segunda-feira, 16 de março de 2009

Inocência à Venda

Atenção: contém spoilers

Desde criança, aprendi que insônia atrai coisas e pensamentos ruins. Quem duvida disso que leia Insônia, do Stephen King. Ou apenas continue lendo este texto. Tenho certeza de que irá entender. Outro dia, não conseguindo dormir, resolvi fazer algo que raramente faço assistir filme dublado na televisão aberta. E foi assim que me deparei com um filme tão ruim, tão mal feito que merecia um texto aqui no Judas.

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Dirigido por Pierre Gang, o filme fala sobre os perigos do mundo da moda e que todas as garotas que se arrumam e não andam por aí vestindo um pano sujo, não possuem conteúdo. Um ótimo filme, com uma ótima lição de moral. Vamos aos fatos. Inocência à Venda é um filme de 2005 feito para a televisão. No elenco, um monte de pessoas que se parecem com alguém que se parece famoso. A palavra aqui é "qualidade".

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Nos créditos iniciais somos apresentados à Mia, uma adolescente que se veste como uma maloqueira para poder provar que tem personalidade. Junto dela está sua amiga escabelada, que só está no filme para poder encher o saco.

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As duas estão em um shopping center assistindo um concurso de talentos, onde todas as concorrentes são loiras e gostosas. A maloqueira e a descabelada se irritam, pois acham que aquelas garotas não possuem nenhum talento além dos peitos enormes. O que é verdade, porque se elas tivessem algum talento, não estariam fazendo ponta neste filme. Então, na plateia, aparece alguém com uma câmera filmando de maneira sinistra as garotas que estão se apresentando. Um homem sinistro, com um boné sinistro e uma câmera sinistra. *trovões*

Ele vê Mia e se interessa. Não sei bem o porquê. As garotas saem dali e vão para a praça de alimentação para que Mia largue seu currículo em uma lanchonete. Aqui acontece uma das minhas cenas favoritas de todo o filme. Mia chega até a atendente do restaurante e pede para deixar o currículo. A mulher pega e diz que a garota deve preencher um formulário, mas Mia diz que tudo que o gerente precisa saber está escrito no currículo. A atendente insiste e Mia diz que só quer "facilitar o trabalho deles". Como resposta, a atendente diz "Olhe como meu trabalho é fácil" e rasga o currículo, indo embora com uma cara satisfeita. Sabe, de uma maneira bem profissional. Foi nesse momento que eu descobri que estava diante de uma obra prima do mundo contemporâneo. E eu nem ao menos sabia sobre o que era essa bosta história.

A garota, indignada, sai soltando as patas em Deus e todo mundo quando do nada surge Malcolm Lowe, caça-talentos e uma das pessoas mais genéricas que eu já vi na vida. Digno de um filme da Disney. Ele é interpretado por ninguém mais, ninguém menos do que JR Bourne! Que fez aquele filme... Sabe... Aquele que... Tinha aquela... E tinha... Sabe... O filme... Ãhn... Bem... Deixa para lá.

clip_image005[5]Compre já sua máquina de pessoas genéricas!

Malcolm entrega à Mia um cartão e diz que ela tem potencial para ser modelo. Se eu soubesse que se vestir mal e não usar maquiagem eram um atrativo para caça-talentos eu sairia mais vezes de casa. A partir daqui o filme passa por uma fase clichê, com muitas brigas, fotos, melhores amigas chatas e vômitos (da minha parte). Vejam bem, Mia é o clichê dos filmes de adolescente! Tudo que se precisa para ganhar esse título, ela tem:

- Pais divorciados clip_image007[17]

- Um(a) pai/mãe ausente/morto(a) clip_image007[1][2]

- Uma melhor amiga esquisita e ciumenta clip_image007[2][2]

- Uma paixonite na escola clip_image007[3][2]

- Colegas que pegam em seu pé clip_image007[4][2]

- A popularidade de uma ameba clip_image007[5][2]

- O estilo de um favelado clip_image007[6][2]

- Um nerdismo grandioso clip_image007[7][2]

Acho que está na hora dos meus pais se divorciarem, para que eu tenha meu próprio filme. Depois de uma discussão com sua mãe, Mia resolve procurar o tal caça talentos. As duas ficam encantadas com todo o glamour do mundo da moda e acabam se entregando de corpo e alma. E assim, Mia vira uma top model! É muito engraçada essa parte, porque é óbvio que o diretor deve pensar que os espectadores são estúpidos (bem, alguns são, mas não necessariamente por causa do filme). Quer dizer... Está certo que eu nunca fui modelo, mas minha irmã foi e ela não ganhou U$1500 no seu primeiro dia de trabalho (nem nos outros, o que talvez explique porque essa fase da vida dela durou tão pouco tempo). E ela é muito mais bonita do que essa tal de Mia. E eu tenho certeza absoluta de que ela nunca se prostituiu... Vai ver o cara que contratou ela não era o Sr. Genérico.

clip_image008[5]Super Genéricos atacar! Formato de Já te Esqueci!

