sábado, 20 de março de 2010

Antes Só do que Mal Acompanhado

Atenção: Contém spoilers

Você já teve um daqueles dias, onde nada parece dar certo e dá uma vontade muito grande de encarnar o Michael Douglas e quebrar tudo? E ai você diz aquela frase mágica que sabe que não deveria dizer, mas diz assim mesmo: "Não tem como ficar pior!" E ai você conhece o John Candy e descobre que tudo sempre pode ficar pior. O filme do Especial John Hughes desta semana é:

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Em 1987, a saga adolescente de John Hughes acabou, dando espaço para filmes mais diversificados. A Malandrinha, de 1991, foi seu último trabalho como diretor, passando a se dedicar completamente a carreira de roteirista. Antes Só do que Mal Acompanhado (1987) foi seu primeiro trabalho "adulto" e conta a saga de Neal Page que precisa ir para Chicago passar o Dia de Ação de Graças com a família. O filme traz Steve Martin no papel principal e John Candy como o homem bonzinho e sem noção que consegue deixar a situação ainda pior. Um filme de John Hughes com John Candy? Abraços e Docinho? Deve ser um filme muito bonitinho... De qualquer forma, deixe-me dizer uma coisa sobre Steve Martin. É, eu sei que todo mundo ama ele, é impossível não amar, mas eu sinto algo a mais por ele. Eu o acho delicioso, pronto, falei. É, eu sei que ele tem um nariz de bunda e um cabelo branco desde os 3 anos de idade, mas para mim ele é absurdamente sexy.

clip_image002Make me explode although you know the route to go to sex me slow

Tendo deixado isso bem claro, volto ao filme. Neal trabalha com marketing e está em uma reunião em Nova York. Dali a dois dias é Ação de Graças e ele prometeu a esposa que iria chegar em casa a tempo. As coisas já começam a dar errado no início, quando o chefe de Neal demora horrores para olhar um papel e no fim a reunião se mostra completamente inútil, já que ele diz que só tomará uma decisão depois do feriado. Que pessoa agradável.

Neal corre para pegar um taxi e acaba esquecendo suas luvas no escritório. Na rua, ele luta com um homem para... Ai meu Deus, é o Kevin Bacon! Ok, ok... Os dois correm para conseguir um taxi, mas Neal tropeça em uma mala e Bacon sai vitorioso.

clip_image004Pena que a gente não pode dizer a mesma coisa da carreira dele

Neal consegue outro taxi, mas acaba discutindo com um homem que chegou junto com ele. Os dois discutem, Neal oferece dinheiro, o homem aceita, mas outro chega e leva o taxi dos dois. Neal persegue o carro gritando "Ei, esse táxi é meu!", abre a porta e:

clip_image006Tan dan daaaaan!

Eu teria desistido já nessa parte! Quando eu era criança, viviam me dizendo como o John Candy (ou, como eu chamava ele na época, aquele cara gordinho e loiro) era engraçado e eu tinha visto um filme com ele e achado um porre, então meio que criei uma birra com a cara dele. O filme que eu achei um porre era, por incrível que pareça, Quem Vê Cara Não Vê Coração (1989), um dos piores filmes de John Hughes. Vendo Antes Só do que Mal Acompanhado eu consegui perder um pouco esse nojo que eu tenho dele, afinal naquela época eu achava Tootsie um porre, então meu eu infantil não é parâmetro de bom gosto.

Neal consegue chegar no aeroporto, onde encontra novamente com John Candy, que aqui se chama Del Griffith. Del é um vendedor de argolas para chuveiro que tem como hobby falar enlouquecidamente. Os dois acabam sentados lado a lado no avião (depois que Neal, sem muitas explicações, perde o seu acento na primeira classe e é transferido para a econômica), onde Del fala sem parar. Está caindo uma nevasca e o avião é obrigado a pousar em Wichita, no Kansas.

Todos os vôos são cancelados e os acabam tendo que passar a noite em um hotel, no mesmo quarto, na mesma cama.

 

No dia seguinte (depois de Neal surtar, quase fazer Del chorar e de um "homenlher" invadir o quarto e roubar todo o dinheiro deles), os dois resolvem pegar um trem. Para alívio de Neal e tristeza de Del, eles acabam tendo que se sentar separados. No meio do caminho, o trem estraga e eles se reencontram, onde precisam caminhar até a próxima parada de ônibus. O ônibus só vai até St. Louis, Missouri. Lá, Del tem a brilhante idéia de vender suas argolas como se fossem brincos, para que eles tenham um pouco de dinheiro. Neal diz a Del que é melhor eles se separarem, e o cara gordinho e loiro fica triste de novo, mas tudo bem, porque ele é um chato de galochas.

