segunda-feira, 15 de março de 2010

Curtindo a Vida Adoidado

Atenção: Contém spoilers

Gosto de filmes. Imagino que isso já tenha ficado muito mais do que claro para vocês. Existem vários responsáveis por isso, desde filmes da Disney até a Elvira, de Sessão da Tarde à Cinema em Casa, do meu primo Christian à Meryl Streep. Mas existe uma pessoa que praticamente construiu a fundação do meu vício por cinema.

O que os filmes Férias Frustradas, Esqueceram de Mim, Beethoven, Clube dos Cinco, A Malandrinha, Quem Vê Cara Não Vê Coração, Curtindo a Vida Adoidado, Mulher Nota Mil, A Garota Rosa-Shocking, Gatinhas e Gatões, 101 Dálmatas, Antes Só do que Mal Acompanhado, Dennis o Pimentinha, Ninguém Segura Esse Bebê e Flubber têm em comum? Todos eles são filmes que marcaram a vida de muitas pessoas, incluindo a minha... Mas não é essa a resposta da minha pergunta. A resposta que eu quero tem apenas duas palavras que, mesmo sendo pequenas, tiveram um grande impacto em mim e mudaram minha vida por completo: JOHN HUGHES.

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Quando você pensa em anos 80, vocês pensa em John Hughes. O diretor, roteirista e produtor nascido em 1950, em Michigan, escreveu o roteiro de quarenta filmes e dirigiu oito. Hughes praticamente inventou uma nova maneira de fazer filmes para adolescentes! Ele faleceu em 2009, aos 59 anos. É por isso que o Judas Dançarino orgulhosamente apresenta o Especial John Hughes!

E para começar, nada melhor do que um dos maiores clássicos do gênero teen de todos os tempos. Um filme que nos ensinou que existe vida fora do colégio e que devemos aproveitá-la ao máximo. O filme desta semana é: Curtindo a Vida Adoidado!

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Para início de conversa, o que diabos é esse título? É, é, faz sentido, mas também faz o filme ficar com cara de "super aventuras maluquinha e geniais!". De qualquer forma, Curtindo a Vida Adoidado é um filme estadunidense de 1986, escrito e dirigido por John Hughes. Com um Matthew Broderick com cara de nenê como o personagem título, o filme mostra as "loucas aventuras" de três adolescentes que resolvem matar aula.

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Ferris Bueller (Matthew Broderick) é um garoto rico e mimado, que um dia resolve matar aula em grande estilo. O filme começa com os pais de Ferris o encontrando "muito doente" na cama e, apesar de ele estar obviamente fingindo, os dois acreditam e o fazem ficar em casa ao invés de ir à aula. Gosto como Ferris parece desapontado com os pais por terem acreditado. É quase como se ele quisesse ser pego. É nessa cena que conhecemos Jeanie, irmã de Ferris, que o odeia porque nunca é pego. "Se eu estivesse sangrando pelos olhos vocês me fariam ir à aula", diz ela indignada. Jeanie é interpretada pela pré Dirty Dance Jennifer Grey, muito antes de ela tirar o nariz e desaparecer do cinema.

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Depois disso temos o que é, para mim, a melhor cena de todo o filme:

 

É simplesmente genial! Isso é a melhor representação de escola que já existiu! Hoje em dia temos filmes como American Pie (sexo), Segundas Intenções (sexo) e Pânico (sexo e morte) tentando representar a juventude, mas ninguém se dá conta que ser adolescente não é fazer sexo enlouquecidamente e ter uma vida interessante e fantástica (pelo menos para mim não era). Ser adolescente é ir para a aula obrigado, morrer de tédio, ser humilhado e voltar para casa onde ninguém se importa se você teve um dia de merda afinal, nós não temos contas para pagar nem filhos com quem se preocupar, então para que todo o stress?

Voltando ao filme. Ferris tenta convencer seu amigo Cameron Frye (Alan Ruck) a se juntar a ele, mas Cameron afirma que está realmente muito doente e que não pode sair de casa. Ferris insiste e o amigo acaba indo, depois de discutir intensamente consigo mesmo.

clip_image005Cameron: He'll keep calling me, he'll keep calling me until I come over. He'll make me feel guilty. This is uh... This is ridiculous, ok I'll go, I'll go, I'll go, I'll go, I'll go. What - I'LL GO. Shit.

Hoje, vendo o filme com maior atenção e com mais maturidade, reparo uma coisa que nunca havia me dado conta: Cameron e Ferris são, praticamente, duas partes opostas da personalidade de uma só pessoa. Enquanto Ferris quer viver sua vida intensamente e aproveitar cada momento dela, Cameron se nega a viver e prefere reclamar a agir. É... Eu sou o Cameron.

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Os dois adolescentes enganam o diretor da escola, Rooney (interpretado pelo excelente Jeffrey Jones), para poder tirar a namorada de Ferris, Sloane (Mia Sara), da escola. Os três vão embora na Ferrari do pai de Cameron, que Ferris fez questão de roubar. Eles deixam o carro em uma garagem, onde o atendente resolve aproveitar a oportunidade e passear na Ferrari.

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Eles fazem, basicamente, quatro coisas:

01) Almoçar em um restaurante caro: Para entrar em um restaurante chique Ferris finge ser o Rei da Linguiça, ou algo parecido, e humilha um maître. Depois disso, os três vão embora, sem que fique explicado como foi que três fedelhos pagaram a conta.

