terça-feira, 29 de setembro de 2009

Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas

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Em 2001 estreou a série de TV Os Normais, criado por Alexandre Machado, Fernanda Young e (pasmem) Jorge Furtado. A série teve três temporadas e contava a história de Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres), um casal normal de classe média vivendo situações divertidas enquanto tentam suportar um ao outro. Os Normais fez tanto sucesso que acabou gerando um filho: Os Normais - O Filme (2003). Nele era mostrado como Rui e Vani se conheceram. Era engraçadinho, mas não maravilhoso.

Agora, seis anos depois, estreia Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas. Rui e Vani estão noivos há 13 anos e o sexo não é mais uma coisa frequente. Então ela decide apimentar o relacionamento e sugere um ménage-à-trois. E é isso. Apenas isso. O problema apresentado ("falta de sexo") é esquecido e substituído por "não somos casados". A história não se aprofunda mais e nem se resolve.

Recheado de piadas fáceis e óbvias, atuações medíocres e vulgaridade, Os Normais 2 foi feito para agradar aqueles que gostam de qualquer coisa. As piadas são tão forçadas que tira qualquer credibilidade que o filme poderia ter. Como a cena onde um homem demonstra seu medo ao esperar por um exame de próstata. Às 3h da madrugada! Que tipo de pessoa faz um exame de próstata (ou qualquer outro exame rotineiro) de madrugada? Ou então a mulher francesa que busca por uma babá em um bar de esquina. Ou o bicho preguiça que aparece na história sem motivo e vai embora da mesma maneira.

Os cenários são tão artificiais quanto as atuações e tudo parece ter saído da revista Casa Cláudia. Sem falar nos cenários em CG... Para que tanto cenário falso? Até Copacabana era digital! E todos os personagens estão sempre impecáveis, incluindo a prostituta, que deve ser a mais bem vestida da região.

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O filme é cheio de atrizes da Globo, como Danielle Winits, Claudia Raia, Alinne Moraes, Daniele Suzuki e Drica Moraes, e isso só o deixa ainda mais intragável. Cláudia Raia atuava como se estivesse sendo obrigada a fazer isso. Talvez alguém estivesse mantendo o Edson Celulari como refém.

Sem falar que Vani usa drogas duas vezes, como se drogas fosse algo engraçado. Use drogas e seja legal.

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Enfim. Os Normais 2 é um filme bobo e vulgar, que conseguiu fazer com que eu - que aguento qualquer filme - me arrependesse de ter ido ao cinema ao invés de ficar em casa dando banho no meu cachorro. Não há dúvida do porquê de Jorge Furtado ter saído do projeto.

Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas (2009)
Direção: José Alvarenga Jr.
Roteiro: Alexandre Machado e Fernanda Young
Elenco: Luiz Fernando Guimarães , Fernanda Torres , Drica Moraes , Danielle Winits , Daniele Suzuki, Claudia Raia

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Epitafios – A Primeira Temporada

Atenção: contém spoilers

Para uma produção ser realmente boa, um dos principais requisitos é que seus elementos (roteiro, atuações, trilha, fotografia, etc.) estejam em harmonia. Existem casos onde um fator excepcionalmente bom pode compensar um ruim, como por exemplo o filme O Enigma de Kaspar Hauser, onde um roteiro inteligente contrabalança as atuações inexperientes. Já Carrie, A Estranha tem um péssimo roteiro adaptado e uma edição medíocre, mas as atuações, a edição de arte e a trilha sonora se destacam tanto que o filme cumpre seu papel. Mas existem também situações onde mesmo uma produção muito boa não sustenta falhas gigantescas de roteiro. Este é o caso do ótimo seriado policial argentino:

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É muito difícil um seriado ter a capacidade de prender o espectador até o fim. Sendo este seriado uma produção argentina de baixo orçamento, a dificuldade triplica. Epitafios consegue esta façanha e tem tudo para entrar para a lista de melhores seriados investigativos de todos os tempos.

Seu personagem principal, Renzo Márquez, é carismático e sustenta uma das principais características das produções argentinas: ele é uma pessoa comum como você e eu. O “vilão” é o Jigsaw argentino: ele prevê todos os passos de suas vítimas (como quando ele criou um plano onde era necessário estar ventando no exato momento em que um tiro acertasse uma janela e que o vento chegasse até sua vítima e esta pegasse fogo) sem cometer nenhum erro. Mesmo com planos mirabolantes, o assassino também é carismático, até mais do que os outros personagens.

clip_image002Renzo: Hijo de puta!

