terça-feira, 30 de março de 2010

Mulher Nota 1000

Atenção: contém spoilers

Ah! Os anos 80... Época dos cortes de cabelo escandalosos, da lambada, da Cindy Lauper, do Michael Jackson negro, das polainas e do pogobol. Nasci no final de tudo isso, em 1987, e se existe uma época onde eu gostaria de ter vivido é essa... O que vocês não sabem é que eu vivi nessa época, mesmo atrasada, ouvindo Cindy Lauper a todo volume. Fui uma típica adolescente dos anos 80, só que nos anos 90 e sem o cabelo ridículo. Quando assisto os filmes dessa época, a impressão que tenho é de que tudo era possível. E existe um filme em especial que exala anos 80. A personificação de uma década. Nos anos 60 tínhamos os hippies, nos 70 vieram os punkies. E nos 80 veio:

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Meu Deus, o que falar de Mulher Nota 1000? Posso falar que esse é um dos filmes mais nonsense que já vi em toda a minha vida. Posso falar que o John Hughes devia estar sob o efeito de drogas quando fez ele. Posso falar que o Anthony Michael Hall fez um ótimo trabalho crescendo (e virando o John Smith de Dead Zone). Posso falar que se esse filme ficar mais anos 80, ele explode. Mas nada disso iria explicar a magnetude de Mulher Nota 1000.

Weird Science (e "weird" é a melhor palavra para descrever), foi lançado em 1985 e, segundo a trívia do site IMDb, John Hughes escreveu o roteiro dele em dois dias. Isso faz muito sentido. Gary Wallace (Anthony Michael Hall) e Wyatt Donnelly (Ilan Mitchell-Smith - que largou a "carreira" de ator para virar professor universitário) são amigos nerds que possuem apenas dois objetivos na vida: farrear e arranjar namoradas.

 

Isso fica bem claro logo na primeira cena, onde os dois chegam no ginásio da escola e observam as garotas fazendo ginástica. Gary se emociona e começa a falar todas as coisas que ele gostaria de fazer (basicamente, tomar banho com elas e farrear). Então o Robert Downey Jr. (que nos créditos está só como Robert Downey, imagino que o pai dele não tinha nascido na época ainda) e um outro cara com sobrancelhas tão grandes quanto as dele chegam e baixam as calças de Wyatt e Gary.

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Então começa a abertura do filme, que não seria nada de mais se não fosse por isso:

Oingo Boingo! A Oingo Boingo era uma banda dos anos 70 e 80... Mas isso não importa, realmente, o que importa é que uma das pessoinhas dessa banda virou um dos compositores de trilha sonora mais legais de hoje em dia: Danny Elfman. Para quem não sabe, Danny Elfman é o cara por trás da maioria das trilhas do Tim Burton. Acho legal saber que a pessoa que compôs essa música também compôs isso:

Depois da abertura, encontramos os dois protagonistas no quarto de Wyatt. Os pais viajaram no final de semana, deixando ele sob os cuidados de Chet (Bill Paxton), o irmão psicopata.

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Os dois estão assistindo Bride of Frankenstein (1935) e Gary tem uma idéia: criar uma mulher virtual para poderem fazer perguntas sobre sexo para ela. Nesta parte, Wyatt pergunta "E a sua garota no Canadá?" ao que Gary responde "Ela mora no Canadá! Não tem moral nenhuma!" Esse é um dos pontos fortes do filme. Apesar da histórias não fazer sentido nenhum, os personagens conseguem se manter reais. Quando Gary fala sobre sua suposta namorada canadense ele deixa bem claro quem ele é: um adolescente nerd e ingênuo, que só quer se encaixar no mundo onde ele vive - como quase todos personagens do John Hughes e todos os adolescentes da face da Terra. Gary inventou uma namorada para se sentir bem e nem ao menos sabe do que está falando.