Uma coisa que eu acho incrível nesse tipo de filme é como as pessoas começam te venerar no momento em que você começa a se vestir bem. Do nada, todos adoram Mia. Porque ela é glamourosa, ela se veste bem, ela tem grana e agora ela tem um namorado! É isso ai! Viva a futilidade!

(Ok, eu sei que isso não está muito longe da realidade...)

Para não fugir à regra, no momento em que Mia fica popular, sua melhor amiga vira uma chata de galochas. Eu odeio melhores amigas chonhas de filmes. Especialmente porque eu já tive uma melhor amiga assim. Elas são sempre mais feias e menos interessantes que a personagem principal e no momento em que elas notam isso, viram as costas e/ou fazem um fiasco. Mas a deste filme, em especial, me fez ter vontade de ser estuprada por uma sanguessuga gigante enquanto furo os olhos com pregos enferrujados. Odeio ela mais do que odeio as outras pelo simples fato de que as acusações dela não fazem sentido nenhum! Para vocês terem uma ideia, a primeira reclamação dela é "Você está usando rosa". O quê? É proibido usar rosa? Usar rosa deixa as pessoas menos inteligentes? O mais engraçado é que a amiga que eu tive também era assim e acho que é isso que me faz odiar ainda mais essa personagem. A guria fica enchendo o saco, misturando clichês como "Você não é mais a mesma" com frases sem sentido como "Você está se prostituindo". Vai arder no fogo do inferno sua invejosa de merda! Me desculpem, eu ando meio estressada. Mas puxa, a guria não está fazendo nada de mais.

Mas ai é que tá o grande tchan do filme. Por algum motivo, que nunca é explicado, todos acham que ser modelo e se prostituir é a mesma coisa. É sério! Minha irmã conta que algumas colegas dela do curso de modelos se prostituiam, mas não era a regra. O filme é tão exagerado neste aspecto que Mia recebe um e-mail de uma instituição que investiga casos de pedofilia, avisando dos perigos que ela corre.

E, enquanto isso, no lustre do castelo no plot secudário: lembram do cara sinistro? Aparentemente ele é um pedófilo assassino que está obcecado por Mia. E mais uma vez o roteirista tira do seu incrível baú de situações inexplicáveis o fato de que o tarado sabe que Mia e a garota sugismunda do shopping são a mesma pessoa, apesar de ela estar completamente diferente. Como? Talvez ele estivesse seguindo ela, talvez ele tenha poderes mentais, talvez ele tenha lido o roteiro. Jamais saberemos. Jamais...

Mia quer ganhar mais dinheiro, e para isso começa a tirar fotos sensuais. O que é engraçado, considerando que ela não tem corpo de modelo e sim de mulher normal. Ela não é feia, e até é sexy... Mas ela pesa mais de 40kg! Que absurdo!

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clip_image010_thumb[3]Mia... Dando esperança para garotas gordinhas desde 2005

As tais fotos são publicadas no website da empresa e Mia começa a se sentir mal com isso. Porque ela achava que essas fotos seriam escondidas e não publicadas, afinal, não é como se ela ganhasse para isso. O medo cresce quando o tarado (usando o nome "Gabriel") começa a ameaçar ela através de e-mails. Para piorar, a melhor amiga dela também encontra as fotos e fica indignada por Mia ter sido "tãoooo fácil". Minha querida... Uma garota faz o que ela tem que fazer.

A garota é descuidada e não nota que a menina mais loira e popular da escola também está vendo as fotos. O resultado disso é que, no dia seguinte, as fotos foram espalhadas por todo o colégio e Mia está sendo chamada de prostituta. E o namorado dela termina o namoro. Porque afinal, ele gosta dela pelo que ela é... Mesmo que ele só tenha notado quem ela é no dia em que ela começou a usar saia e blusas decotadas. Nossa... Ou eu sou liberal de mais ou essa gente precisa urgentemente de terapia.