A trilha sonora se destaca pelas músicas retiradas da ópera Carmen de Bizet, que tocam sempre que o assassino aparece. A fotografia e a edição de arte são excelentes, passando a sensação de cotidiano, de algo comum, e ao mesmo tempo mantém um clima de suspense arrebatador.

As atuações são medianas, com exceção de Cecília Roth (a policial Marina Segal), Villanueva Cosse (o pai de Renzo) e Antonio Birabent (Bruno Costas, o assassino). Seus pontos altos são o plot, que é extremamente envolvente e o assassino como um personagem ativo na trama.

Se Epitafios possui tantos pontos altos, o que estraga a série?

clip_image003Laura: Dios! ¿Por qué somos tan incapaces?

Renzo: Hija de puta!

A resposta é o roteiro, que dá a sensação de ter sido feito com muita pressa, sem que houvesse atenção aos detalhes. Ele tem muitas bobagens em termos de história, coisas que poderiam ter sido evitadas. Os exemplos são inúmeros. A incapacidade da polícia de investigar o caso corretamente, Renzo ter em suas mãos um papel com a impressão digital do assassino e isso ser simplesmente ignorado, Bruno quebrando vidros de carros o tempo todo como se fosse a coisa mais fácil e natural do mundo ou então invadindo a casa das pessoas sem nem precisar arrombar a porta. Sem falar na homenagem aos Muppets que aparece no episódio 07:

A primeira temporada começa com polícia investigando a cena de um crime onde foram encontradas lápides falsas, além do corpo da vítima. Em uma delas está o nome de Renzo, um policial afastado do serviço, e da psicóloga Laura Santini.

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O rosto do assassino é mostrado desde o início, mas sua verdadeira identidade só é revelada quase no fim. Ele é Bruno Costas, um ex-agente de viagens que viu o amor de sua vida morrer por culpa da negligencia de uma série de pessoas.

Cinco anos antes do plot principal, um professor foi demitido após ser acusado injustamente de abusar de uma aluna. Ele se revolta quando não recebe o dinheiro que a escola lhe devia e por isso sequestra quatro alunos que tiveram que ficar depois da aula para terminar uma experiência de química. A polícia foi chamada e um dos alunos, Alejandro Mujica, consegue fugir. Como ele consegue nunca é explicado. O professor exige que ele volte ou queimará os outros reféns – que já estão cobertos de gasolina.

Então entra em cena Laura, a psicóloga do professor, que vem para convencer o garoto a voltar. Ela está segura de que é o melhor a ser feito (na verdade ela estava errada, porque ela é uma psicóloga de uma exemplar incompetência). Ele volta, e o professor joga combustível nele também. Enquanto isso, os policiais Renzo e Benitez discutem se devem ou não invadir a escola. Renzo discorda, mas seu parceiro insiste e os dois põem em prática seu plano “infalível”.

Por algum motivo que nunca é revelado, Renzo está em cima do prédio, em um TELHADO DE VIDRO. O vidro quebra, afinal Renzo não é o que se pode chamar de um usuário de Coscarque. COMO eles não sabiam que isso iria acontecer é que é a questão. Mais um exemplo de como roteiro peca. Renzo cai lá de cima, assustando o professor, que derruba o lança-chama que estava em sua mão e os alunos pegam fogo.

O legal é que Alejandro estava solto e poderia muito bem ter fugido, mas decidiu queimar até a morte porque isso era bem mais divertido.

De qualquer forma, Bruno era namorado de Alejandro e decide vingar a morte de seu amor. Planejou friamente uma série de mortes criativas para cada um dos envolvidos, direta ou indiretamente, na morte dele. E para Bruno, os principais responsáveis eram Laura e Renzo. Sua marca registrada é avisar as próximas mortes enviando epitáfios que mostravam a relação da pessoa com o acidente na escola.

A história é extremamente criativa, mas são inúmeras as vezes nas quais o roteiro mal elaborado mexe com a inteligência do espectador. Por exemplo, Bruno entra na casa de Renzo e tenta matar seu pai. Vai embora ileso e, para completar, Renzo expulsa a polícia da cena do crime antes que estes peguem as diversas impressões digitais que o assassino deixou lá.