Os dois resolvem criar a mulher ideal usando um Memotech MTX-512 com uma expansão FDX. Isso mesmo... Um Memotech MTX-512 com uma expansão FDX... Não tenho a mínima idéia do que um um Memotech MTX512 com uma expansão FDX é, mas se serve pra criar uma escrava sexual digital, com poderes mágicos e a cara da Kelly LeBrock, eu quero (se bem que eu prefiro o Hugh Jackman). De que me adiantou pagar os olhos da cara por um Dell Inspiron 1545 se ele não faz esse tipo de coisa! Estou muito desapontada.

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clip_image012It's the Memotech, bitch!

A cena a seguir é tão louca e inexplicável, que eu nem vou me dar ao trabalho de descrever ela.

E o que eles querem fazer com ela? Tomar banho com ela, é claro! Não consigo entender qual a fixação desses dois com tomar banho.

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Imagino que, na época, tenha sido um grande marco tomar banho com a Kelly LeBrock... Mas quem deve ser orgulhar disso é ela, afinal...

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Depois de tomarem banho (sonho número um conquistado) e nomearem sua nova escrava sexual de Lisa, eles partem para a segunda parte do plano: farrear!

Eles vão para um bar muito esquisito no qual Gary fica bêbado e começa a falar com uma voz irritante pelo resto da cena. Eles voltam para casa, Chet chantageia Wyatt por ele ter voltado tarde e bebido, Lisa dá uns amassos com o Wyatt, que acorda no dia seguinte usando as calcinhas dela.

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Os três vão até o shopping onde os garotos são incomodados por Robert Downey Jr. de novo, enquanto Lisa vai a uma loja de lingerie. Essa é a melhor cena do filme, mesmo durando menos de um minuto: Ela pergunta para a vendedora (que aparenta ser velha de mais para trabalhar como atendente em uma loja de lingerie, mas tudo bem) "Se você fosse um garoto de 15 anos, isso te excitaria?"

clip_image019Regra número um: qualquer coisa excitaria um garoto de 15 anos

Quando ela está indo embora do shopping, os bullies seguem ela e se surpreendem ao descobrir que aquela mulher linda está com os nerds. Ela diz para eles que terá uma festa na casa de Wyatt e que estão todos convidados. Lisa vai à casa de Gary para convencer os pais dele de que o garoto precisa farrear bastante. Mas ela não consegue...

De noite, a casa lota de adolescentes retardados, incluindo Downey Jr., o amigo sobrancelhudo e as namoradas deles (por quem os nerds estão apaixonados). Wyatt e Gary ficam trancados no banheiro, porque estão nervosos de mais para ir dançar. Nisso chegam as namoradas, que precisam usar o banheiro. Eles acham os dois fofinhos, apesar de Wyatt ter poluído o banheiro de tanto peidar. Sexy.

Robert e o amigo propõem trocar Lisa por suas namoradas (eu me lembro de quando fizeram isso comigo), mas Gary e Wyatt têm uma idéia melhor: criar uma nova mulher usando o seu super Memotech MTX-512 com uma expansão FDX! Aqui acontece mais uma cena maluca, que nem a primeira, com pessoas e objetos sendo arrastados por um vento bizarro, o céu ficando vermelho e um piano passando por uma chaminé bem menor do que ele. Ah, e isso:

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Quando a maluquice acaba (se é que isso é possível), eles descobrem que esqueceram de colocar a boneca (vide vídeo da primeira vez, e os fios ficam em cima de uma revista que tem um (er) míssil (?) na capa. E ai um míssil gigantesco aparece no meio da casa, quebrando tudo o que não foi quebrado antes. Então você pensa “ok, acabou, certo?” Errado! Lisa quer que os garotos sejam populares, então ela faz uma gangue de motoqueiros mutantes (!!) invadirem a casa, quebrando mais um pouco as coisas. Um deles, por sinal, é o irmão bonito do Sloth.