Existe um fato sobre Del que é bem importante mencionar. Ele está sempre falando da esposa de maneira apaixonada e até carrega uma foto dela para cima e para baixo. Esse é o lado carinhoso de Del. Ele é o tipo de cara para cima que parece nunca se estressar com nada e que sempre tem uma solução para tudo. Já Neal não podia ser mais diferente. Ele é rude a maioria das vezes, se estressa facilmente e só vê o lado negativo das situações. Vou mudar meu nome para Neal e pintar o cabelo de branco.

clip_image008E então serei sexy

Neal aluga um carro, e quando chega na vaga onde este deveria estar (depois de ir de ônibus, porque a garagem ficava na estrada) ele descobre que o carro não está lá e tem que voltar pela beira da estrada, onde ele é quase atropelado e perde seu chapéu de Frank Sinatra. Obviamente, Del conseguiu um carro e oferece para ele uma carona. Os dois planejam ir até Chicago, mas Del acaba estragando tudo de novo. Ele joga um cigarro aceso no banco de trás, sem querer, e o banco começa a pegar fogo sem que ninguém note. O carro fica quente e Del tenta tirar o casaco, só que fica preso e o carro quase bate. Sem perceber, ele vai para a pista contrária onde a cena mais nonsense e a la Tim Burton do filme acontece:

 

O que eu adoro nessa cena é como o carro está pegando fogo o tempo todo e ninguém nota! Dá até para ver a fumaça algumas vezes. Nonsense? Sim. Mas muito engraçada! Os dois passam a noite em outro hotel e no dia seguinte seguem viagem com o carro todo queimado de qualquer forma. Um policial os para e leva o carro embora. Del conhece um caminhoneiro, que oferece uma carona mas, como Del diz, ele é "um pouco esquisito com o fato de levar pessoas na cabine", então os dois precisam ir atrás, no frio.

Eles chegam a uma estação de trem, onde cada um vai para seu lado. Voltando para casa, Neal sente falta de Del e pela primeira vez em todo o filme ele vê o que está por trás de toda a alegria e descontração do companheiro de viagem. Sempre que Del menciona sua esposa, Marie, ele parece um pouco melancólico e saudoso. Em uma cena que Neal fala que tem estado muito tempo longe de casa, Del até chega a dizer "Eu não vou lá há anos". Quando Neal se dá conta dessas coisas, volta para buscar o amigo, que ainda está sentado na estação de trem. Neal pergunta "Você disse que estava indo para casa... O que está fazendo aqui?", ao que Del responde "Não tenho casa... Marie está morta há 8 anos...".

Os dois vão para a casa de Neal, onde sua esposa que passou o filme todo fazendo cara de "onde está meu Oscar?" os recebe, todo mundo fica feliz, zoom na cara triste de John Candy, fim.

clip_image010"Eu sou boa atriz... Eu juro..."

Esse é o final de filme de comédia mais depressivo de toda a história da humanidade! Sou só eu que me dou conta disso? O cara não tem família, a mulher que ele ama morreu e ele é a pessoa mais insuportável da face da Terra e ninguém quer ser amigo dele... Minha nossa... E pra completar ele ainda tem que ver o Steve Martin beijando a mulher de cera e esfregando a felicidade dele na cara de todo mundo! "Olhem para mim, eu sou um pessimista de merda que fez um remake imbecil de A Pantera Cor de Rosa e mesmo assim tenho quem me ame! Lero lero!"

clip_image011E eu entendo o porquê... Sexy...

Este filme é um alívio para a alma, em um mundo onde todos os filmes (que involvem mais de um homem no mesmo lugar) falam sobre como a vida de casado é uma porcaria e como mulheres só servem para incomodar. Ambos os personagens demonstram uma devoção pela família e Del até diz que seu lema é "Goste do seu trabalho, ame sua esposa".

Neal é pessimista e por isso coisas ruins acontecem na volta dele, sem que ele se dê conta que o principal culpado disso é ele mesmo. As coisas só são ruins para Del quando os dois estão juntos, mas isso não impede que ele ajude Neal quando precisa. Se não fosse por Del, Neal teria ficado no aeroporto esperando que uma oportunidade caísse no seu colo.

Além disso, o filme traz pequenas (mas memoráveis) participações especiais, como Edie McClurg (a Castidade de Elvira, a Rainha das Trevas, e a secretária Grace de Curtindo a Vida Adoidado), interpretando uma simpática atendente da empresa de aluguel de carros. Um pequeno Matthew Lawrence (Uma Babá Quase Perfeita) como o filho de Neal que prefere ser abraçado do que levar beliscões. Larry Hankin (o Mr. Heckles, do Friends) como um esquisitíssimo motorista de taxi. E, é claro, Ben Stein ("Anyone? Something-d-o-o economics. Voodoo economics"), em uma das cenas mais simples e engraçadas do filme:

 

Eu adoro esse cara!

Antes Só do que Mal Acompanhado é um filme leve, divertido e melancólico nas partes certas, que ensina que não devemos julgar as pessoas só porque elas são diferentes de nós. É impossível não comparar este filme com Curtindo a Vida Adoidado, já que ambos falam sobre ver o lado positivo da vida e aproveitar cada momento como se fosse único.  Como diria Ferris: "A vida passa muito depressa. Se não parármos para curtí-la, podemos perdê-la".

Planes, Trains & Automobiles (1987)
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Steve Martin, John Candy

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