segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Epitafios – A Primeira Temporada

Atenção: contém spoilers

Para uma produção ser realmente boa, um dos principais requisitos é que seus elementos (roteiro, atuações, trilha, fotografia, etc.) estejam em harmonia. Existem casos onde um fator excepcionalmente bom pode compensar um ruim, como por exemplo o filme O Enigma de Kaspar Hauser, onde um roteiro inteligente contrabalança as atuações inexperientes. Já Carrie, A Estranha tem um péssimo roteiro adaptado e uma edição medíocre, mas as atuações, a edição de arte e a trilha sonora se destacam tanto que o filme cumpre seu papel. Mas existem também situações onde mesmo uma produção muito boa não sustenta falhas gigantescas de roteiro. Este é o caso do ótimo seriado policial argentino:

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É muito difícil um seriado ter a capacidade de prender o espectador até o fim. Sendo este seriado uma produção argentina de baixo orçamento, a dificuldade triplica. Epitafios consegue esta façanha e tem tudo para entrar para a lista de melhores seriados investigativos de todos os tempos.

Seu personagem principal, Renzo Márquez, é carismático e sustenta uma das principais características das produções argentinas: ele é uma pessoa comum como você e eu. O “vilão” é o Jigsaw argentino: ele prevê todos os passos de suas vítimas (como quando ele criou um plano onde era necessário estar ventando no exato momento em que um tiro acertasse uma janela e que o vento chegasse até sua vítima e esta pegasse fogo) sem cometer nenhum erro. Mesmo com planos mirabolantes, o assassino também é carismático, até mais do que os outros personagens.

clip_image002Renzo: Hijo de puta!

A trilha sonora se destaca pelas músicas retiradas da ópera Carmen de Bizet, que tocam sempre que o assassino aparece. A fotografia e a edição de arte são excelentes, passando a sensação de cotidiano, de algo comum, e ao mesmo tempo mantém um clima de suspense arrebatador.

As atuações são medianas, com exceção de Cecília Roth (a policial Marina Segal), Villanueva Cosse (o pai de Renzo) e Antonio Birabent (Bruno Costas, o assassino). Seus pontos altos são o plot, que é extremamente envolvente e o assassino como um personagem ativo na trama.

Se Epitafios possui tantos pontos altos, o que estraga a série?

clip_image003Laura: Dios! ¿Por qué somos tan incapaces?

Renzo: Hija de puta!

A resposta é o roteiro, que dá a sensação de ter sido feito com muita pressa, sem que houvesse atenção aos detalhes. Ele tem muitas bobagens em termos de história, coisas que poderiam ter sido evitadas. Os exemplos são inúmeros. A incapacidade da polícia de investigar o caso corretamente, Renzo ter em suas mãos um papel com a impressão digital do assassino e isso ser simplesmente ignorado, Bruno quebrando vidros de carros o tempo todo como se fosse a coisa mais fácil e natural do mundo ou então invadindo a casa das pessoas sem nem precisar arrombar a porta. Sem falar na homenagem aos Muppets que aparece no episódio 07:

A primeira temporada começa com polícia investigando a cena de um crime onde foram encontradas lápides falsas, além do corpo da vítima. Em uma delas está o nome de Renzo, um policial afastado do serviço, e da psicóloga Laura Santini.

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O rosto do assassino é mostrado desde o início, mas sua verdadeira identidade só é revelada quase no fim. Ele é Bruno Costas, um ex-agente de viagens que viu o amor de sua vida morrer por culpa da negligencia de uma série de pessoas.

Cinco anos antes do plot principal, um professor foi demitido após ser acusado injustamente de abusar de uma aluna. Ele se revolta quando não recebe o dinheiro que a escola lhe devia e por isso sequestra quatro alunos que tiveram que ficar depois da aula para terminar uma experiência de química. A polícia foi chamada e um dos alunos, Alejandro Mujica, consegue fugir. Como ele consegue nunca é explicado. O professor exige que ele volte ou queimará os outros reféns – que já estão cobertos de gasolina.