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Ao invés de lutarem, Gary e Wyatt se escondem no armário. Mas os motoqueiros quebram a parede e arrancam os dois lá de dentro. Gary vira homem (ao sair do armário?) e ameaça os motoqueiros com uma arma – que eu acho que é a que Lisa usa quando ameaça os pais dele. Os motoqueiros pedem desculpas, muito educados, e vão embora. E agora Gary e Wyatt são deuses que deixam as garotas excitadas (bem, mas isso Anthony Michael Hall já fazia!). As duas (ex) namoradas ficam loucas por eles, todo mundo vai embora, os nerds dormem com as patricinhas (literalmente dormem, ninguém faz sexo nesse filme) e tudo fica bem... SERÁ?

Chet aparece no dia seguinte – onde exatamente ele estava? – e estraga tudo. Quando ele vê a casa destruída, ele quer matar os garotos, mas Lisa intervêm. Os nerds levam suas novas namoradas para casa e Lisa transforma Chet em uma mistura de sapo com Jabba, the Hut.

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Quando os garotos voltam, se dão conta de que terão que conversar com Lisa sobre as namoradas já que, tecnicamente, ELA é namorada deles. Mas Lisa diz que já sabe de tudo e que isso era o que ela sempre quis pra eles. Então, em uma cena cheia de lágrimas, ela vai embora. Chet volta ao normal, fica todo bonzinho, a casa se conserta sozinha, o míssil vai embora, os pais de Wyatt voltam e tudo fica bem... SERÁ?

Na escola, durante a educação física, os alunos (todos meninos) estão esperando pela nova professora de educação física... Lisa TAN DAN DAN.

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Fim.

Mais uma vez John Hughes repete a lição, afirmando que tudo que temos que fazer é parar de se preocupar tanto e curtir. Eu queria que ele parasse de fazer isso! Lisa é uma versão feminina de Ferris Bueller. A diferença é que aqui, para poderem "curtir a vida adoidado" os personagens precisam mudar quem eles são (de nerds a seguradores de armas?) e não apenas fazer coisas fora do comum.

Weird Science é um conto de fadas moderno para garotos e é um dos filmes mais anos 80 e mais nonsense que já vi em toda a minha vida. A história não faz sentido, a tecnologia não faz sentido, as cenas não fazem sentido... Enfim. Mas isso não estraga o resultado final. Apesar da loucura geral, ele diverte, é leve de se assistir e digno da Sessão da Tarde.

Weird Science (1985)
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Anthony Michael Hall, Kelly LeBrock, Ilan Mitchell-Smith, Bill Paxton

sábado, 20 de março de 2010

Antes Só do que Mal Acompanhado

Atenção: Contém spoilers

Você já teve um daqueles dias, onde nada parece dar certo e dá uma vontade muito grande de encarnar o Michael Douglas e quebrar tudo? E ai você diz aquela frase mágica que sabe que não deveria dizer, mas diz assim mesmo: "Não tem como ficar pior!" E ai você conhece o John Candy e descobre que tudo sempre pode ficar pior. O filme do Especial John Hughes desta semana é:

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Em 1987, a saga adolescente de John Hughes acabou, dando espaço para filmes mais diversificados. A Malandrinha, de 1991, foi seu último trabalho como diretor, passando a se dedicar completamente a carreira de roteirista. Antes Só do que Mal Acompanhado (1987) foi seu primeiro trabalho "adulto" e conta a saga de Neal Page que precisa ir para Chicago passar o Dia de Ação de Graças com a família. O filme traz Steve Martin no papel principal e John Candy como o homem bonzinho e sem noção que consegue deixar a situação ainda pior. Um filme de John Hughes com John Candy? Abraços e Docinho? Deve ser um filme muito bonitinho... De qualquer forma, deixe-me dizer uma coisa sobre Steve Martin. É, eu sei que todo mundo ama ele, é impossível não amar, mas eu sinto algo a mais por ele. Eu o acho delicioso, pronto, falei. É, eu sei que ele tem um nariz de bunda e um cabelo branco desde os 3 anos de idade, mas para mim ele é absurdamente sexy.