O crime só começa a ser investigado de verdade quando Marina Segal, a única policial competente da Argentina, é chamada. Em um capítulo e meio ela descobre quem é o assassino e porque ele mata. Para demonstrar sua habilidade superior ela analisa uma foto onde os quatro alunos estão e descobre o reflexo de Bruno na janela de um ônibus. O que ela fez não foi nada espetacular, mas se você considerar que Renzo tenta salvar uma vítima usando um carro quase sem combustível, até que o que ela fez foi surpreendente. Claro, estamos falando de Cecila Roth, que trabalhou em quase todos os filmes do Almodóvar, então não podíamos esperar menos.

clip_image005Marina: Soy una chica muy buena.

Mas a glória dela acaba rápido, já que Bruno consegue ser mais esperto do que Deus. Ele a sequestra e a tortura psicologicamente, a obrigando a matar a própria mãe. Marina fica tão traumatizada que perde a capacidade de atuação e de profissionalismo. Talvez tenha acontecido isso com o Renzo também. E com toda a polícia argentina. Pensando bem, deve ter acontecido com os roteiristas.

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No início da temporada, Bruno obriga Laura e Renzo a terem um caso, se não ele matará o filho dela. Isso acaba criando um vínculo grande entre os dois – que já haviam se relacionado no passado. O motivo só nos é revelado no derradeiro episódio final, que segue a linha de filmes como Seven.

Bruno finge sua morte de uma maneira absurda (nem vamos entrar em detalhes) e prevê que toda a nação vai acreditar nisso. Meses depois ele volta e sequestra Laura. Renzo, com sua incrível competência, sem poder contar com Marina e sua atual abobadagem, vai até onde tudo isso começou – a escola onde Alejandro morreu – na esperança de encontrar a psicóloga. A polícia investiga o local e encontra Laura, amarrada de costas no meio de uma sala, coberta de algum combustível. Bruno fica olhando por uma janela e Renzo atira nele. A janela se quebra e a sala se enche de vento. Acontece que a suposta Laura está coberta de fósforo, uma substância química que pega fogo espontaneamente ao ter contato com o vento.

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Renzo persegue Bruno, que se prende em espécie de cruz e diz que o policial deve perdoá-lo, pois ele tem mais coisas a revelar. Renzo, ignorante como sempre, mata Bruno. Obviamente aquela não era Laura, e esta agora está desaparecida.

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Um mês depois, Renzo recebe um CD que Bruno mandou para ele antes de morrer. Incrível que, mesmo morto, ele é mais inteligente do que a polícia. No CD é revelado o verdadeiro paradeiro de Laura: a casa onde foi encontrada a lápide com o nome dela e dele. Renzo vai até lá e encontra seu cadáver. Ela foi enterrada viva e se Renzo não tivesse matado Bruno, ela teria sobrevivido.

Bruno colocou o nome dois na mesma lápide, prevendo que eles se apaixonariam, que Renzo não conseguiria salvá-la e que este se mataria ao encontrá-la morta. Mas Renzo não faz isso. E pela primeira vez em toda a temporada Bruno estava errado! Renzo apenas vai embora, desconsolado. Fim.

A série tem um ótimo argumento, mas peca muito no roteiro, principalmente em detalhes que deveriam dar credibilidade a história. Laura é a pior psicóloga de todo o universo, chegando ao ponto de falar sobre sua vida pessoal para seus pacientes. Renzo é incapaz de enxergar o óbvio e negligencia métodos policias elementares. Marina fica burra do nada. E Bruno tem a inteligência de um semideus, o que só é perdoável porque ele é gostosinho.

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Talvez tenha sido por causa destas falhas que a série demorou cinco anos para ganhar sua segunda temporada, que aparenta ser superior a sua antecessora. Epitafios é uma excelente série policial, mas não se detenha a detalhes para poder apreciá-la.

Epitafios (2004)
Direção: Jorge Nisco e Alberto Lecchi
Roteiro: Marcelo Slavich e Walter Slavich
Elenco: Julio Chávez, Antonio Birabent, Cecília Roth, Villanueva Cosse e Paola Krum

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