terça-feira, 7 de abril de 2009

Rá-Tim-Bum

No Brasil, existe uma variedade incrível de programas dedicados ao público infantil, vários de qualidade e com temática educativa. Imagino que o principal representante deste gênero é o Castelo Rá-Tim-Bum, que até versão cinematográfica já ganhou. Mas antes de Castelo Rá-Tim-Bum entrar em cena, o seu pai (por assim dizer) chegava as telas brasileiras, apavorando criancinhas indefesas e dando a pequena Paloma pesadelos que ela jamais iria esquecer. Um programa tão assustador, tão medonho, tão horrendo... Que não existiu nenhuma criança brasileira na década de 90 que nunca tenha assistido. E provavelmente amado. Eu estou falando de:

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Rá-Tim-Bum era um programa infantil produzido pela TV Cultura no ano de 1989 e criado pelo diretor Fernando Meirelles (sim, o cara que dirigiu Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira). Quando era criança, assistia a maioria destes programas infantis que passavam na televisão. Pandorga, TV Colosso, Caça Talentos, O Mundo da Lua, O Mundo de Beakman, Castelo Rá-Tim-Bum, Glub Glub – que só passava desenhos alemães e franceses, mudos... dá para ter uma noção de porque sou como sou. Ou seja, todas aquelas produções que hoje não fariam sucesso (com exceção do Pandorga, produção gaúcha que continua firme forte na TVE), porque nossas crianças só querem saber de sexo, drogas e Facebook. Por assistir qualquer coisa que passava na televisão eu acabava vendo Rá-Tim-Bum também. E quando eu digo "vendo" eu quero dizer "me ajuda mamãe, eu não quero morrer".

“Careeecaaaa... Presta muita atenção porque senão vou te matar que nem fiz com meus pais”. Meu... Deus... Do... Céu... Tudo nesse programa era assustador. Geralmente quando assistia este programa, eu olhava alguns minutos e trocava de canal. Especialmente se apareciam os porcos do banheiros, dos quais falarei mais tarde. Tenho quase certeza que o programa acabou porque metade do elenco foi presa. Olhe isso, por exemplo:

Nossa... "Será que você está preparado para responder?! Será?! Morte! Sangue!" O objetivo do programa era educar as crianças... E nada melhor do que assustar elas até as cuecas ficarem pesadas! Só que não eram só de esquetes educativas que este programa era feito. Tínhamos também lições de moral! E para isso existia o "Senta que lá vem a história", quadro que narrava uma história em capítulos, durante o episódio do programa. Ele meio que nos obrigava a ver tudo para poder saber o final. O problema é que as histórias geralmente seguiam o modelo peculiar (*cof* do demônio *cof*) do programa.

Tinha um no qual uma família ia se mudar e o filho ficava com medo que deixassem ele na casa antiga. Ou algo assim. Não sei bem, decidi apagar da minha memória. Mas era esse tipo de coisa meiga e delicada... Garanto que Hans Christian Andersen poderia ser roteirista desse programa...

Então:

- Quadros educativos e assustadores clip_image003

- Quadros com lição de moral assustadoras clip_image003[1]

O que está faltando? Ah! Já sei! Quadros sem sentido e assustadores!

 

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Dos sem sentido, meu favorito é o do Detetive Máscara, que para quem não sabe foi a inspiração para o filme The Spirit (brincadeira... só que não). Esse quadro mostra um detetive e seu rato tentando desvendar "mistérios" em seu escritório. No quadro abaixo, nós encontramos o brilhante detetive provando que ele é um grande investigador! Não importa o quão idiota ele seja, continuo achando ele lindo.

imageSpirit: Hmmm... Se eu ficar fazendo filmes ruins, como terei tempo para fazer meus exercícios preparatórios com os dedos?