clip_image002Make me explode although you know the route to go to sex me slow

Tendo deixado isso bem claro, volto ao filme. Neal trabalha com marketing e está em uma reunião em Nova York. Dali a dois dias é Ação de Graças e ele prometeu a esposa que iria chegar em casa a tempo. As coisas já começam a dar errado no início, quando o chefe de Neal demora horrores para olhar um papel e no fim a reunião se mostra completamente inútil, já que ele diz que só tomará uma decisão depois do feriado. Que pessoa agradável.

Neal corre para pegar um taxi e acaba esquecendo suas luvas no escritório. Na rua, ele luta com um homem para... Ai meu Deus, é o Kevin Bacon! Ok, ok... Os dois correm para conseguir um taxi, mas Neal tropeça em uma mala e Bacon sai vitorioso.

clip_image004Pena que a gente não pode dizer a mesma coisa da carreira dele

Neal consegue outro taxi, mas acaba discutindo com um homem que chegou junto com ele. Os dois discutem, Neal oferece dinheiro, o homem aceita, mas outro chega e leva o taxi dos dois. Neal persegue o carro gritando "Ei, esse táxi é meu!", abre a porta e:

clip_image006Tan dan daaaaan!

Eu teria desistido já nessa parte! Quando eu era criança, viviam me dizendo como o John Candy (ou, como eu chamava ele na época, aquele cara gordinho e loiro) era engraçado e eu tinha visto um filme com ele e achado um porre, então meio que criei uma birra com a cara dele. O filme que eu achei um porre era, por incrível que pareça, Quem Vê Cara Não Vê Coração (1989), um dos piores filmes de John Hughes. Vendo Antes Só do que Mal Acompanhado eu consegui perder um pouco esse nojo que eu tenho dele, afinal naquela época eu achava Tootsie um porre, então meu eu infantil não é parâmetro de bom gosto.

Neal consegue chegar no aeroporto, onde encontra novamente com John Candy, que aqui se chama Del Griffith. Del é um vendedor de argolas para chuveiro que tem como hobby falar enlouquecidamente. Os dois acabam sentados lado a lado no avião (depois que Neal, sem muitas explicações, perde o seu acento na primeira classe e é transferido para a econômica), onde Del fala sem parar. Está caindo uma nevasca e o avião é obrigado a pousar em Wichita, no Kansas.

Todos os vôos são cancelados e os acabam tendo que passar a noite em um hotel, no mesmo quarto, na mesma cama.

 

No dia seguinte (depois de Neal surtar, quase fazer Del chorar e de um "homenlher" invadir o quarto e roubar todo o dinheiro deles), os dois resolvem pegar um trem. Para alívio de Neal e tristeza de Del, eles acabam tendo que se sentar separados. No meio do caminho, o trem estraga e eles se reencontram, onde precisam caminhar até a próxima parada de ônibus. O ônibus só vai até St. Louis, Missouri. Lá, Del tem a brilhante idéia de vender suas argolas como se fossem brincos, para que eles tenham um pouco de dinheiro. Neal diz a Del que é melhor eles se separarem, e o cara gordinho e loiro fica triste de novo, mas tudo bem, porque ele é um chato de galochas.

Existe um fato sobre Del que é bem importante mencionar. Ele está sempre falando da esposa de maneira apaixonada e até carrega uma foto dela para cima e para baixo. Esse é o lado carinhoso de Del. Ele é o tipo de cara para cima que parece nunca se estressar com nada e que sempre tem uma solução para tudo. Já Neal não podia ser mais diferente. Ele é rude a maioria das vezes, se estressa facilmente e só vê o lado negativo das situações. Vou mudar meu nome para Neal e pintar o cabelo de branco.

