebrando tudo o que não foi quebrado antes. Então você pensa “ok, acabou, certo?” Errado! Lisa quer que os garotos sejam populares, então ela faz uma gangue de motoqueiros mutantes (!!) invadirem a casa, quebrando mais um pouco as coisas. Um deles, por sinal, é o irmão bonito do Sloth.

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Ao invés de lutarem, Gary e Wyatt se escondem no armário. Mas os motoqueiros quebram a parede e arrancam os dois lá de dentro. Gary vira homem (ao sair do armário?) e ameaça os motoqueiros com uma arma – que eu acho que é a que Lisa usa quando ameaça os pais dele. Os motoqueiros pedem desculpas, muito educados, e vão embora. E agora Gary e Wyatt são deuses que deixam as garotas excitadas (bem, mas isso Anthony Michael Hall já fazia!). As duas (ex) namoradas ficam loucas por eles, todo mundo vai embora, os nerds dormem com as patricinhas (literalmente dormem, ninguém faz sexo nesse filme) e tudo fica bem... SERÁ?

Chet aparece no dia seguinte – onde exatamente ele estava? – e estraga tudo. Quando ele vê a casa destruída, ele quer matar os garotos, mas Lisa intervêm. Os nerds levam suas novas namoradas para casa e Lisa transforma Chet em uma mistura de sapo com Jabba, the Hut.

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Quando os garotos voltam, se dão conta de que terão que conversar com Lisa sobre as namoradas já que, tecnicamente, ELA é namorada deles. Mas Lisa diz que já sabe de tudo e que isso era o que ela sempre quis pra eles. Então, em uma cena cheia de lágrimas, ela vai embora. Chet volta ao normal, fica todo bonzinho, a casa se conserta sozinha, o míssil vai embora, os pais de Wyatt voltam e tudo fica bem... SERÁ?

Na escola, durante a educação física, os alunos (todos meninos) estão esperando pela nova professora de educação física... Lisa TAN DAN DAN.

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Fim.

Mais uma vez John Hughes repete a lição, afirmando que tudo que temos que fazer é parar de se preocupar tanto e curtir. Eu queria que ele parasse de fazer isso! Lisa é uma versão feminina de Ferris Bueller. A diferença é que aqui, para poderem "curtir a vida adoidado" os personagens precisam mudar quem eles são (de nerds a seguradores de armas?) e não apenas fazer coisas fora do comum.

Weird Science é um conto de fadas moderno para garotos e é um dos filmes mais anos 80 e mais nonsense que já vi em toda a minha vida. A história não faz sentido, a tecnologia não faz sentido, as cenas não fazem sentido... Enfim. Mas isso não estraga o resultado final. Apesar da loucura geral, ele diverte, é leve de se assistir e digno da Sessão da Tarde.

Weird Science (1985)
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Anthony Michael Hall, Kelly LeBrock, Ilan Mitchell-Smith, Bill Paxton

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