Então entra em cena Laura, a psicóloga do professor, que vem para convencer o garoto a voltar. Ela está segura de que é o melhor a ser feito (na verdade ela estava errada, porque ela é uma psicóloga de uma exemplar incompetência). Ele volta, e o professor joga combustível nele também. Enquanto isso, os policiais Renzo e Benitez discutem se devem ou não invadir a escola. Renzo discorda, mas seu parceiro insiste e os dois põem em prática seu plano “infalível”.

Por algum motivo que nunca é revelado, Renzo está em cima do prédio, em um TELHADO DE VIDRO. O vidro quebra, afinal Renzo não é o que se pode chamar de um usuário de Coscarque. COMO eles não sabiam que isso iria acontecer é que é a questão. Mais um exemplo de como roteiro peca. Renzo cai lá de cima, assustando o professor, que derruba o lança-chama que estava em sua mão e os alunos pegam fogo.

O legal é que Alejandro estava solto e poderia muito bem ter fugido, mas decidiu queimar até a morte porque isso era bem mais divertido.

De qualquer forma, Bruno era namorado de Alejandro e decide vingar a morte de seu amor. Planejou friamente uma série de mortes criativas para cada um dos envolvidos, direta ou indiretamente, na morte dele. E para Bruno, os principais responsáveis eram Laura e Renzo. Sua marca registrada é avisar as próximas mortes enviando epitáfios que mostravam a relação da pessoa com o acidente na escola.

A história é extremamente criativa, mas são inúmeras as vezes nas quais o roteiro mal elaborado mexe com a inteligência do espectador. Por exemplo, Bruno entra na casa de Renzo e tenta matar seu pai. Vai embora ileso e, para completar, Renzo expulsa a polícia da cena do crime antes que estes peguem as diversas impressões digitais que o assassino deixou lá.

O crime só começa a ser investigado de verdade quando Marina Segal, a única policial competente da Argentina, é chamada. Em um capítulo e meio ela descobre quem é o assassino e porque ele mata. Para demonstrar sua habilidade superior ela analisa uma foto onde os quatro alunos estão e descobre o reflexo de Bruno na janela de um ônibus. O que ela fez não foi nada espetacular, mas se você considerar que Renzo tenta salvar uma vítima usando um carro quase sem combustível, até que o que ela fez foi surpreendente. Claro, estamos falando de Cecila Roth, que trabalhou em quase todos os filmes do Almodóvar, então não podíamos esperar menos.

clip_image005Marina: Soy una chica muy buena.

Mas a glória dela acaba rápido, já que Bruno consegue ser mais esperto do que Deus. Ele a sequestra e a tortura psicologicamente, a obrigando a matar a própria mãe. Marina fica tão traumatizada que perde a capacidade de atuação e de profissionalismo. Talvez tenha acontecido isso com o Renzo também. E com toda a polícia argentina. Pensando bem, deve ter acontecido com os roteiristas.

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No início da temporada, Bruno obriga Laura e Renzo a terem um caso, se não ele matará o filho dela. Isso acaba criando um vínculo grande entre os dois – que já haviam se relacionado no passado. O motivo só nos é revelado no derradeiro episódio final, que segue a linha de filmes como Seven.

Bruno finge sua morte de uma maneira absurda (nem vamos entrar em detalhes) e prevê que toda a nação vai acreditar nisso. Meses depois ele volta e sequestra Laura. Renzo, com sua incrível competência, sem poder contar com Marina e sua atual abobadagem, vai até onde tudo isso começou – a escola onde Alejandro morreu – na esperança de encontrar a psicóloga. A polícia investiga o local e encontra Laura, amarrada de costas no meio de uma sala, coberta de algum combustível. Bruno fica olhando por uma janela e Renzo atira nele. A janela se quebra e a sala se enche de vento. Acontece que a suposta Laura está coberta de fósforo, uma substância química que pega fogo espontaneamente ao ter contato com o vento.