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02) Ir ao The Art Institute of Chicago: essa é uma das cenas mais bonitas e o próprio John Hughes admite que só colocou ela no filme para poder mostrar o museu. Nessa cena, Cameron encara um quadro onde é representada uma menininha de mãos dadas com a mãe. A câmera da um close em Cameron e depois na menina, cada vez se aproximando mais. Quando mais próximo, menos visível. Aqui vocês podem assistir um trecho do comentário do dvd, feito por Hughes:

 

03) Ir à um jogo de baseball: "Hey, Cameron! Você notou que se a gente seguisse as regras, estaríamos na aula de ginástica agora?" Os três assistem à um jogo e até aparecem na TV. Uma cena que em nada adiciona e eu nem me lembrava que ela existia até escrever esse texto.

04) Entrar de penetra em um desfile: Essa é a cena mais famosa do filme. Cameron diz que não fez nada interessante o dia todo e Ferris decide invadir um desfile que está acontecendo na cidade e "cantar" (na verdade ele está dublando)Danke Schoen. Essa é a cena que prova definitivamente que Ferris pode fazer qualquer coisa que quiser, sem nunca se dar mal. Lembro-me de assistir essa cena quando criança e pensar que devia ser o máximo poder fazer o que bem entender. Também me lembro de perguntar para a minha avó qual era a segunda música que o Ferris cantava (Twist and Shout) e ficar cantando - ou embromando - na cozinha por horas. Não consegui achar o vídeo completo, com Danke Schoen e Twist and Shout, então vai só The Beatles mesmo:

 

Enquanto os três se divertem, Rooney e Jeanie tentando de todas as maneiras desmascarar Ferris. Todos os estudantes do colégio parecem venerar Ferris, o que deixa tanto a irmã quanto o diretor com mais raiva ainda da situação. Ambos estão obcecados por ele a ponto de pararem a própria vida só para poder destruir o garoto. Jeanie está tão cega porque seu irmão matou aula sem ser pego, que ela mesma mata aula sem se dar conta. Depois de encontrar um garoto que está recolhendo doações para conseguir um rim novo para Ferris, Jeanie vai para casa provar que ele estava fingindo.

Já Rooney, deixa seu trabalho de lado e sai pela cidade a procura do rapaz, chegando a invadir a casa dele. É nesse ponto que os dois antagonistas se encontram. Rooney tenta invadir a casa de Ferris, sendo atacado pelo cachorro da família e perdendo um sapato no processo. Quando finalmente entra na casa, Jeanie o confunde com um assaltante e lhe chuta a cara. Ela corre para seu quarto, onde chama a polícia.

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Rooney vai embora e Jeanie é presa por passar trote. Na delegacia, ela conhece um drogado Charles Sheen, que lhe dá uma grande lição de moral ela deveria passar “mais tempo lidando consigo mesma e menos se preocupando com o que seu irmão faz".

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Os três adolescentes voltam para pegar o carro e descobrem que os atendentes andaram nele. Cameron surta e os três voltam para a casa. Lá, colocam o carro em uma espécie de pedestal, com a ré ligada, para voltar o velocímetro. Quando eles reparam que isso não vai funcionar, Cameron chuta o carro enquanto faz o discurso que irá mudar sua vida. O carro cai pela janela e se destrói e ele resolve se impor ao pai (dominador e que ama mais o tal carro do que a própria família) e finalmente tomar as rédeas da própria vida.

clip_image014Cameron: I am not going to sit on my ass as the events that affect me unfold to determine the course of my life. I'm going to take a stand. I'm going to defend it. Right or wrong, I'm going to defend it.

Depois disso, Ferris vai para casa, encontra sua irmã (de carro) no caminho e os dois correm para ver quem chega primeiro. Ele ganha, mas é pego por Rooney antes de conseguir entrar em casa. E é a vez de Jeanie mostrar que, assim como Cameron, ela também entendeu a moral do filme. Ela protege o irmão, deixando Rooney com cara de idiota na rua. Ferris consegue chegar à cama antes que os pais notem que ele não estava, Rooney é atacado pelo cachorro de novo e acaba voltando de carona no ônibus escolar.

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Curtindo a Vida Adoidado  é um filme sobre redenção. Sobre aproveitar a vida enquanto a gente ainda pode, sem se preocupar com os outros. Ferris é a personificação desta moral. Ele não possui nenhum tipo de preocupação e por consequência, todos o amam. É como se ele fosse um deus que estivesse ali para guiar a vida dessas pessoas (Cameron, Rooney e Jeanie) e até atrevo a dizer que o personagem de Charles Sheen nada mais é do que uma das muitas imagens que esse deus possui.

(Será que Ferris Bueller e Bela Lugosi são a mesma pessoa?)

Jeanie vive tão preocupada com o que os outros pensam e fazem que acaba não vivendo sua própria vida. Rooney só sabe seguir regras e provavelmente nunca se divertiu de verdade. E Cameron vive com medo de seu pai e acaba se fechando para qualquer possibilidade. Em Clube do Cinco (também escrito e dirigido por Hughes), uma das personagens diz "Quando nós crescemos, nosso coração morre" e é contra isso que Ferris Bueller luta. Curtindo a Vida Adoidado é mais do que um filme, é uma lição de vida que todos nós deveríamos seguir.

Ferris Bueller's Day Off (1986)
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Jennifer Grey

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