clip_image008E então serei sexy

Neal aluga um carro, e quando chega na vaga onde este deveria estar (depois de ir de ônibus, porque a garagem ficava na estrada) ele descobre que o carro não está lá e tem que voltar pela beira da estrada, onde ele é quase atropelado e perde seu chapéu de Frank Sinatra. Obviamente, Del conseguiu um carro e oferece para ele uma carona. Os dois planejam ir até Chicago, mas Del acaba estragando tudo de novo. Ele joga um cigarro aceso no banco de trás, sem querer, e o banco começa a pegar fogo sem que ninguém note. O carro fica quente e Del tenta tirar o casaco, só que fica preso e o carro quase bate. Sem perceber, ele vai para a pista contrária onde a cena mais nonsense e a la Tim Burton do filme acontece:

 

O que eu adoro nessa cena é como o carro está pegando fogo o tempo todo e ninguém nota! Dá até para ver a fumaça algumas vezes. Nonsense? Sim. Mas muito engraçada! Os dois passam a noite em outro hotel e no dia seguinte seguem viagem com o carro todo queimado de qualquer forma. Um policial os para e leva o carro embora. Del conhece um caminhoneiro, que oferece uma carona mas, como Del diz, ele é "um pouco esquisito com o fato de levar pessoas na cabine", então os dois precisam ir atrás, no frio.

Eles chegam a uma estação de trem, onde cada um vai para seu lado. Voltando para casa, Neal sente falta de Del e pela primeira vez em todo o filme ele vê o que está por trás de toda a alegria e descontração do companheiro de viagem. Sempre que Del menciona sua esposa, Marie, ele parece um pouco melancólico e saudoso. Em uma cena que Neal fala que tem estado muito tempo longe de casa, Del até chega a dizer "Eu não vou lá há anos". Quando Neal se dá conta dessas coisas, volta para buscar o amigo, que ainda está sentado na estação de trem. Neal pergunta "Você disse que estava indo para casa... O que está fazendo aqui?", ao que Del responde "Não tenho casa... Marie está morta há 8 anos...".

Os dois vão para a casa de Neal, onde sua esposa que passou o filme todo fazendo cara de "onde está meu Oscar?" os recebe, todo mundo fica feliz, zoom na cara triste de John Candy, fim.

clip_image010"Eu sou boa atriz... Eu juro..."

Esse é o final de filme de comédia mais depressivo de toda a história da humanidade! Sou só eu que me dou conta disso? O cara não tem família, a mulher que ele ama morreu e ele é a pessoa mais insuportável da face da Terra e ninguém quer ser amigo dele... Minha nossa... E pra completar ele ainda tem que ver o Steve Martin beijando a mulher de cera e esfregando a felicidade dele na cara de todo mundo! "Olhem para mim, eu sou um pessimista de merda que fez um remake imbecil de A Pantera Cor de Rosa e mesmo assim tenho quem me ame! Lero lero!"

clip_image011E eu entendo o porquê... Sexy...

Este filme é um alívio para a alma, em um mundo onde todos os filmes (que involvem mais de um homem no mesmo lugar) falam sobre como a vida de casado é uma porcaria e como mulheres só servem para incomodar. Ambos os personagens demonstram uma devoção pela família e Del até diz que seu lema é "Goste do seu trabalho, ame sua esposa".

Neal é pessimista e por isso coisas ruins acontecem na volta dele, sem que ele se dê conta que o principal culpado disso é ele mesmo. As coisas só são ruins para Del quando os dois estão juntos, mas isso não impede que ele ajude Neal quando precisa. Se não fosse por Del, Neal teria ficado no aeroporto esperando que uma oportunidade caísse no seu colo.