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OK! Então nossa heroína se desespera, porque uma coisa é ser ameaçada de morte, outra é perder o status na escola! Ai é caso de polícia! Ela procura a instituição, que eu falei antes, e pede ajuda. Mas, obviamente, eles não podem ajudar porque Malcolm não fez nada de mais. Err dããã. Quando ela chega na agência, descobre que tudo que Malcolm faz, na verdade, é uma grande mentira. As fotos nunca são mostradas a revistas e coisas do gênero. Aparentemente ele paga as garotas, tira fotos delas, mostra elas para caras ricos e quando elas fazem 18 anos ele tenta convencê-las a tirar fotos nuas. Se elas não querem, não tem problema. Oh, Malcolm! SEU BASTARDO!

Mia tenta pedir para Malcolm tirar suas fotos da internet e deixar ela ir embora. Ele diz que se ela não quiser mais ser modelo, não tem problema, mas que ele não irá tirar as fotos do site. Ela fica enfurecida, briga, faz um fiasco e corre para casa para contar para a mãe dela. A mãe resolve contratar um advogado, e fica tudo bem. Mas o que ninguém esperava era que Gabriel, o tarado, começaria a mandar flores para Mia. FLORES! Esse filme tem tanta maldade que me deixa triste.

E lá vai Mia novamente implorar para Malcolm tirar as fotos. Ele diz que tira, se ela fizer um striptease ao vivo pela internet. Ok... Isso não faz sentido nenhum com o resto do filme! Na cena que ela procura a instituição, eles deixam claro que Malcolm é muito cuidadoso e muito inteligente e por isso nunca conseguiram pegar ele. E ai ele comete esse deslize? Não faz sentido algum! Por quê???? Por quê??? Tenho que me acalmar... Já está quase no fim...

Certo. Ela concorda, e avisa os detetives (ou seja lá o que eles são). Um deles, um homem com cara de nerd, se compromete em assistir a transmissão e avisar a polícia. O interessante sobre esse cara é que ele é obviamente o vilão. Ele é nerd, tem cara de tarado, mal aparece no filme e é a única pessoa que poderia ser o tarado.

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I'm going to EAT you!!!!

Mas eu não quero estragar o final para vocês. Então Mia começa a fazer o strip, mas no meio da coisa toda entra em pânico e foge. O detetive se irrita e coloca... Oh meu Deus!!!!!! UM BONÉ SINISTRO!! Nãoooooooooooo!!!!!!!!!

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Como a garota ainda não sabe que o detetive é Gabriel (porque ela não estava assistindo ao mesmo filme que eu), ela corre para a instituição só para encontrar um tarado enlouquecido. Ele obriga Mia a tirar a roupa, para ele poder filmar. Alguém deveria dizer para ela que as coisas seriam bem mais fáceis se ela simplesmente ficasse pelada.

Não lembro exatamente como – é possível que isso nem tenha sido explicado direito – a mãe e o namorado aparecem no lugar para salvar Mia. E essa é a segunda melhor cena do filme! O namorado começa a perseguir o tarado pelos corredores do lugar e fica vagando com cara de otário até que o tarado o ataca pelas costas. A mãe de Mia vem correndo e bate no cara, que desmaia. Mais tarde, Mia agradece o namorado por ter salvo sua vida... Sendo que ele não fez porra nenhuma. É melhor nem perguntar.

O filme acaba como todo bom filme deve acabar! Mia volta a se vestir mal, seu namorado a ama pelo que ela é, sua melhor amiga volta a ser feliz e sua mãe volta a ser pobre. E todos ficam felizes para sempre... Ah é? Em algum outro lugar do mundo, um jovem olha as fotos sensuais de Mia em seu computador e as publica em um web site...

FIM

Eu quero morrer, por favor. Esse filme é horroroso, não tem nenhuma profundidade, nem significado e é completamente esquecível. Não é um filme B... É um filme F. Ou W! Não conseguir dormir nunca foi tão tenebroso! Se você está pensando em olhar, lá vai uma dica: Vá achar o que fazer!

clip_image013[5]Malcolm: Eu juro que nosso próximo filme será melhor! Juro!

Selling Innocence (2005)
Direção: Pierre Gang
Roteiro: John Moffatt
Elenco: Mimi Rogers, JR Bourne, Sarah Lind, Tamara Hope, Mike Lobel
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