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Renzo persegue Bruno, que se prende em espécie de cruz e diz que o policial deve perdoá-lo, pois ele tem mais coisas a revelar. Renzo, ignorante como sempre, mata Bruno. Obviamente aquela não era Laura, e esta agora está desaparecida.

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Um mês depois, Renzo recebe um CD que Bruno mandou para ele antes de morrer. Incrível que, mesmo morto, ele é mais inteligente do que a polícia. No CD é revelado o verdadeiro paradeiro de Laura: a casa onde foi encontrada a lápide com o nome dela e dele. Renzo vai até lá e encontra seu cadáver. Ela foi enterrada viva e se Renzo não tivesse matado Bruno, ela teria sobrevivido.

Bruno colocou o nome dois na mesma lápide, prevendo que eles se apaixonariam, que Renzo não conseguiria salvá-la e que este se mataria ao encontrá-la morta. Mas Renzo não faz isso. E pela primeira vez em toda a temporada Bruno estava errado! Renzo apenas vai embora, desconsolado. Fim.

A série tem um ótimo argumento, mas peca muito no roteiro, principalmente em detalhes que deveriam dar credibilidade a história. Laura é a pior psicóloga de todo o universo, chegando ao ponto de falar sobre sua vida pessoal para seus pacientes. Renzo é incapaz de enxergar o óbvio e negligencia métodos policias elementares. Marina fica burra do nada. E Bruno tem a inteligência de um semideus, o que só é perdoável porque ele é gostosinho.

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Talvez tenha sido por causa destas falhas que a série demorou cinco anos para ganhar sua segunda temporada, que aparenta ser superior a sua antecessora. Epitafios é uma excelente série policial, mas não se detenha a detalhes para poder apreciá-la.

Epitafios (2004)
Direção: Jorge Nisco e Alberto Lecchi
Roteiro: Marcelo Slavich e Walter Slavich
Elenco: Julio Chávez, Antonio Birabent, Cecília Roth, Villanueva Cosse e Paola Krum

6 comentários:

bem criativo disse...

Adorei sua crítica Paloma, discordo de poucas observações. Nisso está, para mim, a glória de um filme como Se7en, o roteiro é muito bem amarrado. Morri de rir com a abobadagem de Marina, você é nota 1000. Outra coisa que incomoda é que o único palavrão disponível na argentina é hijo de puta. Incomoda ouvir isso a cada cinco minutos.

bem criativo disse...

Paloma, comecei a ver a segunda temporada, mas não estou à vontade com a presença de um vidente. Curto o estilo policial pela inteligência não pelo componente sobrenatural que na verdade nem deve existir, só se for para se desmascarar. Vc assistiu a essa temporada? O que achou?

Paloma Rodrigues disse...

Olá! Obrigada pelo comentário.

Sim, eu assisti a segunda temporada. Não lembro muito bem dela, faz tempo, mas lembro que achei a segunda bem mais fraca que a primeira. Apesar da primeira temporada ser cheia de erros absurdos, ela tem personagens carismáticos (em adoro a Marina e o Renzo, e amo o Bruno!).

Abraço pra ti!

Jairo Escudero disse...

Estou assistindo a essa série e estou enfrentando muita dificuldade em continuar! É muita incompetência desse Renzo! Além de ele ser, como ele próprio diria, "un hijo de puta"! Também muita soberba dele pra um cara que não consegue capturar o assassino! Estou assistindo em rotação 8X, só pra dizer que vi até o fim! TERRÍVEL!

Jairo Escudero disse...

Consegui terminar!!! Esse Renzo é muito BURRO!! Me arrependo de ter assistido!

Paola Sánchez disse...

Série que durar um tempo curto, mas deixa a sua marca como uma excelente produção. Se eu gosto dele porque ele envolveu o ator Leonardo Sbaraglia, que está agora em uma nova serie 2015, "O hipnotizador", onde ele é um homem solitário e misterioso que prácica hipnose.

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