Além disso, o filme traz pequenas (mas memoráveis) participações especiais, como Edie McClurg (a Castidade de Elvira, a Rainha das Trevas, e a secretária Grace de Curtindo a Vida Adoidado), interpretando uma simpática atendente da empresa de aluguel de carros. Um pequeno Matthew Lawrence (Uma Babá Quase Perfeita) como o filho de Neal que prefere ser abraçado do que levar beliscões. Larry Hankin (o Mr. Heckles, do Friends) como um esquisitíssimo motorista de taxi. E, é claro, Ben Stein ("Anyone? Something-d-o-o economics. Voodoo economics"), em uma das cenas mais simples e engraçadas do filme:

 

Eu adoro esse cara!

Antes Só do que Mal Acompanhado é um filme leve, divertido e melancólico nas partes certas, que ensina que não devemos julgar as pessoas só porque elas são diferentes de nós. É impossível não comparar este filme com Curtindo a Vida Adoidado, já que ambos falam sobre ver o lado positivo da vida e aproveitar cada momento como se fosse único.  Como diria Ferris: "A vida passa muito depressa. Se não parármos para curtí-la, podemos perdê-la".

Planes, Trains & Automobiles (1987)
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Steve Martin, John Candy

segunda-feira, 15 de março de 2010

Curtindo a Vida Adoidado

Atenção: Contém spoilers

Gosto de filmes. Imagino que isso já tenha ficado muito mais do que claro para vocês. Existem vários responsáveis por isso, desde filmes da Disney até a Elvira, de Sessão da Tarde à Cinema em Casa, do meu primo Christian à Meryl Streep. Mas existe uma pessoa que praticamente construiu a fundação do meu vício por cinema.

O que os filmes Férias Frustradas, Esqueceram de Mim, Beethoven, Clube dos Cinco, A Malandrinha, Quem Vê Cara Não Vê Coração, Curtindo a Vida Adoidado, Mulher Nota Mil, A Garota Rosa-Shocking, Gatinhas e Gatões, 101 Dálmatas, Antes Só do que Mal Acompanhado, Dennis o Pimentinha, Ninguém Segura Esse Bebê e Flubber têm em comum? Todos eles são filmes que marcaram a vida de muitas pessoas, incluindo a minha... Mas não é essa a resposta da minha pergunta. A resposta que eu quero tem apenas duas palavras que, mesmo sendo pequenas, tiveram um grande impacto em mim e mudaram minha vida por completo: JOHN HUGHES.

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Quando você pensa em anos 80, vocês pensa em John Hughes. O diretor, roteirista e produtor nascido em 1950, em Michigan, escreveu o roteiro de quarenta filmes e dirigiu oito. Hughes praticamente inventou uma nova maneira de fazer filmes para adolescentes! Ele faleceu em 2009, aos 59 anos. É por isso que o Judas Dançarino orgulhosamente apresenta o Especial John Hughes!

E para começar, nada melhor do que um dos maiores clássicos do gênero teen de todos os tempos. Um filme que nos ensinou que existe vida fora do colégio e que devemos aproveitá-la ao máximo. O filme desta semana é: Curtindo a Vida Adoidado!

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Para início de conversa, o que diabos é esse título? É, é, faz sentido, mas também faz o filme ficar com cara de "super aventuras maluquinha e geniais!". De qualquer forma, Curtindo a Vida Adoidado é um filme estadunidense de 1986, escrito e dirigido por John Hughes. Com um Matthew Broderick com cara de nenê como o personagem título, o filme mostra as "loucas aventuras" de três adolescentes que resolvem matar aula.

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Ferris Bueller (Matthew Broderick) é um garoto rico e mimado, que um dia resolve matar aula em grande estilo. O filme começa com os pais de Ferris o encontrando "muito doente" na cama e, apesar de ele estar obviamente fingindo, os dois acreditam e o fazem ficar em casa ao invés de ir à aula. Gosto como Ferris parece desapontado com os pais por terem acreditado. É quase como se ele quisesse ser pego. É nessa cena que conhecemos Jeanie, irmã de Ferris, que o odeia porque nunca é pego. "Se eu estivesse sangrando pelos olhos vocês me fariam ir à aula", diz ela indignada. Jeanie é interpretada pela pré Dirty Dance Jennifer Grey, muito antes de ela tirar o nariz e desaparecer do cinema.