E qual a esquete que eu jamais irei esquecer? Qual é aquela que marcou meu cérebro como se fosse brasa? O nome A Refrescante Sensação de Bem Estar faz vocês sentirem alguma coisa? Não? E que tal adultos albinos vestidos de porcos em um banheiro cheio de vapor te mandando escovar os dentes como se essa fosse a última coisa que você fará na vida?

“Escove os dentes… Lave as orelhas… Mate os seus pais… Coma órgãos… Lave o cabelo… Pare de comer porco… Coma humanos…” Até hoje sinto medo disso e fico algumas horas sem entrar no banheiro, tomando banho na pia da cozinha. Para piorar a situação, o quadro mostrava crianças nuas tomando banho, enquanto esses... Seres... Cantavam e assustavam a pobre Palominha que nem sabia o que estava acontecendo. Não lembro de assistir essa esquete inteira quando pequena.

O programa também tinha vários personagens que ficaram famosos, como o Professor Tibúrcio (interpretado por Marcelo Tas que também ficou conhecido como o cara do “porque sim não é resposta” e que hoje está no programa CQC).

Rá-Tim-Bum é até hoje um programa bastante perturbador. Mas é ruim? Não, na realidade não é. Assistindo hoje depois de muitos anos achei as esquetes engraçadas, divertidas, originais, criativas e bastante educacionais para criancinhas pequenas. Tem vários aspectos assustadores e sem sentido, mas noto que essas coisas influenciaram positivamente os meus gostos futuros, especialmente na área cinematográfica. Com certeza um programa como Rá-Tim-Bum é muito mais interessante do que os desenhos que estão na moda hoje, como Ben 10 e qualquer coisa que a Xuxa esteja produzindo. A televisão aberta deveria dar mais espaço para estes programas antigos.

Rá-Tim-Bum (1989)
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Flávio de Souza, Cláudia Dalla Verde e Dionisio Jacob
Elenco: Grace Gianoukas, Roney Facchini, João Victor d'Alves, Pamella Reis, Jéssica Canoletti, Wandi Doratiotto, Carlos Moreno, Paulo Contier, Marcelo Tas, Iara Jamra, Eliana Fonseca, Norival Rizzo, Marcelo Mansfield

sábado, 4 de abril de 2009

Dúvida

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Em 1964, uma freira acusa o novo padre de abusar sexualmente do único aluno negro da escola onde ambos trabalham. Fiquei muito surpresa com a qualidade do filme. A história é simples ao mesmo tempo em que o roteiro se mantém enigmático do início ao fim. É raro um diálogo onde as personagens falam exatamente o que elas querem dizer. Fica tudo subentendido, e nós, expectadores, ficamos presos em uma rede de conversas densas e amarguradas, enquanto as personagens tentam de todas as maneiras sair da prisão de palavras que elas mesmas criaram.

Os takes são excelentes e o diretor de arte (Peter Rogness, de Across the Universe) deixou tudo com um aspecto bastante real. Também não posso deixar de citar as atuações! Amy Adams é uma das melhores atrizes novatas que eu conheço. Ela já tinha se destacado em Encantada e agora mostra que também sabe interpretar papéis mais maduros.

Já Philip Seymour Hoffman está melhor do que nunca. Ele não é um grande ator e parece estar sempre interpretando ele mesmo, mas neste filme (assim como fez em Capote) mostra que, com uma boa direção, pode se tornar um grande ator. Mas o grande destaque do filme é Meryl Streep. Isso não é nenhuma novidade, já que estamos falando de uma das melhores atrizes de cinema de todos os tempos (se não a melhor). Meryl encarna o papel da madre Aloysius Beauvier, que parece perdida em um mundo moderno com o qual não está acostumada.

Este filme sim é uma obra de arte. Segundo Aristóteles, arte é aquilo que causa catarse. Ou seja, tem que nos libertar de nossos pensamentos e emoções, purificar nossa alma, nos envolver. E é isso que Dúvida faz.

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Doubt (2008)
Direção: John Patrick Shanley
Roteiro: John Patrick Shanley, baseado na peça dele mesmo
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis
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