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Depois disso temos o que é, para mim, a melhor cena de todo o filme:

 

É simplesmente genial! Isso é a melhor representação de escola que já existiu! Hoje em dia temos filmes como American Pie (sexo), Segundas Intenções (sexo) e Pânico (sexo e morte) tentando representar a juventude, mas ninguém se dá conta que ser adolescente não é fazer sexo enlouquecidamente e ter uma vida interessante e fantástica (pelo menos para mim não era). Ser adolescente é ir para a aula obrigado, morrer de tédio, ser humilhado e voltar para casa onde ninguém se importa se você teve um dia de merda afinal, nós não temos contas para pagar nem filhos com quem se preocupar, então para que todo o stress?

Voltando ao filme. Ferris tenta convencer seu amigo Cameron Frye (Alan Ruck) a se juntar a ele, mas Cameron afirma que está realmente muito doente e que não pode sair de casa. Ferris insiste e o amigo acaba indo, depois de discutir intensamente consigo mesmo.

clip_image005Cameron: He'll keep calling me, he'll keep calling me until I come over. He'll make me feel guilty. This is uh... This is ridiculous, ok I'll go, I'll go, I'll go, I'll go, I'll go. What - I'LL GO. Shit.

Hoje, vendo o filme com maior atenção e com mais maturidade, reparo uma coisa que nunca havia me dado conta: Cameron e Ferris são, praticamente, duas partes opostas da personalidade de uma só pessoa. Enquanto Ferris quer viver sua vida intensamente e aproveitar cada momento dela, Cameron se nega a viver e prefere reclamar a agir. É... Eu sou o Cameron.

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Os dois adolescentes enganam o diretor da escola, Rooney (interpretado pelo excelente Jeffrey Jones), para poder tirar a namorada de Ferris, Sloane (Mia Sara), da escola. Os três vão embora na Ferrari do pai de Cameron, que Ferris fez questão de roubar. Eles deixam o carro em uma garagem, onde o atendente resolve aproveitar a oportunidade e passear na Ferrari.

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Eles fazem, basicamente, quatro coisas:

01) Almoçar em um restaurante caro: Para entrar em um restaurante chique Ferris finge ser o Rei da Linguiça, ou algo parecido, e humilha um maître. Depois disso, os três vão embora, sem que fique explicado como foi que três fedelhos pagaram a conta.

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02) Ir ao The Art Institute of Chicago: essa é uma das cenas mais bonitas e o próprio John Hughes admite que só colocou ela no filme para poder mostrar o museu. Nessa cena, Cameron encara um quadro onde é representada uma menininha de mãos dadas com a mãe. A câmera da um close em Cameron e depois na menina, cada vez se aproximando mais. Quando mais próximo, menos visível. Aqui vocês podem assistir um trecho do comentário do dvd, feito por Hughes:

 

03) Ir à um jogo de baseball: "Hey, Cameron! Você notou que se a gente seguisse as regras, estaríamos na aula de ginástica agora?" Os três assistem à um jogo e até aparecem na TV. Uma cena que em nada adiciona e eu nem me lembrava que ela existia até escrever esse texto.

04) Entrar de penetra em um desfile: Essa é a cena mais famosa do filme. Cameron diz que não fez nada interessante o dia todo e Ferris decide invadir um desfile que está acontecendo na cidade e "cantar" (na verdade ele está dublando)Danke Schoen. Essa é a cena que prova definitivamente que Ferris pode fazer qualquer coisa que quiser, sem nunca se dar mal. Lembro-me de assistir essa cena quando criança e pensar que devia ser o máximo poder fazer o que bem entender. Também me lembro de perguntar para a minha avó qual era a segunda música que o Ferris cantava (Twist and Shout) e ficar cantando - ou embromando - na cozinha por horas. Não consegui achar o vídeo completo, com Danke Schoen e Twist and Shout, então vai só The Beatles mesmo:

 

Enquanto os três se divertem, Rooney e Jeanie tentando de todas as maneiras desmascarar Ferris. Todos os estudantes do colégio parecem venerar Ferris, o que deixa tanto a irmã quanto o diretor com mais raiva ainda da situação. Ambos estão obcecados por ele a ponto de pararem a própria vida só para poder destruir o garoto. Jeanie está tão cega porque seu irmão matou aula sem ser pego, que ela mesma mata aula sem se dar conta. Depois de encontrar um garoto que está recolhendo doações para conseguir um rim novo para Ferris, Jeanie vai para casa provar que ele estava fingindo.

Já Rooney, deixa seu trabalho de lado e sai pela cidade a procura do rapaz, chegando a invadir a casa dele. É nesse ponto que os dois antagonistas se encontram. Rooney tenta invadir a casa de Ferris, sendo atacado pelo cachorro da família e perdendo um sapato no processo. Quando finalmente entra na casa, Jeanie o confunde com um assaltante e lhe chuta a cara. Ela corre para seu quarto, onde chama a polícia.

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Rooney vai embora e Jeanie é presa por passar trote. Na delegacia, ela conhece um drogado Charles Sheen, que lhe dá uma grande lição de moral ela deveria passar “mais tempo lidando consigo mesma e menos se preocupando com o que seu irmão faz".

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Os três adolescentes voltam para pegar o carro e descobrem que os atendentes andaram nele. Cameron surta e os três voltam para a casa. Lá, colocam o carro em uma espécie de pedestal, com a ré ligada, para voltar o velocímetro. Quando eles reparam que isso não vai funcionar, Cameron chuta o carro enquanto faz o discurso que irá mudar sua vida. O carro cai pela janela e se destrói e ele resolve se impor ao pai (dominador e que ama mais o tal carro do que a própria família) e finalmente tomar as rédeas da própria vida.

clip_image014Cameron: I am not going to sit on my ass as the events that affect me unfold to determine the course of my life. I'm going to take a stand. I'm going to defend it. Right or wrong, I'm going to defend it.

Depois disso, Ferris vai para casa, encontra sua irmã (de carro) no caminho e os dois correm para ver quem chega primeiro. Ele ganha, mas é pego por Rooney antes de conseguir entrar em casa. E é a vez de Jeanie mostrar que, assim como Cameron, ela também entendeu a moral do filme. Ela protege o irmão, deixando Rooney com cara de idiota na rua. Ferris consegue chegar à cama antes que os pais notem que ele não estava, Rooney é atacado pelo cachorro de novo e acaba voltando de carona no ônibus escolar.

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Curtindo a Vida Adoidado  é um filme sobre redenção. Sobre aproveitar a vida enquanto a gente ainda pode, sem se preocupar com os outros. Ferris é a personificação desta moral. Ele não possui nenhum tipo de preocupação e por consequência, todos o amam. É como se ele fosse um deus que estivesse ali para guiar a vida dessas pessoas (Cameron, Rooney e Jeanie) e até atrevo a dizer que o personagem de Charles Sheen nada mais é do que uma das muitas imagens que esse deus possui.

(Será que Ferris Bueller e Bela Lugosi são a mesma pessoa?)

Jeanie vive tão preocupada com o que os outros pensam e fazem que acaba não vivendo sua própria vida. Rooney só sabe seguir regras e provavelmente nunca se divertiu de verdade. E Cameron vive com medo de seu pai e acaba se fechando para qualquer possibilidade. Em Clube do Cinco (também escrito e dirigido por Hughes), uma das personagens diz "Quando nós crescemos, nosso coração morre" e é contra isso que Ferris Bueller luta. Curtindo a Vida Adoidado é mais do que um filme, é uma lição de vida que todos nós deveríamos seguir.

Ferris Bueller's Day Off (1986)
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Jennifer Grey

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